O que fizemos de nós? Estamos no fim do mundo? O que ficará depois que passarmos? Quem contará nossas histórias? 

Há uma imagem que talvez seja uma das melhores chaves para pensar o tempo: a Sankofa. Símbolo Adinkra de origem Akan, na África Ocidental, Sankofa pode ser compreendido como “volte e pegue” -a ideia de que nunca é tarde para retornar e buscar aquilo que ficou para trás, aquilo que foi esquecido, apagado ou arrancado de nós. 

É a imagem de um pássaro que segue adiante, mas vira a cabeça para trás, como quem sabe que não existe futuro possível sem aquilo que o passado ainda tem a nos ensinar. Gosto de pensar que há algo profundamente Sankofa em olhar para a literatura, para a memória e para a autoria negra no Brasil: voltar não para permanecer no passado, nem para transformá-lo em nostalgia, mas para recuperar histórias, saberes, nomes e imaginários que foram sistematicamente silenciados - e trazê-los conosco para inventar o que ainda não existe.

Por isso, o tema da Festa Literária da Mantiqueira (FLIMA), que é PASSADOPRESENTE me fascina tanto, já que o tempo, quando olhado a partir de outras epistemologias, talvez nunca tenha sido uma linha reta.

Lendo Leda Maria Martins aprendi que talvez  o tempo não seja essa linha reta que nos ensinaram a desenhar. Talvez passado, presente e futuro não estejam enfileirados, obedientes, cada qual em seu quadrado, como se um terminasse para que o outro pudesse começar.

Em Performances do tempo espiralar: poéticas do corpo-tela, Leda propõe outra experiência de temporalidade: uma temporalidade curva, feita de movimentos de ida e volta, de simultaneidades, de memória e de devir. Um tempo que se dobra. Que retorna. Que não volta exatamente ao mesmo lugar porque, quando retornamos, já somos outros. Para ela, a ancestralidade não é simplesmente aquilo que ficou para trás. É presença, movimento, fonte de conhecimento. O corpo carrega memória e a memória continua produzindo futuro.

É impossível pensar na programação da FLIMA 2026 sem pensar nisso porque parece justamente recusar a ideia de que o passado seja uma coisa morta, arquivada, encerrada. A curadoria, feita por Roberto Guimarães, Maria Carolina Casati e Cristiane Tavares parte da compreensão de que aquilo que lembramos, apagamos ou recontamos interfere diretamente na maneira como construímos o presente e imaginamos o futuro.

Penso que há ainda uma camada ainda mais profunda nessa escolha quando olhamos para a presença da autoria negra no festival. Porque, no Brasil, o passado nunca foi distribuído igualmente.

Durante séculos, pessoas negras foram transformadas em objeto da narrativa nacional, mas raramente reconhecidas como sujeitos produtores de conhecimento sobre essa própria história. Foram retratadas, catalogadas, escravizadas, estudadas, descritas. Mas quem escrevia? Quem nomeava? Quem registrava? Quem decidia o que deveria permanecer como memória?

É por isso que a presença de autores e intelectuais negros em uma festa literária não pode ser tratada apenas como uma questão de representatividade. É, antes, uma questão de epistemologia. De poder, memória e futuro.

Quando Marcelo D’Salete transforma os quadrinhos em ferramenta para revisitar a escravização e a resistência negra, por exemplo, ele não está simplesmente ilustrando uma história que já conhecemos. Em Cumbe e Mukanda Tiodora, ele desloca o ponto de vista e faz aparecerem personagens, experiências e perspectivas que foram marginalizados pela historiografia oficial. A escolha de D’Salete como homenageado da FLIMA 2026 sintetiza justamente esse gesto: voltar ao passado para produzir outra leitura do presente.

É um movimento que conversa profundamente com o que Saidiya Hartman vem fazendo ao investigar os arquivos da escravidão e suas ausências. Em sua chamada “fabulação crítica”, Hartman não inventa simplesmente aquilo que não está documentado. Ela enfrenta a violência de um arquivo construído em grande parte pelos próprios sistemas de poder e pergunta o que podemos fazer diante das vidas negras que aparecem ali apenas de forma fragmentada, distorcida ou silenciada. Sua escrita tenta criar outra ordem possível para essas histórias, sem fingir que o vazio documental não existe.

