Eu nunca tive “casa de vó”. Desde que me entendo por gente, minhas avós moravam com as filhas. Vovó Nisia mudou-se para a minha própria casa – olha, fui quase criada por vó! Mas era uma vó fora dos estereótipos de meiguices, chamegos e comidas quentinhas.
Dizem que ela sempre foi resistente ao trabalho doméstico, a ponto de, em uma certa época da vida, ter ido morar com meu avô no Grande Hotel, na Rua da Bahia. Era uma vó danada de engraçada, mas não era de humor fácil. Virginiana, implicava com tudo, falava e fazia o que dava na telha.
Tinha sempre guardados, no armário do seu quarto, bombons Sonho de Valsa e Ouro Branco comprados nas Lojas Americanas e uma garrafa de licor de cereja para tomar um cálice antes de dormir. Seu jantar costumava ser um pão com o bife do almoço e um copo de Coca-Cola. Viveu 105 anos desse jeito.
Vovó Marocas, a das empadinhas de queijo mais deliciosas do mundo, conheci já velhinha (mesmo não sendo tão idosa assim), sempre de coque e casaquinho, pois tinha medo de vento nas costas. Gostava de café com leite e de arrematar as refeições com só mais um bocadinho de tudo. Seu caderno de receitas era primoroso; tinha receita de Brevidades, Manuês, Come-e-cala, Esperanças, Para Agradar Marido. Mas eu nunca a vi cozinhar.
Falo isso tudo para me desculpar e, quem sabe, me proteger do que vou dizer: acho essa ideia de aplicar a expressão “comida de vó” para definir a culinária de um restaurante – inclusive o meu – uma bobagem. É quase preguiça de parar para pensar melhor no que a comida daquele lugar diz sobre o gosto, o sabor e o saber. É uma visão idílica a respeito de uma comida de memória que ocupa um lugar amoroso nas lembranças das pessoas. Isso é comovente, mas não deveria definir a prática culinária de um local.
Fico até em dúvida se dizer que fazemos “comida de vó” é crítica ou elogio. Isso sem contar que, debaixo desse conceito, cabe de tudo, até aquela comida meio sem graça, aquele legume super-refogado (prefiro os crocantes) ou o arroz lotado de alho (prefiro quando é só um perfume).
Meu sonho é encontrar um Pequeno Dicionário de Palavras Gostosas para Descrever Comidas e Lugares de Comer. Nem precisa inventar palavras novas, basta recuperar alguns adjetivos em desuso, como formidável ou garbo, e eliminar expressões esparramadas por aí sem critério algum – como é o caso da superutilizada “comida afetiva”, outra implicância minha.
Nina Horta falava em “comida de alma”. Falar assim eu acho bonito! Diz daquela comida que consola, oferece aconchego, dá segurança e não deixa dúvidas: cada um tem a sua. A minha é macarrão cabelo de anjo passado na manteiga, na mesma frigideira onde antes se passou um bifinho. Mas se no dia eu estiver em busca de ternura, vou querer mingauzinho de fubá com pedacinhos de Queijo Minas Artesanal. Ai, até dói meu coração!
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Me conta: qual é a sua comida de alma? Só não vale responder que é a comida da sua vó!
