Qual criança pode sonhar? Ando às voltas com essa pergunta há alguns dias. Existe uma crueldade bastante sofisticada na maneira como ensinamos nossas crianças a sonhar. Primeiro, perguntamos o que elas querem ser quando crescer, como se, ser criança, não fosse importante. Depois, dizemos que elas podem ser tudo o que quiserem. Em seguida, tratamos de apresentar uma lista interminável de condições para que isso aconteça. É preciso ter a cor certa, o corpo certo, o cabelo certo, aprender no ritmo esperado, morar no bairro certo e, de preferência, não dar muito trabalho.

A liberdade, como quase tudo no Brasil, vem acompanhada de letras miúdas. Quem cresce num corpo considerado fora do padrão conhece bem essa pedagogia. Antes mesmo de aprender palavras como racismo, gordofobia ou capacitismo, uma criança pode descobrir que existe alguma coisa em sua aparência, em seus movimentos ou em sua maneira de ocupar o mundo que incomoda os outros.

Às vezes, essa descoberta acontece no recreio. Outras vezes, dentro de casa, na consulta médica, diante do espelho ou quando alguém resolve fazer uma observação supostamente inocente sobre seu cabelo, sua pele ou seu tamanho.

Eu sei alguma coisa sobre isso. Crescer num corpo gordo é descobrir cedo que o mundo tem uma régua e que ela raramente serve para medir aquilo que realmente importa. É aprender que uma cadeira pode ser pequena demais, que uma roupa pode não existir no seu tamanho e que o olhar dos outros consegue transformar até uma festa de aniversário ou uma brincadeira no pátio num tribunal.

O curioso é que ninguém parece perguntar por que a cadeira é tão pequena. O problema, invariavelmente, está no corpo que não cabe nela. E essa lógica não começa nem termina na gordofobia.
Uma criança negra que nunca encontra personagens parecidos consigo nos livros recebe uma mensagem. Uma criança com deficiência que não consegue brincar no parquinho recebe outra. Uma criança indígena que só vê sua cultura representada como algo pertencente ao passado aprende também qual lugar a sociedade reservou para ela.

Não adianta fingir que crianças não percebem. Elas percebem e aprendem depressa, inclusive, aquilo que nós, adultos, temos a covardia de não dizer diretamente.

A infância é um território político e a cidade é uma das primeiras instituições a ensinar quem pertence a esse território.

Pensei nisso ao conhecer iniciativas acompanhadas pela Avante – Educação e Mobilização Social, organização que trabalha com políticas públicas para a primeira infância. Em diferentes municípios brasileiros, a elaboração de planos municipais vem colocando sobre a mesa questões que deveriam ser óbvias, mas que, neste país - que flerta com o fascismo todos os dias -, ainda precisam ser reivindicadas: o direito de brincar, de aprender, de circular e de existir com dignidade.

Em Vitória, no Espírito Santo, o avanço do Plano Municipal pela Primeira Infância dialoga com uma trajetória de inclusão educacional. Em janeiro de 2025, o município empossou 100 professores aprovados em concurso para diferentes áreas da Educação Especial. Em maio de 2026, convocou outros 134 docentes da Educação Básica, sendo 62 destinados à Educação Especial.
Pode parecer apenas uma informação administrativa. Um concurso, algumas nomeações, um plano municipal. Aquelas notícias que passam despercebidas entre uma crise política e outra.
Mas estamos falando da possibilidade de uma criança encontrar uma escola preparada para recebê-la. De uma família não precisar transformar cada matrícula numa batalha. De profissionais terem condições de reconhecer diferentes formas de aprender, comunicar e estar no mundo.

Estamos falando de retirar dos corpos a obrigação de se adaptar sozinhos a uma sociedade que insiste em não se modificar.

E aqui existe uma inversão importante. Durante muito tempo, tratamos a diferença como um problema individual. O corpo que não alcança a escada, que não cabe na cadeira, que não aprende no tempo estabelecido ou que precisa de outra forma de comunicação é apresentado como inadequado.

Raramente perguntamos por que a escada, a cadeira, o currículo e a própria cidade foram projetados para tão pouca gente. Afinal, quem decidiu qual é o corpo oficial do futuro?
Em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, o planejamento para a primeira infância prevê a criação de salas de recursos multifuncionais, formação de profissionais e adequação de espaços públicos.

Entre as propostas, há uma particularmente interessante: permitir o fechamento temporário de ruas para que crianças possam brincar com segurança.

Parece pouca coisa. Uma rua fechada, algumas crianças brincando, bicicletas, correria, talvez um joelho ralado, mas pense no tamanho da inversão que isso representa.