Talvez seja justamente aí que literatura e memória se encontrem de maneira tão radical. O que fazer com aquilo que não foi contado? Com o  que foi contado de maneira que parece errada? Ou uma única versão? O que fazer com aquilo que sobreviveu apenas como rastro?

Ana Maria Gonçalves nos oferece uma das respostas mais poderosas a essas perguntas em Um defeito de cor, obra também homenageada na FLIMA 2026. A trajetória de Kehinde é também uma trajetória de memória: uma mulher negra que, já idosa, reconstrói sua vida, sua travessia entre África e Brasil, suas perdas, seus afetos e sua busca pelo filho. A narrativa entrelaça história, memória e ancestralidade e transforma vestígios em matéria literária. Estudos sobre a obra destacam justamente seu trabalho de recuperação da memória coletiva afro-brasileira por meio desses rastros.

E não é casual que Ana Maria Gonçalves tenha também se aproximado explicitamente da ideia de tempo espiralar de Leda Maria Martins. Ao falar sobre seu trabalho artístico, a autora relacionou essa concepção a uma criação que não pretende contar uma vida de maneira linear, porque, numa perspectiva espiralar, os que já foram, os que estão e os que ainda virão podem habitar o mesmo campo de existência. A ancestralidade, nesse sentido, não aponta para trás: ela jorra para frente.

É nesse movimento que também encontro Jeovanna Vieira, que participa do FLIMA na mesa “Afetos históricos: o tempo das relações”, ao lado de Maria José Silveira. Há algo muito bonito, e politicamente necessário, em pensar a história também a partir dos afetos: aquilo que herdamos, os vínculos que nos constituem, as relações que atravessam gerações e as marcas que permanecem mesmo quando os registros oficiais desaparecem. Se Sankofa nos convida a voltar para buscar o que ficou para trás, e o tempo espiralar de Leda Maria Martins nos lembra que passado, presente e futuro podem coexistir, pensar os afetos é reconhecer que a história também acontece nos corpos, nas relações e naquilo que seguimos carregando uns dos outros. Jeovanna nos ajuda a olhar para esse tempo que não é apenas cronologia, mas experiência - um tempo feito de encontros, perdas, permanências e possibilidades de reinvenção.

Isso muda radicalmente a pergunta. Em vez de “o que aconteceu no passado?”, talvez devêssemos perguntar: o que o passado continua fazendo conosco? O que fazemos hoje com aquilo que herdamos?

É aqui que Nego Bispo entra nessa conversa. Embora sua formulação não seja simplesmente uma repetição do conceito de tempo espiralar de Leda, seu pensamento contracolonial também confronta a temporalidade linear ocidental. Em sua ideia de “começo, meio e começo”, não existe um ponto final definitivo. A vida se organiza em continuidade, circularidade, transmissão e transformação. A geração dos avós é começo, a dos pais é meio, e a dos netos é começo novamente. Não é uma diferença pequena.

O pensamento linear costuma organizar o mundo a partir da ideia de progresso: sair de um ponto, avançar, superar, deixar para trás. A circularidade proposta por Bispo e a espiral pensada por Leda deslocam essa lógica. Elas nos lembram que há coisas que precisamos revisitar, não para ficar presos a elas, mas porque talvez ainda não tenhamos terminado de compreendê-las.

Talvez o Brasil seja um país que precise desesperadamente aprender isso. Porque seguimos vivendo as consequências de uma história que insistimos em chamar de passado. O racismo que estrutura as instituições. A desigualdade de acesso à educação. A disputa por território. A violência contra corpos negros. O apagamento de intelectuais e artistas. A dificuldade de reconhecer como conhecimento aquilo que não nasce nos lugares tradicionalmente autorizados a produzir conhecimento. Nada disso ficou para trás.

Por isso, quando Jeferson Tenório e Natália Zuccala discutem raça, classe, território e pertencimento a partir de De onde eles vêm e Ainda não, respectivamente, estamos diante de narrativas sobre uma juventude que ocupa espaços historicamente interditados. O jovem negro que chega à universidade, a estudante bolsista que atravessa os muros de uma escola de elite: são personagens que nos ajudam a perceber que entrar em determinados lugares não significa apenas mudar de endereço. Significa enfrentar a história que esses lugares carregam.

