Léo Drummond
Léo Drummond
Homem LGBTQIAP e coordenador e professor da pós-graduação em Diversidade e Inclusão nas Organizações da HSM University (São Paulo)
ARTIGO

O que você faz com os seus privilégios?

Privilégio não é sobre ter uma vida fácil. É reconhecer que algumas de suas características não são barreiras adicionais no seu caminho

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“Não vejo mais preconceito como antigamente.”

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“LGBT pode casar, pode trabalhar, pode tudo, o que eles ainda querem?”

Essas são frases que escuto com frequência quando o tema é diversidade e inclusão. Em geral, não vêm de pessoas mal-intencionadas, mas de quem observa alguns avanços e por isso já conclui que a equidade e a igualdade foram alcançadas. A lógica parece simples: se há leis, alguma visibilidade e alguns direitos garantidos, então o problema estaria resolvido. Mas será que está mesmo?

Uma forma interessante de refletir sobre isso é pensar no conceito de privilégio. Privilégio não significa ter uma vida fácil, sem dificuldades ou sofrimentos. Todas as pessoas tem suas lutas. Os homens brancos, heterossexuais e sem dificiências também têm suas batalhas. Privilégio significa apenas que determinada característica da sua identidade não é uma barreira adicional no seu caminho. É aquilo que você não precisa pensar, se preocupar, explicar, esconder ou justificar para viver a sua vida cotidiana.

Se você é heterossexual, por exemplo, provavelmente nunca precisou avaliar se é seguro dar a mão à pessoa que ama quando está passeando na rua. Nunca evitou conversar sobre a vida pessoal com colegas de trabalho, com medo de descobrirem que você se relaciona com alguém do mesmo gênero e isso trazer consequências negativas para a sua carreira. Nunca precisou preparar um “discurso” para contar algo sobre si, sendo que outras pessoas contam de maneira espontânea desde sempre.

Eu, como um homem gay, não compartilho desse privilégio. Já passei por tudo isso e muitos de meus amigos e minhas amigas LGBTQIAPN+ também.

Ao mesmo tempo, também reconheço que carrego outros privilégios. Sou um homem cisgênero, branco e sem deficiência. Isso significa que, em diversas situações, minha identidade não é questionada, meu corpo não é alvo de estranhamento e minha presença não é colocada sob suspeita. Em muitos espaços, sou lido como alguém que “se encaixa”, e isso abre portas, facilita relações e reduz barreiras.

Perceber isso foi um processo importante. Porque, muitas vezes, tendemos a enxergar o mundo a partir das barreiras que enfrentamos, mas nem sempre a partir dos caminhos que nos são facilitados. 

Podemos, ao mesmo tempo, enfrentar obstáculos em uma dimensão da nossa identidade e usufruir de vantagens em outras. Uma mulher branca pode vivenciar o machismo, mas não o racismo. Um homem negro pode enfrentar o racismo, mas não o machismo. Uma pessoa LGBTQIAPN+ pode sofrer com a LGBT+fobia, mas ainda assim se beneficiar de outros marcadores sociais. Isso torna a conversa mais complexa, e também mais honesta.

O privilégio aparece no cotidiano 

Eu me lembro de uma situação simples, mas reveladora. Em um evento corporativo, uma colega comentou com naturalidade que passaria o fim de semana viajando com o marido para Salvador. Ninguém reagiu, ninguém questionou, ninguém demonstrou surpresa. Em seguida, quando mencionei que já viajei para lá com meu marido e dei algumas dicas de restaurantes, percebi olhares curiosos, um sorriso encorajador de uma colega e dois outros colegas passaram a tentar não trocar contato visual comigo no momento. O assunto mudou repentinamente. Nada explícito, nada agressivo, mas suficiente para mostrar que nós, pessoas LGBTQIAPN+, ainda não ocupamos exatamente o mesmo lugar social que as pessoas heterossexuais.

É nessas pequenas diferenças que o privilégio se revela. Muitas vezes, associamos preconceito apenas a grandes atos de violência. Mas ele também aparece nas microdinâmicas do cotidiano: no estranhamento, na curiosidade excessiva, na piada constrangedora, na necessidade constante de explicação. São sinais de que algumas identidades ainda são vistas como estranhas, e não como parte legítima da diversidade humana.

Exemplifico também com uma situação mais formal: alguns anos atrás, uma headhunter me procurou no LinkedIn, me convidando para participar de um processo seletivo. Eu ocupava um cargo de gerente naquela época e estava sendo convidado para ocupar um cargo de diretoria em outra empresa, com salário e benefícios melhores. Em uma de nossas conversas expliquei que sou gay, casado e que não escondo isso. Falei que a oportunidade poderia ser interessante para mim, caso a empresa não tivesse uma cultura homofóbica, pois ser respeitado é algo inegociável. 

Ela pediu um tempo para conversar com pessoas da empresa e voltou com um discurso de que “a empresa não é homofóbica, mas podem acontecer certas situações porque a equipe ainda é mais conservadora”. Ou seja, ela estava medindo as próprias palavras para me dizer que eu sofreria alguma discriminação se eu falasse abertamente quem eu sou. Não aceitei o emprego, obviamente.

É também nessas estruturas organizacionais que o privilégio aparece. Qual pessoa heterossexual passaria por isso? Estou ilustrando o assunto com minhas questões, mas basta mudar os exemplos para ver que o mecanismo é similar se falarmos de privilégios de gênero ou de raça, por exemplo.

O papel das pessoas aliadas

Reconhecer privilégios não é um exercício de culpa, mas de consciência. Não se trata de ignorar as próprias dificuldades, mas de compreender que outras pessoas podem enfrentar barreiras adicionais que nós não enfrentamos, e que isso exige responsabilidade.

Quando entendemos onde temos vantagens, também podemos entender onde temos poder de influência. Se você têm privilégios, que portas pode abrir com eles? Que comportamentos pode questionar a partir do seu lugar de privilégio? Usar o seu privilégio para ser uma pessoa aliada é essencial. É aí que todas as pessoas tem uma importante função nas discussões sobre Diversidade e Inclusão. O que homens podem fazer pela equidade de gênero? O que pessoas brancas podem contra o racismo? O que pessoas cisgênero e heterossexuais podem fazer pela inclusão LGBTQIAPN+? O que pessoas sem deficiência devem fazer por uma cultura sem capacitismo?

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A equidade plena ainda não é uma realidade, mas ela certamente não será construída sem esse tipo de consciência. Por isso, deixo uma reflexão: quais são os privilégios que você carrega, aqueles que talvez você nunca tenha precisado perceber porque sempre estiveram ali? E, mais importante do que isso: como você pode usar esses privilégios não apenas para si, mas como facilitadores para apoiar, incluir e ampliar os caminhos de pessoas que ainda encontram barreiras adicionais pelo caminho?

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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