Numa sociedade em que carros têm prioridade sobre pessoas, reservar uma rua para uma criança brincar significa questionar para quem construímos nossas cidades e reconhecer que o espaço público não deveria pertencer exclusivamente à velocidade, ao consumo e à produtividade. Uma criança brincando também está exercendo seu direito à cidade.

Esse direito não pode depender da cor de sua pele, do CEP onde mora ou das condições de seu corpo.

É aqui que a discussão racial se torna incontornável. A Avante também tem provocado municípios a incorporar a dimensão antirracista às políticas para a primeira infância. Afinal, não existe uma experiência universal de ser criança no Brasil.

Segundo o Censo 2022 do IBGE, pessoas pretas e pardas representam 55,5% da população brasileira. Ainda assim, nossa sociedade continua operando, em muitos espaços, como se a branquitude fosse a medida natural da experiência humana.

Isso aparece nos livros, nos brinquedos, nas referências de beleza, nas oportunidades e na maneira como diferentes crianças são percebidas e tratadas.

Em Caraguatatuba, no litoral paulista, o planejamento municipal reconhece a insuficiência de projetos voltados à educação das relações étnico-raciais. Entre as metas estão oito formações para profissionais da Educação Infantil, aquisição de brinquedos e livros de literatura afrocentrada e decolonial e monitoramento bimestral das ações de enfrentamento ao racismo nas escolas.

Repare na diferença entre dizer que todas as crianças são iguais e construir condições para que sejam respeitadas em suas diferenças.

Uma escola pode celebrar o Dia da Consciência Negra e continuar oferecendo, durante o restante do ano, um currículo em que pessoas negras aparecem apenas como escravizadas ou personagens secundárias. Pode afirmar que valoriza a diversidade e manter nas prateleiras livros em que quase todas as princesas, cientistas, aventureiras e protagonistas são brancas. O racismo não desaparece porque penduramos um cartaz bonito no corredor.

Uma criança não deveria precisar esperar até a vida adulta para descobrir que sua história também merece ser contada.

Isso me interessa especialmente porque trabalho com livros, corpos e narrativas. A literatura tem uma capacidade extraordinária de abrir mundos, mas também pode participar de seu fechamento. Quando determinados corpos nunca protagonizam aventuras, romances ou descobertas, estamos ensinando silenciosamente quem merece viver determinadas experiências.
Uma criança que não se encontra nas histórias pode acabar acreditando que não existe lugar para ela fora das margens. Por isso, bibliodiversidade não é apenas uma questão de mercado editorial, mas uma disputa sobre quais existências conseguimos imaginar.

E imaginar, convenhamos, é uma das primeiras maneiras de construir o futuro, mas não existe futuro possível sem cuidado.

 

Em Macaé, no Rio de Janeiro, documentos do planejamento municipal registraram 15.075 matrículas na Educação Infantil em 2025 e uma necessidade de criação de 1.045 vagas em creches ao final daquele ano. O município também prevê ampliar o quadro de profissionais especializados e estabelecer protocolos para situações de racismo e discriminação.

Uma vaga na creche não é apenas uma vaga na creche. É a possibilidade de uma criança acessar educação, alimentação, convivência e experiências de desenvolvimento. Também pode representar melhores condições para que sua família trabalhe, estude e organize a vida cotidiana.

Sabemos que, no Brasil, o cuidado continua recaindo de maneira desigual sobre as mulheres, especialmente aquelas que acumulam trabalho remunerado, responsabilidades domésticas e a criação dos filhos.

A conta costuma chegar primeiro para quem já tem menos recursos. É curioso como gostamos de repetir que as crianças são o futuro da nação, mas temos enorme dificuldade de reconhecer que esse futuro depende de gente que troca fraldas, prepara comida, acompanha consultas, enfrenta filas e passa noites sem dormir.

O futuro não nasce pronto. Alguém precisa cuidar dele. Esse alguém também precisa ser cuidado.

Em Cosmópolis, no interior paulista, o planejamento municipal estabelece como metas ampliar em pelo menos 30% os atendimentos voltados a crianças com deficiência e transtorno do espectro autista e reduzir em 80% a fila de espera de crianças diagnosticadas com TEA. Em Ubatuba, no litoral paulista, estão previstas a contratação de 13 profissionais especializados e a ampliação das condições de atendimento e acessibilidade.

São compromissos ainda sujeitos à implementação, não conquistas que possamos dar como concluídas. Mas revelam algo fundamental: aquilo que frequentemente aparece como sofrimento privado das famílias também precisa ser reconhecido como responsabilidade pública.

Nenhuma mãe deveria precisar se transformar em advogada, terapeuta, pedagoga, especialista em legislação e militante em tempo integral para garantir que seu filho tenha acesso aos próprios direitos.

Nenhuma criança deveria depender de uma família capaz de vencer uma maratona burocrática para receber atendimento. Há ainda outra dimensão do cuidado que costuma ser esquecida: o direito ao prazer.