E, quando Cidinha da Silva e Rosane Borges se encontram em Borboletas que insurgem: escrita de mulheres negras, a pergunta se amplia: o que acontece quando mulheres negras deixam de ser apenas tema e passam a ocupar o lugar de quem escreve, pesquisa, interpreta, critica e produz pensamento?

A mesa parte justamente das relações entre legado, escrevivência e insurgência na produção literária e acadêmica de mulheres negras brasileiras. Isso é central, porque autoria também é território.

Quem escreve não está apenas contando uma história, está decidindo o que merece ser nomeado, lembrado, imaginado e transmitido.

Por isso que a literatura negra brasileira é tão importante para o Brasil: porque ela não apenas acrescenta novas histórias ao repertório nacional. Ela reorganiza o repertório. Ela desloca o centro, pergunta quem estava olhando quando disseram que determinada história era universal, devolve complexidade a sujeitos que foram reduzidos a estereótipos, produz arquivo onde antes havia silêncio, encontra ancestralidade onde o colonialismo tentou produzir esquecimento. E, principalmente, ela imagina futuros.

A abertura da FLIMA, com Encontros de Realezas – Yabás, do Sarau das Pretas, também parte desse movimento. Ao reverenciar Nanã, Oxum, Iemanjá e Iansã e celebrar dez anos da coletiva, o espetáculo coloca em cena uma memória que não está confinada aos livros. Uma memória que canta, dança, performa, incorpora. Uma memória que vive no corpo.

É novamente Leda Maria Martins quem nos ajuda a compreender a dimensão desse gesto: o corpo como lugar de inscrição do saber e da memória, território em que conhecimentos ancestrais podem ser atualizados no presente.

Para mim, é justamente isso que uma programação literária deve fazer quando leva a sério a ancestralidade: não colocar o passado em uma vitrine, mas fazê-lo circular. Não transformar os ancestrais em estátuas, mas reconhecer e, sobretudo, celebrar sua presença. Não olhar para trás com nostalgia, mas voltar para buscar ferramentas. E isso também vale para as crianças.

Quando a FLIMINHA coloca livros, quadrinhos, memória, ancestralidade e formação de leitores em contato com crianças e adolescentes, está também participando da disputa sobre quais histórias chegarão às próximas gerações. Afinal, as narrativas que oferecemos às crianças hoje ajudam a determinar aquilo que elas serão capazes de imaginar amanhã. É por isso que falar de autoria negra, indígena, ancestral, de quem veio antes, em 2026 não é olhar para uma pauta do passado. É olhar para o futuro. Ou, melhor: é entender que futuro e passado podem estar acontecendo ao mesmo tempo.

A espiral nos ensina isso. Nego Bispo nos lembra disso. Ana Maria Gonçalves escreve a partir disso. Saidiya Hartman fabula a partir das brechas deixadas por uma história que tentou apagar vidas. E a literatura negra brasileira, em sua enorme diversidade de vozes, faz algo ainda mais radical: ela se recusa a aceitar que o Brasil já tenha contado todas as suas histórias. Não contou e talvez nem pudesse. Já que algumas histórias foram interrompidas, roubadas e muitas sequer tiveram a oportunidade de ser registradas. E ainda há aquelas que continuam sendo escritas agora.

É por isso que uma festa literária pode ser também um território de disputa de memória. E é por isso que PASSADOPRESENTE não me parece apenas um nome de edição. Parece uma provocação. Que passado estamos carregando? Quem foi apagado dele? Quem está autorizado a recontá-lo? Que histórias chegam às crianças? E, sobretudo, que futuro se torna possível quando mudamos as histórias que contamos sobre nós mesmos? Talvez o futuro não esteja à nossa frente, esperando para acontecer.

Talvez ele esteja também atrás de nós, escondido nos rastros, nos livros, nos corpos, nas vozes, nos arquivos incompletos, nas histórias de nossas avós, nos personagens que finalmente ganham nome. Talvez o futuro seja essa coisa que acontece quando a gente volta. Mas volta diferente. E, ao voltar, começa outra vez.


