O Dia das Mulheres está se aproximando e hoje convidei para estar comigo na coluna uma parceira com quem tenho trabalhado, colaborado e aprendido muito. O texto de hoje é meu e da professora Clara Teixeira.
Em muitas das palestras que conduzimos em dupla sobre equidade de gênero, costumamos começar com uma pergunta simples: quem aqui é mulher? Em seguida, fazemos outra: quem não é mulher, mas tem em sua vida ao menos uma mulher que ama e não gostaria que fosse vítima de violências, assédio ou injustiças?
Geralmente, quase todas as mãos se levantam.
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Esse pequeno exercício mostra algo importante: a equidade de gênero não é uma pauta restrita às mulheres. Ela atravessa relações, afetos, famílias, ambientes de trabalho e a própria forma como organizamos a sociedade. Se a desigualdade de gênero impacta diretamente pelo menos metade da população, a transformação certamente precisa envolver todas as pessoas.
Um convite que sempre fazemos nesses encontros é retirar, por alguns instantes, o caráter moral do machismo. Não fazemos isso para relativizar a violência ou minimizar seus efeitos, mas para reconhecer que vivemos em uma sociedade estruturalmente machista que todas as pessoas de alguma forma reproduzem esses comportamentos e que precisamos assumir isso para ir em frente. Esse reconhecimento não é uma acusação individual, é ponto de partida para a mudança coletiva.
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O machismo não limita apenas as mulheres (obviamente, impacta mais fortemente a elas). Ele também impõe expectativas rígidas aos homens: a obrigação de serem provedores, a dificuldade de expressar emoções, a cobrança por força e invulnerabilidade. Ao mesmo tempo em que subordina mulheres, aprisiona homens em modelos estreitos de masculinidade. Reconhecer isso ajuda a compreender que a equidade de gênero não é uma disputa entre grupos, mas um processo de libertação social mais amplo.
Equidade de gênero se faz no dia a dia
Ao longo das nossas trajetórias, percebemos momentos que marcaram mudanças importantes nesse caminho no entendimento e na busca da equidade de gênero. Para Clara, esses momentos vieram, por exemplo, “quando encontrei mulheres inspiradoras em posições de liderança, quando mergulhei em estudos feministas e quando enfrentei a síndrome da impostora para ocupar espaços que pareciam não me pertencer”.
Para Léo, “vi a mudança acontecendo em mim mesmo quando passei a agir intencionalmente como aliado: ao abrir propositalmente espaço para mulheres em equipes predominantemente masculinas, ao convidar mulheres para dividir o protagonismo comigo em apresentações que tinham sido solicitadas a mim e ao não me omitir diante de piadas ou comentários machistas que eu presenciava outros homens fazendo”.
Esses episódios mostram que a equidade não se constrói apenas com discursos, mas com decisões cotidianas. No mundo do trabalho, por exemplo, os dados ainda revelam desigualdades persistentes: mulheres são maioria na população, mas continuam sub-representadas em cargos de liderança e recebem, em média, salários menores. Muitas precisam deixar o mercado após a maternidade, enquanto outras enfrentam barreiras invisíveis para crescer profissionalmente. Ainda assim, organizações com maior diversidade de gênero tendem a ser mais inovadoras, resilientes e ter melhores resultados. Ou seja, a equidade não é apenas questão de justiça, é também estratégia inteligente para o desenvolvimento organizacional e social.
O papel dos homens como aliados
Um elemento fundamental nesse processo de mudança é a participação de homens aliados. Ser aliado não significa falar pelas mulheres ou ocupar o centro do debate, mas assumir responsabilidade ativa na transformação. Isso passa por escutar mais, estudar o tema, rever comportamentos, interromper piadas e comentários machistas, criar oportunidades e influenciar outros homens a fazer o mesmo.
Em nossas conversas com equipes, percebemos que muitos homens desejam contribuir, mas não sabem como. Às vezes, o medo de errar ou de ser mal interpretado os faz optar por não agir. No entanto, a omissão também mantém desigualdades. O caminho não é a perfeição, mas a disposição de aprender, corrigir rotas e agir com intencionalidade.
A equidade de gênero também se fortalece quando mulheres apoiam outras mulheres, compartilham experiências e constroem redes de sororidade e mentoria. Esse movimento coletivo amplia possibilidades e rompe a lógica da competição imposta por estruturas desiguais.
No fim das contas, quem ganha com a equidade de gênero? Ganham as mulheres, que acessam oportunidades mais justas; ganham as organizações, que se tornam mais inovadoras e com melhores resultados; ganha a sociedade, que reduz desigualdades; e ganham os homens, que passam a viver masculinidades mais livres e saudáveis.
Talvez a equidade de gênero não aconteça de um dia para o outro. Mas ela se constrói em pequenos gestos, decisões e posicionamentos que, somados, produzem mudanças culturais profundas.
Por isso, a reflexão que deixamos — para nós e para quem nos lê — é direta: quais compromissos você tem disposição para assumir para que a equidade de gênero se torne uma prática real no seu cotidiano?
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