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Era pedra cantada que o escândalo do INSS se transformaria numa dor de cabeça para a campanha de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O que não estava no radar dos gerenciadores de crise do Palácio do Planalto era que, além das investigações sobre Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, o caso chegaria a Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, ex-chefe de gabinete do presidente, assessor discreto e poderoso, que atendia as ligações para o celular do presidente da República e entrava no seu gabinete sem se anunciar.
Marcola confirmou ter recebido R$ 80 mil da empresária Roberta Luchsinger, investigada pela Polícia Federal e apontada como amiga e possível intermediária de interesses do filho de Lula. Marcola afirma que o dinheiro foi um empréstimo pessoal e que a dívida já foi quitada. O problema político é que, até agora, não apresentou publicamente os comprovantes da contratação e do pagamento. Surpreendido, Lula cobrou explicações de seu ex-auxiliar, que deixou o gabinete para atuar na campanha há algumas semanas.
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Mais do que um constrangimento para o Palácio do Planalto, o episódio criou uma crise na campanha de Lula, porque a movimentação financeira partiu de uma personagem investigada no escândalo do INSS, com práticas de lobista que levaram a Polícia Federal a abrir três frentes de apuração envolvendo Lulinha. De certa forma, o caso equaliza os desgastes de seu principal adversário, Flávio Bolsonaro (PL), com seu envolvimento com o banqueiro Daniel Vorcaro, protagonista do escândalo do Banco Master.
O escândalo do INSS ressurgiu no pior momento. Depois de gastar bilhões de reais para ressarcir aposentados e pensionistas pelos descontos associativos não autorizados em seus benefícios, o governo esperava virar a página da Operação Sem Desconto. A restituição reduziu o prejuízo imediato das vítimas, porém, não eliminou a pergunta mais perigosa: quem se beneficiou do esquema e até onde chegavam suas conexões dentro do poder?
As investigações começaram pela cobrança irregular de mensalidades de associações e sindicatos nos benefícios previdenciários. Segundo a Polícia Federal, entidades obtinham autorizações inexistentes ou fraudulentas e descontavam valores diretamente de aposentadorias e pensões. Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, é apontado como um dos principais operadores do esquema, que envolve servidores, dirigentes de entidades, empresários e agentes políticos na arrecadação, intermediação e/ou da lavagem do dinheiro.
O nome de Lulinha apareceu a partir das relações de Antunes com Roberta Luchsinger. Edson Claro, ex-funcionário do Careca do INSS, declarou que o lobista teria feito um pagamento milionário ao filho do presidente e lhe repassaria uma “mesada” de R$ 300 mil. Uma mensagem analisada pelos investigadores registra Antunes indicando “o filho do rapaz” como destinatário de um pagamento, seguido de uma transferência de R$ 300 mil para uma empresa de Roberta. A interpretação de que a expressão se referia a Lulinha é uma hipótese ainda sob investigação.
Tráfico de influência
A Polícia Federal também identificou viagens de Lulinha, Antunes e Roberta à Europa em períodos coincidentes. A defesa reconhece que Lulinha viajou a convite do empresário para conhecer um projeto relacionado a medicamentos à base de canabidiol, mas nega que os dois tenham mantido negócios. Também rejeita a acusação de que o filho de Lula tenha recebido dinheiro do Careca do INSS ou atuado para facilitar seus interesses no governo.
A primeira investigação autorizada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça apura suspeitas de corrupção e tráfico de influência em favor de Antunes. O objetivo é verificar se Lulinha teria usado sua proximidade com o presidente para abrir portas no Ministério da Saúde e em outros órgãos para projetos de cannabis medicinal e telemedicina.
A segunda apura uma possível atuação em benefício de empresários interessados em contratos da Dataprev, empresa pública que administra dados previdenciários. A terceira, autorizada pelo ministro Flávio Dino, examina negócios supostamente irregulares de um grupo ligado a Roberta Luchsinger em diferentes áreas da administração federal. Os detalhes permanecem sob sigilo.
A defesa diz que Lulinha se colocará à disposição das autoridades, nega qualquer relação direta ou indireta com irregularidades e acusa setores da Polícia Federal de promover vazamentos seletivos com objetivos eleitorais. Dino autorizou uma investigação específica sobre a divulgação ilegal de informações sigilosas. Lula, por sua vez, adotou a única posição defensável: afirmou que não protegerá o filho e que ele responderá como qualquer cidadão.
Tudo isso já era sabido. A novidade é caso de Marcola. O ex-chefe de gabinete não é acusado de participar das fraudes contra aposentados. Entretanto, a PF apura a origem, a finalidade e a documentação dos R$ 80 mil recebidos de Roberta. Mesmo que o empréstimo seja comprovadamente lícito, sua existência amplia a proximidade da empresária com o círculo pessoal e político de Lula.
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O escândalo bateu à porta do Planalto. A consequência eleitoral pode ser grave porque o desgaste ocorre quando Lula e Flávio Bolsonaro já aparecem tecnicamente empatados. Pesquisa Nexus/BTG divulgada em 3 de agosto mostra Lula com 46% e Flávio com 45% num eventual segundo turno, dentro da margem de erro de dois pontos.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