Confira a programação completa


SERVIÇO — FLIMA 2026

FLIMA – Festa Literária da Mantiqueira
Quando: 3 a 7 de setembro de 2026
Onde: Santo Antônio do Pinhal (SP)
Informações: flima.net.br 

 



CONFIRA A PROGRAMAÇÃO DO AUDITÓRIO


QUINTA-FEIRA – 03/09  


ABERTURA

Quinta (3) – 19h30

ENCONTROS DE REALEZAS – YABÁS

Espetáculo poético em celebração aos dez anos de atuação da coletiva Sarau das Pretas

Apoio: Sesc São Paulo


Edição especial que reverencia as Yabás, entidades femininas da cultura africana e afrobrasileira. A palavra "Yabá" significa "mãe rainha" em iorubá. São mulheres belas, guerreiras, sábias e indomáveis. Grandiosas como os elementos da natureza que habitam. Em cena, as artistas apresentam um diálogo poético, sensível e potente com os arquétipos das Yabás Nanã, Oxum, Iemanjá e Iansã, abordando reflexões sobre os ciclos da vida, destacando situações vivenciadas por mulheres pretas na atualidade. O legado das Yabás é fundamental para a representação e representatividade das mulheres pretas, que se inspiram na força dessas divindades para enfrentar desafios e lutar por direitos.


SEXTA-FEIRA – 04/09  


SEXTA (4) – 15h

MESA 1 

LITERATURA JUVENIL: QUE PAPO É ESSE?

Índigo Ayer

João Anzanello Carrascoza

Mediação: Penélope Martins


Afinal, a quem se destina a chamada literatura juvenil? E como se dá o processo criativo de quem escreve especificamente para esse público leitor? Aliás, escreve-se literatura a partir de um leitor ideal? Para conversar sobre estes temas e outros mitos vinculados à literatura para jovens leitores, convidamos três autores com vasto conjunto de obras publicadas, estilos e percursos autorais distintos, que incluem premiada produção literária na literatura “para adultos".


Lançamento de SETE BRUXAS E UM GATO GRUDADO (Índigo Ayer, Record) e TRAVESSIA (João Anzanello Carrascoza, ôZé)

 



SEXTA (4) – 17h

MESA 2 

TRAÇOS URBANOS: A CIDADE COMO PERSONAGEM DE HQ

Fido Nesti

Sirlene Barbosa

Mediação: Roberto Guimarães


Como as marcas da história aparecem nas histórias em quadrinhos? E o que tem de específico nessa linguagem que combina arte e texto que a torna especialmente potente para registrar a história social? Em “O Elemento", HQ autoral do premiado quadrinista Fido Nesti, a estética noir e lisérgica que torna palpável a opressão e a paranoia da ditadura militar no final dos anos 1970 – ambientada no bairro paulistano da Liberdade, a trama policial tem como ponto de partida a descoberta de ossadas de indígenas e negros escravizados no antigo Cemitério dos Aflitos. Em “Carolina", biografia da escritora Carolina Maria de Jesus, que tem roteiro de Sirlene Barbosa e arte de João Pinheiro, a linguagem visual é expressionista, mais crua, em preto e branco, estética que contribui para traduzir o peso físico da favela nos anos 1950/1960 e a força poética do texto da autora de “Quarto de Despejo” – aqui, o bairro do Canindé é personagem. Vistas em conjunto, as duas graphic novels ajudam a contar a história da cidade de São Paulo e do Brasil.


Lançamento de O ELEMENTO (Fido Nesti, Quadrinhos na CIA)



SEXTA (4) – 19h

MESA 3

ESCREVIVER A MATERNAGEM, MATERNAR A ESCREVIVÊNCIA

Fabiana Carneiro 

Ronaldo Vitor da Silva

Mediação: Maria Carolina Casati


“Um defeito de cor” é uma grande carta de Kehinde a seu filho Luiz Gama. Nesta mesa, Fabiana Carneiro da Silva, autora de “Ominíbú: maternidade negra em ‘Um defeito de cor’” (EDUFBA, 2019), e Ronaldo Vitor da Silva, coordenador do educativo da exposição "Um defeito de cor" (SESC Pinheiros), vão discutir os conceitos de maternagem e maternidade presentes na obra de Ana Maria Gonçalves – e para além dela. 