Em São Sebastião, no litoral paulista, o planejamento inclui metas para adequar espaços culturais e fortalecer a acessibilidade em projetos artísticos apoiados pelo poder público.

É uma discussão importante porque, quando falamos de crianças com deficiência ou de famílias em situação de vulnerabilidade, frequentemente reduzimos suas necessidades à sobrevivência.

Como se bastasse garantir atendimento médico, alimentação e matrícula escolar. Como se brincar, dançar, ouvir histórias, visitar museus, frequentar teatros ou simplesmente passar uma tarde agradável numa praça fossem experiências reservadas a quem já teve todas as outras necessidades atendidas. Mas ninguém vive apenas de sobreviver.

Uma criança tem direito à beleza, ao espanto, à descoberta, ao descanso e à alegria. Não porque essas experiências a tornarão um adulto mais produtivo, mas porque ela já é uma pessoa.
Talvez esteja aí uma das nossas maiores dificuldades coletivas: reconhecer a infância como uma experiência que tem valor em si mesma.

Costumamos falar das crianças como futuros trabalhadores, profissionais, consumidores e contribuintes. É quase comovente a nossa capacidade de olhar para uma pessoa de quatro anos e enxergar, antes de tudo, sua futura utilidade econômica.

Uma criança não precisa se transformar num adulto produtivo para merecer dignidade. Ela já é alguém. E deveria poder viver plenamente agora.

Tenho pensado muito sobre a necessidade de continuar imaginando futuros possíveis, especialmente num país que parece exigir de nós uma resistência ininterrupta.
Escrevo sobre corpos há muitos anos. Sobre o meu, inclusive. E uma das coisas que mais me impressionam é perceber quanto tempo da vida podemos gastar tentando desfazer violências que começaram quando ainda nem sabíamos nomeá-las.

Quantas mulheres adultas continuam ouvindo, dentro da própria cabeça, as frases que escutaram aos seis, oito ou dez anos? Quantas pessoas aprenderam a diminuir a própria presença para não incomodar? Quantas descobriram cedo demais que ocupar espaço poderia ser interpretado como excesso?

Há um trabalho imenso de reconstrução quando crescemos acreditando que precisamos corrigir alguma coisa em nós para merecer amor, respeito ou pertencimento.
Não seria extraordinário se as próximas gerações pudessem gastar menos tempo tentando se recuperar da infância e mais tempo experimentando a vida?

Não estou falando de fabricar infâncias perfeitas. Isso seria outra fantasia adulta, dessas que costumam colocar sobre as crianças a responsabilidade de realizar nossos sonhos frustrados.
Estou falando de garantir condições materiais para que as diferenças não sejam transformadas automaticamente em desigualdades.

De construir escolas onde o racismo seja enfrentado durante todo o ano. De criar parques onde diferentes corpos possam brincar. De oferecer serviços públicos que não obriguem famílias a implorar por direitos. De assegurar que a cultura, a educação e a cidade sejam espaços de pertencimento, não de seleção.

Os planos municipais para a primeira infância são importantes justamente porque podem transformar essas questões em compromissos públicos. Mas nenhum documento, por mais bem escrito que seja, substitui orçamento, execução, participação social e acompanhamento.

O futuro não se constrói apenas com boas intenções. Aliás, de boas intenções o Brasil já produziu uma quantidade considerável de discursos, placas inaugurais e promessas eleitorais.

O que precisamos é de condições concretas para viver.

Talvez por isso me incomode tanto a facilidade com que falamos sobre inovação, inteligência artificial e cidades inteligentes enquanto ainda precisamos reivindicar o básico: uma criança conseguir brincar numa praça, encontrar um livro com personagens parecidos consigo ou entrar numa escola que esteja preparada para recebê-la.

Temos máquinas capazes de produzir imagens de futuros extraordinários, mas continuamos construindo calçadas nas quais uma cadeira de rodas não consegue passar. É um tipo bastante peculiar de progresso.

O futuro, afinal, não é uma abstração distante. Ele está sendo construído agora, inclusive nas decisões aparentemente pequenas sobre quem pode brincar, aprender, circular e ocupar espaço.
E talvez a pergunta que devêssemos fazer a cada gestor público, educador, família e adulto responsável por alguma decisão sobre a infância seja bastante simples: quais crianças ainda precisam pedir licença para existir aqui?

Porque uma sociedade que exige que suas crianças sejam menores, mais silenciosas, mais magras, mais brancas, mais obedientes ou menos diferentes para caber em seus espaços não está preparando ninguém para o futuro. Está apenas reproduzindo as limitações do passado.

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O futuro não precisa de crianças que caibam no mundo que construímos. Precisa de adultos dispostos a construir um mundo onde todas elas caibam.

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