Paola Salgado
É fundadora da PS Contrata, psicóloga, empresária e especialista em recrutamento estratégico. Atua conectando decisões de pessoas à cultura, à performance e ao crescimento dos negócios. Também é cofundadora do Connect Horse Líderes e conselheira do Progra
LIDERANÇA E NEGÓCIOS
A paranoia da produtividade: uma reflexão que todo líder deve ter
O desafio é se tornar presente, mesmo sem estar presente, em meio a tantas mudanças que chegaram às empresas
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19/10/2026 04:00
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Nunca foi tão fácil falar com o líder. E, talvez justamente por isso, nunca foi tão raro conversar com ele.
As equipes hoje são híbridas. Parte do time trabalha ao lado do gestor, parte está em outra cidade, às vezes em outro país. As estruturas ficaram mais enxutas e, por uma questão de custo, cada líder responde por um número cada vez maior de pessoas. A tecnologia, com a inteligência artificial à frente, tornou dispensáveis muitos dos encontros que antes eram obrigatórios. O problema que exigia uma reunião com a liderança agora se resolve com uma resposta rápida no WhatsApp.
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Não há nada de errado nisso. São ganhos reais de agilidade, de alcance e de eficiência, e nenhuma empresa que queira crescer pode abrir mão deles. Mas existe um efeito colateral que tem ficado cada vez mais visível: o distanciamento entre líderes e liderados. E a distância física, aos poucos, vira distância de percepção. Quem não está perto deixa de enxergar o trabalho do outro. Quem não é visto passa a sentir que precisa provar, o tempo todo, que está trabalhando.
Os números mostram o tamanho desse descompasso. Em 2022, a Microsoft ouviu mais de 20 mil profissionais em 11 países. Apenas 12% dos líderes disseram ter plena confiança de que suas equipes híbridas eram produtivas, enquanto 87% dos funcionários se consideravam produtivos. Para 85% dos gestores, ficou difícil confiar que as pessoas estavam produzindo. A empresa deu nome ao fenômeno: "paranoia da produtividade". É quando o líder atribui a perda de produtividade a pessoas que não estariam trabalhando, mesmo com horas, reuniões e outros indicadores de atividade em alta.
Ou seja: os dois lados olham para o mesmo trabalho e enxergam realidades opostas.
Quem está certo e quem está errado nessa história? Nenhum dos dois. E não é uma pesquisa isolada: diversos estudos vêm apontando a mesma diferença. Em 2026, a Korn Ferry mostrou que 79% dos CEOs percebem ganhos de eficiência com a inteligência artificial, contra apenas 51% dos colaboradores.
E não são só as pesquisas. No meu dia a dia, sempre que estou com gestores ou com seus liderados, ouço a mesma coisa. É difícil encontrar hoje um gestor que se diga plenamente satisfeito com o seu time, e a palavra produtividade aparece em quase toda conversa. Quando vou para as equipes, porém, o relato é outro: elas falam do tamanho da cobrança, do quanto estão entregando e de como esse esforço nem sempre é percebido e reconhecido. Vejo isso com clareza nos processos de contratação. Quando contratamos alguém e acompanhamos esse profissional e o seu gestor, como sempre fazemos, as duas versões aparecem lado a lado. O diagnóstico está posto, e o fenômeno só cresce.
É aqui que eu proponho um olhar mais atento: para um líder, perceber de verdade o desenvolvimento do seu time é essencial. E essa percepção não se resume ao resultado final. Claro que, em qualquer empresa, o resultado é o que importa. Mas a distância tem nos tirado a capacidade de ver o processo que leva até ele. E um bom resultado só nasce de um bom processo.
Nem sempre a culpa é só da distância. Muitas vezes, o próprio líder está sobrecarregado, acumulando funções e tentando dar conta de tudo ao mesmo tempo, como é tão comum no momento que vivemos. Sobra pouco espaço para olhar o caminho, e não apenas a entrega.
Por isso, o desafio é se tornar presente, mesmo sem estar presente, em meio a tantas mudanças que chegaram às empresas. Cabe a cada líder se perguntar o quanto realmente enxerga a sua equipe, e o que está fazendo para que ela também se sinta enxergada.
Afinal, quando decidimos assumir um papel de liderança, tudo o que acontece com a nossa equipe passa a ser, sim, responsabilidade nossa. E essa é uma reflexão que precisamos fazer.
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