SÁBADO – 05/09


SÁBADO (5) - 10h

MESA 4 

QUADROS  DA NOSSA HISTÓRIA: UMA HOMENAGEM A MARCELO D´SALETE

Marcelo D´Salete conversa com Cristiane Tavares


O autor, ilustrador e professor Marcelo D´Salete é um dos mais importantes nomes da produção de histórias em quadrinhos e novelas gráficas no Brasil e no mundo, atualmente. Vencedor do prêmio Eisner (“o Oscar dos quadrinhos”), em 2018, com “Cumbe”, é o autor homenageado da Fliminha 2026. Nesta conversa, ele apresentará as bases éticas e estéticas de seu trabalho autoral, com destaque para Mukanda Tiodora, livro vencedor do Prêmio Jabuti (2023), indicado a Melhor Publicação de Quadrinho Internacional pelo Harvey Awards (2026).



SÁBADO (5) - 11h30

MESA 5 

FABULAR ANCESTRALIDADES: O QUE A MEMÓRIA CONSTRÓI? 

Bethânia Pires Amaro

Micheliny Verunschk 

Mediação: Maria Carolina Casati


Como retomar ancestralidades que foram negadas? Quem tem direito a contar a sua história? Qual o papel da memória na construção de si? A partir das suas obras, que se estruturam em diálogo com a História do Brasil, Micheliny Verunschk e Bethânia Pires Amaro conversam sobre essas e outras questões tão urgentes do nosso tempo. 


SÁBADO (5) - 14h

MESA 6

EDITAR LITERATURA PARA AS INFÂNCIAS: PRAZERES E DESAFIOS

Debora Alves

Isabel Lopes Coelho

Zeco Montes

Mediação: Sandra Medrano


Não é exagero afirmar que a literatura para as infâncias produzida no Brasil é uma das mais premiadas do mundo. Em torno dela, no entanto, ainda pairam preconceitos e desinformação, fazendo com que tenha menos destaque (e prestígio) entre a crítica e na maioria dos eventos literários. Convidamos editores de três diferentes gerações, com trajetórias distintas, para debater os prazeres e desafios de editar literatura para as infâncias no Brasil.



SÁBADO (5) - 16h

MESA 7 

PARA ALÉM DAS COTAS: SUBJETIVIDADES EM (TRANS)FORMAÇÃO 

Jeferson Tenório 

Natália Zuccala

Mediação: Gabriela Mayer


Em “De onde eles vêm”, seu mais recente romance, Jeferson Tenório traz a política de cotas para o centro do debate – no livro, acompanhamos os desafios de um jovem negro que ingressa e permanece na universidade nos anos iniciais da implementação da lei, enfrentando o racismo institucional e o elitismo acadêmico. Em “Ainda não”, de Natália Zuccala, o protagonista é um jovem bolsista no ensino médio de um colégio de elite que enfrenta as tensões de classe, raça e pertencimento ao ocupar um espaço escolar privilegiado. Em comum, os dois romances de formação lançam luz no que há de mais sensível nesse percurso: as complexas relações entre identidade e território  na construção da subjetividade de uma nova geração de brasileiros.


Lançamento de AINDA NÃO (Natália Zuccala, Todavia)



SÁBADO (5) - 18h

MESA 8

BORBOLETAS QUE INSURGEM: ESCRITA DE MULHERES NEGRAS 

Cidinha da Silva 

Rosane Borges

Mediação: Maria Carolina Casati


O que há de singular na escrita de mulheres pretas que a torna tão potente? Convidamos a jornalista e pesquisadora Rosane Borges e a escritora Cidinha da Silva, ativistas do movimento negro e intelectuais públicas, para refletir sobre como legado, escrevivência e insurgência se articulam na vigorosa produção literária e acadêmica de mulheres negras brasileiras. 


DOMINGO – 06/09 


DOMINGO (6) – 10h

MESA 9 

LITERATURA E DEMOCRACIA: LEITURA PARA TODOS?

