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Luiz Carlos Azedo
ENTRE LINHAS

Escudo de Trump mira ponto fraco de Lula e cerca as fronteiras do Brasil

O crime organizado virou uma patologia no Brasil. O Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) já não são apenas quadrilhas dedicadas ao tráfico

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O beabá da sociologia moderna começa com uma grande provocação de seu criador, Émile Durkheim, sociólogo, antropólogo e filósofo francês, que forma a santíssima trindade dos pensadores clássicos das ciências sociais com Karl Marx e Max Weber. O seu principal mérito foi emancipar a sociologia como disciplina autónoma, elaborando um método científico próprio e diferenciando-a da psicologia e da filosofia. A provocação foi afirmar que o crime é um fato social normal, em As regras do método sociológico (Martins Fontes).

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Durkheim não pretendia justificá-lo, ao contrário, assinalava que nenhuma sociedade conhecida havia eliminado as transgressões e que a reação a elas reafirmava as regras coletivas. Para o sociólogo, o “normal” é todo fenômeno recorrente em sociedades de um mesmo tipo e estágio de desenvolvimento. O “patológico” aparece quando esse fenômeno ultrapassa certos limites e compromete a vida coletiva. A fronteira, portanto, não separa sociedades com crime daquelas sem crime, mas sociedades capazes de fazer valer suas regras diante do crime daquelas em que o poder criminoso passa a disputá-las.


É aí que mora o perigo para o governo Lula na escalada de tensões com a Casa Branca. O crime organizado virou uma patologia no Brasil. O Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) já não podem ser compreendidos apenas como quadrilhas dedicadas ao tráfico. Sua força está também no controle de territórios, na circulação internacional de drogas, na lavagem de dinheiro e na capacidade de impor regras à população, sem falar na crescente infiltração no sistema de segurança, na administração pública e no poder local, como já acontece em São Paulo e Rio de Janeiro.


Onde uma facção decide quem pode circular, trabalhar ou abrir um comércio, o problema deixa de ser somente policial: a autoridade do Estado foi substituída, ainda que parcialmente. A dimensão da violência é o indicador que a coisa está fora da ordem. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o país registrou 40.775 mortes violentas intencionais em 2025, mesmo considerando que houve uma queda de 8,2% em relação ao ano anterior. É uma redução relevante, mas significa mais de 110 mortos por dia, mais do que as guerras da Ucrânia, de Gaza e do Irã.


O indicador também reúne crimes e mortes decorrentes de intervenções policiais. Entretanto, mostra o custo humano de uma ordem pública que continua frágil em vastas áreas do país. Entretanto, não é verdade que o governo federal esteja parado. Segundo o Ministério da Justiça, ações integradas com as forças estaduais apreenderam 336,4 toneladas de drogas e o prejuízo imposto às organizações criminosas é estimado em R$ 7,6 bilhões.


O governo lançou o programa Brasil Contra o Crime Organizado e ampliou a cooperação entre órgãos de segurança; a ofensiva contra as finanças das facções inclui investigações sobre sua presença na economia formal. Apreensões e operações demonstram capacidade de reação, mas, isoladamente, não medem quanto poder territorial ou econômico o crime perdeu. A criação do Sistema Único de Segurança Pública e de um ministério para operá-lo. porém, enfrentou resistência dos governadores de oposição e até hoje não foi aprovada pelo Congresso.

Divisor de águas

O fato é que a segurança pública se tornou a maior vulnerabilidade da relação entre Brasília e a Casa Branca. A disputa tarifária admite barganhas, exceções e prazos. Entretanto, Donald Trump transformou o combate às organizações criminosas em critério de alinhamento político na América Latina. Em maio, seu governo classificou PCC e CV como organizações terroristas; agora, o *Escudo das Américas*, segundo o texto apresentado, propõe sanções a facções da região e reúne 14 países, sem a participação brasileira, entre os quais Argentina, Bolívia, Colômbia, Guiana, Paraguai e Peru, sem contar o Chile.


Em alguns desses países, a vitória eleitoral de governantes alinhados aos Estados Unidos teve como divisor de águas o endurecimento do combate às organizações criminosas. A criação do Escudo das Américas, por si, não é uma intervenção no Brasil. Ainda assim, oferece a Trump um instrumento de pressão diplomática e um argumento eleitoral de forte apelo, que beneficia todos os candidatos de oposição, em especial Flávio Bolsonaro (PL), aliado da Casa Branca.


Lula tem razão ao afirmar que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”. Ao defender a soberania do Brasil, porém, seria mais convincente se apresentasse resultados verificáveis contra as facções e de cooperação internacional sob regras aceitas pelo país. Washington pode explorar a distância entre as estatísticas de apreensão e a experiência cotidiana de brasileiros submetidos ao domínio criminoso. Essa distância pesa mais eleitoralmente do que as tarifas impostas às exportações brasileiras.

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Para complicar a situação, emergiu outra patologia, de natureza institucional. As revelações sobre relações de integrantes do Supremo Tribunal Federal com o banqueiro Daniel Vorcaro e a condução do caso Master atingem a confiança na Corte. Contatos ou vínculos divulgados não equivalem, por si, à prova de crime; porém, exigem esclarecimento, exame de eventuais conflitos de interesse e respeito ao devido processo. Não são coisas normais. Ainda que se tente escamoteá-las. Para Durkheim, a patologia mais grave não é a existência do delito. É a perda da capacidade de contê-lo e de cobrar responsabilidade de quem exerce o poder.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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