Neste Dia dos Namorados, eu escrevo para você. Você, que passou a adolescência inteira esperando que alguma coisa acontecesse. Você, que decorou falas de comédias românticas, assistiu às protagonistas serem escolhidas, desejadas, disputadas e amadas, enquanto aprendia silenciosamente que aquele roteiro talvez não tivesse sido escrito para você.

Você, que viu as amigas receberem bilhetes, flores, convites, declarações e apelidos carinhosos enquanto acumulava elogios sobre a sua inteligência, a sua maturidade, a sua generosidade e a sua capacidade de ouvir. Você que foi tantas coisas. A engraçada. A inteligente. A amiga para todas as horas. A que acolhe. A que escuta. A que entende. Tudo, menos a desejada.

Queria escrever para você porque suspeito que passamos a vida inteira ouvindo as pessoas falarem sobre a dor dos términos, dos divórcios e dos corações partidos, mas quase ninguém fala sobre a dor de sequer entrar na história. A dor de crescer sem ser escolhida.

A dor de chegar aos 40 anos e perceber que continua tentando responder perguntas que deveriam ter ficado na adolescência. A dor de abrir um aplicativo de relacionamentos já esperando o silêncio. Isso quando o aplicativo permite a sua entrada. A dor de entrar num bar sem esperar um olhar. A dor de fingir que não se importa mais. A dor de realmente não saber mais se ainda se importa.

Porque existe uma violência sobre a qual quase ninguém fala. A violência de passar décadas sendo convencida de que o amor pertence aos outros. Às magras, às mulheres consideradas desejáveis.

Enquanto a nós caberia a compreensão, a resiliência, a independência, o amor-próprio e toda essa coleção de virtudes que o mundo oferece às mulheres gordas quando não está disposto a lhes oferecer afeto.

Por isso eu desconfio tanto dos discursos que aparecem todos os anos nesta época dizendo que basta a gente se amar. Existe uma crueldade quase elegante nessa conversa.

Porque ninguém olha para uma mulher considerada desejável e diz: "Tomara que você encontre muito amor-próprio neste Dia dos Namorados." Desejam amor, companhia, encontros, presença.

Mas às mulheres gordas frequentemente oferecem uma espécie de prêmio de consolação emocional: aprenda a gostar de si mesma. Meu anjo, se a gente não tivesse aprendido, nem teria sobrevivido até aqui.

Como se autoestima substituísse intimidade. Como se independência substituísse desejo. Como se autonomia eliminasse a vontade profundamente humana de ser vista por alguém e pensar: finalmente.

Finalmente alguém me enxergou inteira. Eu sei que muitas de nós passamos anos acreditando que o problema estava no corpo. Talvez se emagrecer, se mudar o cabelo. Emagrecer. Se vestir melhor. Fazer uma bariátrica? Talvez se fizer terapia. Usar mounjaro do Paraguai? Talvez se publicar livros. Emagrecer só um pouco. Talvez se ganhar dinheiro. Perder alguns quilos. Se tornar mais interessante. Emagrecer. Talvez se tornar mais desejável. E–M-A-G-R-E-C-E-R. Talvez se tornar menos. Menos barulhenta. Menos intensa. Menos gorda. Sempre menos.

Porque a promessa sempre foi a mesma: quando você mudar o suficiente, alguém vai te escolher. Mas existe uma pergunta que me acompanha há muito tempo. Quando será suficiente? Quando finalmente estaremos autorizadas a parar de provar que merecemos ser amadas?

Porque o problema nunca foi apenas o peso. O problema foi a mentira: de que o amor era uma recompensa. E de que algumas de nós precisaríamos trabalhar o dobro para merecer algo que deveria ser humano, simples e básico.

Durante muito tempo, acreditei nisso também. Acreditei que bastava me tornar uma versão melhor de mim mesma. Mais magra. Mais bonita. Mais interessante. Mais qualquer coisa. Mas chega uma hora em que a gente percebe que a linha de chegada continua se afastando.

Porque não importa o quanto você emagreça. Não importa quantos livros publique. Não importa quantas terapias faça. Não importa quantas vezes aprenda a se amar. A régua nunca foi feita para ser alcançada. Ela foi feita para manter algumas de nós correndo.

Por isso escrevo esta carta. Não para oferecer respostas. Nem para prometer finais felizes. Nem para fingir que a solidão não dói.

Escrevo para dizer uma coisa que talvez você tenha passado anos precisando ouvir: Não há nada de errado em desejar amor. Não há nada de errado em querer ser escolhida. Acolhida. Em não querer mais ser forte. Não há nada de errado em querer viver as histórias que pareciam acontecer apenas para os outros.

E se você chegou até aqui carregando a sensação de que ficou para trás, de que perdeu o trem, de que a vida aconteceu em outra mesa enquanto você esperava ser chamada, saiba que não está sozinha. Existem muitas de nós. Mais do que imaginamos.

Mulheres que passaram tanto tempo tentando caber que esqueceram de perguntar por que o mundo era tão pequeno. Mulheres que confundiram sobrevivência com destino. Mulheres que transformaram ausência em força porque ninguém lhes ensinou outra alternativa.

Neste Dia dos Namorados, penso menos nos casais e mais em nós. Nas que foram deixadas de fora do roteiro. Nas que foram amadas apenas em segredo. Nas que foram desejadas no escuro, mas nunca assumidas na luz do dia. Nas que continuam esperando. Nas que desistiram de esperar.

Nas que passaram a vida inteira tentando sobreviver à mentira de que nasceram para assistir ao amor acontecer com os outros. Não nasceram.

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Talvez a maior mentira que contaram para mulheres gordas tenha sido essa: a de que precisávamos diminuir nossos corpos para caber no amor. Hoje suspeito que era o amor que precisava crescer para caber em nós.

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