Em um ambiente cada vez mais polarizado — e no qual o papel da ciência e das universidades tem sido frequentemente tensionado no debate público — iniciativas como o The Conversation ganham relevância. Trata-se de uma organização jornalística independente e sem fins lucrativos que publica artigos escritos por pesquisadores acadêmicos, editados por jornalistas, com o objetivo de traduzir conhecimento científico para o público em geral, com transparência e base em evidências.
Foi nesse contexto que, em 14 de outubro de 2025, a plataforma publicou um artigo provocativo sobre envelhecimento, questionando uma ideia bastante difundida: será que os 60 anos representam declínio — ou podem marcar um novo auge?
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O estudo citado, publicado na revista Intelligence, reconhece que habilidades cognitivas “brutas”, como velocidade de processamento e memória imediata, tendem a atingir o pico mais cedo. Atletas alcançam o auge físico antes dos 30; matemáticos costumam produzir seus trabalhos mais revolucionários por volta dos 35; campeões de xadrez raramente mantêm o domínio após os 40. Mas esse é apenas um recorte.
Quando se combinam 16 dimensões psicológicas — incluindo conhecimento acumulado, traços de personalidade, estabilidade emocional e capacidade de evitar vieses cognitivos — o resultado é diferente: o funcionamento psicológico geral tende a atingir seu ponto de maior equilíbrio entre os 55 e 60 anos. Algumas características, como conscienciosidade e estabilidade emocional, continuam evoluindo até idades ainda mais avançadas.
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Não por acaso, muitos líderes assumem posições de maior responsabilidade justamente nessa fase da vida. Charles Darwin publicou A Origem das Espécies aos 50 anos. Beethoven, aos 53 e já profundamente surdo, estreou sua Nona Sinfonia. Papas são eleitos, em regra, já em idade madura, quando se espera discernimento e prudência acumulados ao longo da vida.
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O contraste com o mercado de trabalho é evidente. Enquanto a pesquisa aponta que a maturidade pode representar um ponto de equilíbrio entre experiência, estabilidade emocional e qualidade de julgamento, profissionais acima dos 50 anos ainda enfrentam resistência na contratação e na reinserção. Confiamos decisões complexas a líderes maduros, mas tratamos currículos longos como risco. Se a ciência sugere um auge na maturidade, por que o mercado ainda a interpreta como declínio?