Bel Santos Mayer 

José Castilho 

Mediação: Fabíola Farias


A democratização do acesso aos livros é suficiente para garantir a formação de leitores? Quais aspectos socioeconômicos interferem na constituição de uma sociedade leitora? E qual o papel das políticas públicas? Para debater questões cruciais como estas, convidamos três importantes referências na área, com atuação em diferentes campos que envolvem o livro e a leitura no Brasil.


DOMINGO – 06/09


DOMINGO (6) – 11h30

MESA 10

POESIA E (RE)INVENÇÃO DE FUTUROS 

Chiara Gentile

Tarso de Melo

Mediação: Cristiane Tavares

Apoio: editacuja



O que pode a linguagem poética nos dias de hoje? Segundo o filósofo italiano Franco Berardi, vivemos uma crise da capacidade de imaginar o futuro e a poesia pode ser um dos caminhos para a revitalização da linguagem. Em “Música do Mundo”, Tarso de Melo apresenta uma espécie de genealogia da poesia como linguagem, investiga as relações intrínsecas entre som e sentido e afirma: “poesia é coisa de futuro”. Já no romance “Tempo Primo”, Chiara Gentile narra a história de uma professora de literatura que, em decorrência de um acidente, precisa reaprender a ler e a escrever e tem na música a porta de entrada para a redescoberta da linguagem. Nesta conversa, os dois autores nos convidam a aprofundar percepções sobre a linguagem, memória e imaginação.


Lançamento de TEMPO PRIMO (Chiara Gentile, editacuja) e Música no Mundo (Tarso de Melo, Fósforo)



DOMINGO (6) – 14h

MESA 11

AFETOS HISTÓRICOS: O TEMPO DAS RELAÇÕES 

Jeovanna Vieira

Maria José Silveira 

Mediação: Mariana Bastos

Apoio: Ação Editora


Só quando há uma rusga ou ruptura com alguém muito próximo é que nos atentamos para o fato de que mesmo as relações mais íntimas e profundas se transformam ao longo do tempo. Em “Toda caixa-preta é laranja", de Jeovanna Vieira, o foco está na relação filha-pai – a protagonista é uma piloto prestes a se mudar com a família para o exterior para se tornar a primeira mulher negra a comandar o maior avião de passageiros do mundo; seu pai desaparece repentinamente e ela decide adiar seu sonho, o que a leva a revisitar a sua história. Já em “Imperdoável", de Maria José Silveira, acompanhamos a trajetória de três inseparáveis amigos de escola, que, depois de compartilhar ideais, sonhos e descobertas nos anos 1980, tomam rumos distintos na vida. O ápice do conflito se dá em 8 de janeiro de 2023, momento mais agudo da história recente do Brasil, que escancara o esgarçamento social e afetivo provocado pelo extremismo da disputa política.


Lançamento de TODA CAIXA-PRETA É LARANJA (Jeovanna Vieira, Companhia das Letras) e IMPERDOÁVEL (Maria José Silveira, Ação Editora)



DOMINGO (6) – 16h

MESA 12

VIDAS (RE)INVENTADAS: BIOGRAFIA COMO ANTÍDOTO AO APAGAMENTO HISTÓRICO

Bruno Rodrigues de Lima 

Cibele Tenório

Mediação: Roberto Guimarães

Apoio: Hedra


Como escrever a história de pessoas invisibilizadas ou deliberadamente esquecidas pela historiografia oficial? Esse será o ponto de partida da conversa entre os autores de duas biografias recentes de lideranças negras. Em “Pai contra mãe: as origens perdidas de Luiz Gama”, o jurista e historiador Bruno Rodrigues de Lima faz minuciosa pesquisa em fontes inéditas para contar a infância e os mistérios familiares do maior jurista e abolicionista do Brasil. Em “Almerinda Gama: A sufragista negra” Cibele Tenório usa o faro de jornalista e a veia de pesquisadora para recuperar a a vida e o legado de uma das mais importantes e esquecidas lideranças do movimento feminista e antirracista brasileiro. 



