Perdemos o chefe que valia a pena admirar — e a culpa talvez seja nossa
O gestor que a equipe admirava, que as pessoas queriam seguir de verdade, parece cada vez mais raro
Mais lidas
compartilhe
SIGA NO
Lembro quando conversava com meu pai, avós e tios sobre suas carreiras profissionais: sempre apareciam (ou até hoje aparecem) alguns nomes, e você vê nos olhos a admiração quando falam deles. Um chefe, um mentor, alguém que admiravam e que moldou o jeito como trabalham até hoje. Com meus irmãos, a mesma coisa. E comigo, com quase 20 anos de mercado, também: carrego ensinamentos de pessoas que admirei desde a faculdade, gente que me mostrou o profissional que eu queria ser e cujos aprendizados fazem parte dos meus valores até hoje.
Mas tenho uma inquietação que não me larga: essa figura está desaparecendo ao longo da trajetória profissional das pessoas. O gestor que a equipe admirava, que as pessoas queriam seguir de verdade, parece cada vez mais raro. E, com ele, some também aquilo que sustentava a relação entre liderança e liderados: a troca real, a confiança, o ganha-ganha.
A pergunta incômoda, a que poucos empresários gostam de fazer, é: até onde temos culpa nisso?
Estamos formando uma geração que admira mais um influenciador, alguém que fala exatamente o que ela quer ouvir, do que pessoas reais, que estão de fato transformando o mercado com trabalho, erro e reconstrução. É fácil culpar a geração por isso. "Não têm referência", "não querem compromisso", "só pensam em trabalhar pouco e ganhar muito". Conheço o discurso e não estou dizendo que ele está totalmente errado. Mas e se a parte desse problema for que nós, gestores e empresários, simplesmente não aprendemos a nos comunicar com eles e nem a ser realmente admirados?
Repare no contraste. Quando vamos falar com um cliente, temos um cuidado quase cirúrgico. Estudamos a dor dele, adaptamos a linguagem, escutamos antes de propor, ajustamos o discurso até sermos ouvidos. Investimos tempo e dinheiro para entender como o cliente quer ser abordado e não como nós gostaríamos de abordá-lo.
Por que não fazemos o mesmo com quem ocupa as cadeiras dentro da nossa própria empresa?
Na prática, seguimos oferecendo o que sempre oferecemos: o feedback, a reunião em que só a liderança fala, o "no meu tempo era assim", a porta aberta que ninguém se sente à vontade para atravessar. Chamamos isso de mentoria, mas é monólogo. E aí estranhamos quando o jovem talento aprende mais com um vídeo de 60 segundos do que com o gestor sentado a três metros dele. Ele não escolheu a tela por preguiça (às vezes é, sim, mas aí já não estamos falando dos talentos que queremos realmente manter na empresa). Escolheu porque a tela se esforçou para conversar com ele. Nós, muitas vezes, até nos importamos, e isso é genuíno. O que falta é o esforço para que o diálogo realmente aconteça.
Sim, é uma geração com particularidades, e não são poucas. Cresceu em outro tempo, com outras referências, outra relação com autoridade e com trabalho. Isso é real. Mas particularidade não é sentença final, é informação sobre a qual precisamos trabalhar. O cliente também tem as dele, e nem por isso desistimos de conquistá-lo.
O influenciador venceu essa disputa por um motivo simples e desconfortável: ele fala a língua deles. Esforçou-se para entender como aquela geração consome, sente e decide. Nós, na maioria das vezes, continuamos esperando que ela se adapte ao nosso jeito, do mesmo jeito que funcionava há 20 anos e que hoje soa distante, quando não arrogante.
Liderar nunca foi sobre ter razão. É sobre ser seguido. E ninguém é seguido por decreto.
Talvez a admiração não tenha morrido. Talvez ela só tenha mudado de endereço porque paramos de disputá-la. O mentor que meu pai teve, que eu tive, não nasceu pronto: ele escolheu se importar, se comunicar e estar presente de um jeito que marcou.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
A pergunta que fica para nós que lideramos é honesta e um pouco dura: estamos dispostos a fazer esse mesmo esforço? Ou vamos seguir reclamando que ninguém mais admira ninguém, sem perceber que talvez tenhamos parado de dar motivo para sermos admirados?
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
