Grande parte da atuação da Juventude Reversa gira em torno de um tema que raramente aparece nas manchetes: a acessibilidade digital.
Quando falamos em acessibilidade, muita gente pensa apenas em rampas, elevadores ou pisos táteis. Mas existe uma barreira igualmente invisível: a dificuldade de milhões de brasileiros em utilizar, com autonomia, os serviços digitais que hoje fazem parte da vida cotidiana.
É por isso que a Juventude Reversa existe. Nossa proposta nunca foi apenas ensinar pessoas mais velhas a usar tecnologia. Nossa luta é outra: fazer com que a tecnologia seja desenhada para pessoas reais, inclusive aquelas que envelhecem.
Há poucos dias, li um manifesto publicado por Cláudia S. Franco, do perfil @sobresessentar. Ela questiona uma afirmação cada vez mais comum: a de que a população idosa brasileira já estaria plenamente conectada. Sua reflexão dialoga diretamente com uma pergunta que acompanha a Juventude Reversa desde o início: afinal, o que significa estar conectado?
Segundo a metodologia da PNAD Contínua – Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC), uma pessoa é considerada usuária da internet quando utilizou a rede, por qualquer equipamento e em qualquer local, pelo menos uma vez nos três meses anteriores à entrevista. O IBGE mede exatamente aquilo que se propõe a medir.
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O problema começa quando esse dado passa a ser interpretado como sinônimo de inclusão digital.
Conectividade e autonomia são coisas diferentes.
Uma pessoa pode trocar mensagens pelo WhatsApp todos os dias, assistir a vídeos, conversar com a família e aparecer nas estatísticas como usuária da internet. Ainda assim, pode não conseguir acessar o Gov.br, recuperar uma senha, realizar uma validação facial, consultar o e-Título, pagar uma conta ou concluir uma operação bancária sem pedir ajuda.
Ela está conectada.
Mas talvez ainda não esteja verdadeiramente incluída.
Essa distinção fica ainda mais evidente quando observamos outras fontes. Enquanto o IBGE mede o uso da internet, pesquisas como a TIC Domicílios, do Cetic.br, investigam competências digitais e barreiras de uso. Ao mesmo tempo, dados da Febraban e do Banco Central mostram uma sociedade cada vez mais digitalizada, com serviços que migram rapidamente para aplicativos e canais eletrônicos.
O desafio é que a velocidade dessa transformação nem sempre acompanha a capacidade das pessoas de utilizá-la com independência.
É justamente essa lacuna que a Juventude Reversa procura estudar.
Quando avaliamos um aplicativo, um site ou um serviço público, nossa pergunta nunca é apenas: "Você usa internet?"
Queremos saber se a pessoa consegue exercer sua cidadania digital.
Consegue acessar o Gov.br?
Realizar uma autenticação facial?
Recuperar uma senha?
Entender uma mensagem de erro?
Concluir uma operação bancária sem pedir ajuda?
É essa autonomia que determina se alguém está, de fato, incluído digitalmente.
Talvez tenha chegado a hora de ampliarmos a discussão.
O Brasil mede muito bem quantas pessoas acessam a internet.
Mas talvez seja hora de medir quantos conseguem, de fato, participar plenamente do ambiente digital.
Porque conexão sem autonomia representa apenas o primeiro passo.
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O IBGE mede conectividade. A Juventude Reversa mede autonomia.