DOMINGO (6) – 18h

MESA 13

ELZA SOARES: A VOZ DO FEMINISMO NEGRO

Lígia Moreli

Rômulo Fróes

Mediação: Adriana Ferreira Silva 

Apoio: Edições Sesc São Paulo



Celebrando a artista “dura na queda”, “Elza Soares: insurreição na garganta”, de Lígia Moreli, aborda a vida e a carreira da icônica cantora. A autora acompanha a transformação de Elza em direção a um posicionamento estético e político consolidado no álbum “A mulher do fim do mundo”, lançado em 2015, quando a cantora tinha 85 anos! Diretor artístico do seminal disco de Elza, e de seu trabalho seguinte, “Deus é mulher” (2018), o músico Rômulo Fróes compartilha um pouco da sua vivência e colaboração com uma das maiores artistas brasileiras. Elza foi um furacão criativo que viveu mais de 90 anos em permanente reinvenção, que usou sua inimitável para denunciar o racismo, o machismo, a violência contra a mulher e a desigualdade social.


Lançamento de Elza Soares: Insurreição na Garganta (Lígia Morei, Edições SESC-SP)


SEGUNDA-FEIRA – 07/09


SEGUNDA (7) – 10h

MESA 14

ISSO NÃO É ASSUNTO DE CRIANÇA?!

Fabíola Farias

nina rizzi

Mediação: Bruno Souza

Apoio: Veneta


O incômodo em torno dos temas abordados nos livros para crianças é crescente e revela muitas facetas. Das disputas ideológicas à censura, passando por conservadorismos de toda ordem, os tabus, frequentemente, revelam concepções equivocadas de infância. Como dialogar, afinal, com infâncias tão diversas e plurais? Cabe tudo na literatura destinada às crianças? Para responder a estas provocações e lançar outras, convidamos a poeta nina rizzi e a professora Fabíola Farias, ambas com ampla experiência em criação e crítica literária e formação de leitores.


Lançamento de “O mundo que se quer esconder das crianças: o incômodo na literatura infantil” (Fabíola Farias e Nilma Lacerda, Veneta)


SEGUNDA (7) – 11h30

MESA 15

SABEDORIA ANCESTRAL PARA UM MUNDO HIPERCONECTADO

Geni Núñez conversa com Jéssica Balbino


Como os conhecimentos ancestrais indígenas e a descolonização dos afetos podem abrir caminhos de cura e emancipação em um contexto de relações humanas cada vez mais mediadas por telas? Se estruturas sociais, ambientais e afetivas demonstram sinais de esgotamento, a psicologia e os saberes dos povos originários oferecem novas perspectivas para repensar a vida em comunidade. Tendo as diversas formas de amar como bússola, Geni Núñez, psicóloga, ativista Guarani, escritora e pesquisadora pós-doutoranda pelo Instituto de Estudos Avançados da USP, aponta para outras gramáticas do amor, da terra e do bem-viver para além da lógica da propriedade e da dominação.


SEGUNDA (7) – 15h

Espetáculo de encerramento

NOITE DE BRINQUEDO NO TERREIRO DE YAYÁ

Com Coletivo Clã do Jabuti


O espetáculo conta a história da rainha do Congo, a menina Maria, que habita uma terra povoada por encantados, mestres, reis, rainhas, cabinhas e palhaços. Ela, que reinou em seu reisado por anos, agora precisará entregar a coroa à sua irmã mais nova e, assim, percebe que talvez chegue ao fim também seu tempo de ser criança. Letras e melodias ajudam a narrar as alegrias, dores e desafios da rainha que deixa de ser rainha. Da criança que deixa de ser criança. Em sua jornada, nossa heroína descobre como guerrear e festejar com a ajuda de seres encantados e desvenda a sabedoria ancestral das encruzilhadas, lugar de encontro e aprendizagem. As Yayás, as Avós, senhoras do Colo e do Caminho, são guias a abrir atalhos na jornada de crescimento da menina guerreira.


Esses rituais de passagem são cantados e declamados numa atmosfera de grande festa. Festa embalada pelo ritmo pulsante e contagiante do reisado. Todo elenco desempenha o nobre papel de brincador da festa e, dessa forma, se reveza entre os instrumentos de percussão e de corda, dança e canto em suas interpretações. No repertório, cantigas autorais e outras que fazem parte do Cancioneiro Popular. Toadas cantadas e ensinadas pelas avós e bisavós. 

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