Recentemente, tive a oportunidade de entrevistar o desembargador Paulo Galizia, ex-presidente do Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo. A entrevista completa está disponível no canal Juventude Reversa, no YouTube, e seus principais trechos vêm sendo publicados nas minhas redes sociais.

Conversamos sobre inteligência artificial (IA), desinformação, confiança na mídia e os desafios das próximas eleições. Ao terminar a entrevista, porém, fiquei pensando em um tema que ficou nas entrelinhas da nossa conversa: a cidadania está se tornando cada vez mais digital.

Durante muitos anos, exercer nossos direitos significava apresentar documentos em papel ou comparecer a um atendimento presencial. Hoje, boa parte dessa relação acontece pela tela do celular.

O e-Título é um exemplo dessa transformação. Assim como o Gov.br e tantos outros serviços digitais, ele mostra que os direitos continuam os mesmos. O jeito de exercê-los é que mudou.

Essa mudança pode parecer natural para quem nasceu em um mundo conectado. Mas milhões de brasileiros que hoje têm mais de 50 anos precisaram aprender essa nova linguagem já na vida adulta. Não porque lhes falte capacidade, mas porque viveram uma transformação tecnológica sem precedentes.

É justamente essa realidade que inspira o trabalho da Juventude Reversa. Estamos desenvolvendo uma metodologia para avaliar a experiência de uso de pessoas com mais de 50 anos em serviços digitais. O estudo com o e-Título é a primeira aplicação dessa metodologia, concebida para identificar barreiras, compreender dificuldades e contribuir para que plataformas e aplicativos sejam cada vez mais acessíveis.

Porque inclusão digital não acontece quando um serviço é colocado no ar. Ela acontece quando as pessoas conseguem utilizá-lo com autonomia.

Essa reflexão vale para o e-Título, mas também para o Gov.br, os aplicativos bancários, os serviços da Previdência e tantas outras plataformas que passaram a fazer parte do nosso cotidiano.

Vivemos em um país que envelhece rapidamente e, ao mesmo tempo, em uma sociedade que se digitaliza na mesma velocidade.

Por isso, a acessibilidade digital deixou de ser apenas uma questão tecnológica.

Tornou-se uma questão de cidadania.

Ao fim da entrevista com Paulo Galizia, percebi que falamos sobre eleições, mas saí pensando em algo maior.

Como garantir que milhões de brasileiros continuem exercendo plenamente seus direitos em um mundo cada vez mais digital?

Talvez uma parte da resposta esteja em mudarmos a forma de enxergar o problema.

O desafio não é ensinar pessoas com mais de 50 anos a usar tecnologia.

O verdadeiro desafio é fazer com que a tecnologia respeite a forma como essas pessoas aprendem, se comunicam e exercem sua cidadania.

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Afinal, uma sociedade só é verdadeiramente digital quando ninguém fica para trás.

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