Qual foi a última vez que você fez uma refeição com calma? Quando que você se reuniu com amigos e preparou algo simples para comerem juntos? Qual sua memória de infância favorita? Ela envolve comida? Família junta à mesa? Amigos brincando e celebrando juntos?
Tem sido cada vez mais difícil - em nome da individualidade, da praticidade, da solidão contemporânea, da dieta - se reunir e fazer uma refeição saborosa e satisfatória com quem amamos, muito embora, o imaginário ainda nos venda isso como felicidade.
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Num tempo em que a comida virou planilha, caneta emagrecedora, aplicativo e suplemento, como proteína em pó, dieta líquida, cápsula de colágeno, shake de peru, ração gourmet para humanos apressados, cozinhar para alguém virou um gesto radical. Quase subversivo. Talvez por isso Palavras e Sabores, primeiro livro de Suzi Soares, seja menos um livro de receitas e mais um manifesto silencioso a favor do comum, do ordinário, do cotidiano e do que ainda resiste ao ritmo frenético da vida contemporânea e da busca pela magreza extrema.
Já perdi as contas de quantas vezes estive em saraus, rodas de conversa, eventos culturais na periferia de São Paulo e lá estava Suzi, com seu Tupperware (não ganhei nada para citar essa marca aqui) e suas receitas deliciosas, como tortas, lanches e aquele rango para matar a larica da galera que tinha viajado por muitas horas para estar ali, falando e fazendo literatura.
Enquanto pensávamos em quais palavras dizer, Suzi sempre pensou em como nos nutrir para isso, afinal, com fome é sempre mais difícil e, com receitinhas caseiras, entregues com todo amor, no camarim de um evento, o ânimo para reafirmar o compromisso com a literatura é sempre outro.
Suzi não propõe gastronomia de laboratório, tampouco o espetáculo televisivo das cozinhas performáticas. O que aparece nas páginas do livro são receitas de verdade, dessas que a gente reconhece de imediato: bolo de fubá cremoso, curau, farofa de cebola, carne de panela com mandioca, brigadeirão, patês simples, macarrão alho e óleo. Receitas que poderiam estar no caderno de qualquer mãe, tia ou avó brasileira - e talvez, ou com certeza, estejam. A própria autora admite isso: são pratos que muita gente faz e que podem ser encontrados facilmente por aí, mas que carregam um tempero impossível de reproduzir: memória.
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É curioso como a cozinha cotidiana se tornou invisível. Nos últimos anos, fomos convencidos de que cozinhar bem significa dominar técnicas complexas, ingredientes raros ou dietas milagrosas. Ou, pior: fazer as marmitas da semana toda no domingo e repetir ingredientes e sabores durante toda a semana para servir ao Deus capital. E essa não é uma crítica a quem faz marmitas, eu mesma faço, porém, cadê o prazer na vida, gente?
Ao mesmo tempo, a cultura da extrema magreza, da contagem de calorias e dos substitutos alimentares ganhou força como ideal de vida saudável, que de saudável não tem nada. Nesse cenário, um livro que celebra arroz, feijão, bolo, pudim e farofa parece quase um ato de resistência cultural.
Porque cozinhar, aqui, não é apenas preparar comida. É reunir gente.
A cozinha de Suzi, como conta o prefácio do livro, sempre foi um espaço de encontro, uma espécie de território afetivo da zona sul de São Paulo, onde artistas, poetas, amigos e vizinhos se reuniam depois de saraus, reuniões culturais ou simplesmente porque sabiam que ali sempre havia algo quente no fogão.
Não por acaso, o livro é atravessado por vozes. Em vez de “depoimentos”, Suzi prefere chamar esses textos de afetos, ou seja, pequenas memórias escritas por pessoas que passaram por sua cozinha e guardaram algum prato como lembrança. Gente como Michelle Correa, que conta como aprendeu com Suzi a respeitar o tempo dos ingredientes, ou Diander Luiza Padial, que jura que o bolo de fubá da autora é o melhor que já comeu. Há também poemas, relatos e lembranças de quem reconhece naquele cheiro de comida um portal para a infância.
Esse gesto de dividir a autoria do livro com a comunidade talvez seja um dos aspectos mais bonitos de Palavras e Sabores. Afinal, cozinhar raramente é um ato solitário. A comida nasce sempre de um coletivo invisível: quem plantou, quem ensinou, quem pediu a receita, quem elogiou, quem lavou a louça depois.
Há algo profundamente político nisso. Walter Benjamin, citado no prefácio do livro, conta a história de um rei que tenta reproduzir o sabor de uma omelete que comeu durante uma fuga de guerra. O cozinheiro explica que aquilo é impossível: o gosto não está apenas na receita, mas no contexto, na experiência, na emoção daquele momento.
Talvez seja exatamente isso que Suzi tenta registrar aqui. Não apenas receitas, mas circunstâncias. O bolo de fubá da tia Margarida, o curau que aquece o corpo num dia frio, o brigadeirão que virou lenda no antigo bar do Binho, os pratos preparados para amigos, estudantes, artistas, viajantes e gente que simplesmente apareceu para conversar.
Num país em que a pressa virou regra, cozinhar para os outros é quase uma forma de desacelerar o mundo. É por isso que Palavras e Sabores me parece tão precioso - e delicioso. Porque ele nos lembra de algo que muitas vezes esquecemos: alimentar alguém é uma forma de cuidado. E cuidado, hoje vale ouro.
Enquanto seguimos cercados por dietas milagrosas, aplicativos de contagem calórica e a promessa de que viver melhor significa comer menos, Suzi faz o movimento contrário. Ela cozinha mais. Divide mais. Chama mais gente para a mesa.
E nos lembra que, às vezes, a revolução começa com uma panela no fogo e alguém dizendo, da cozinha: “Almoooçar!”. Porque, no fim das contas, cozinhar para alguém hoje é um gesto radical. E talvez seja exatamente disso que a gente esteja precisando: menos cálculo, menos culpa, menos escassez e mais gente reunida em volta da mesa, dividindo o que tem.
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