Jaeci Carvalho
Jaeci Carvalho

Mimados e protegidos ao extremo

Claro que há a segurança natural da organização da Copa, mas nada exagerado. Os ingleses não trouxeram equipe extra, como fez o Brasil

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MIAMI – A Seleção da Inglaterra está hospedada em West Palm Beach, aqui na Flórida, região onde o presidente Donald Trump tem residência. Harry Kane e seus colegas andam normalmente para chegar aos campos de treino, sem estarem cercados de seguranças, como acontece com o time brasileiro, que está em Nova Jersey. Claro que há a segurança natural da organização da Copa, mas nada exagerado. Os ingleses não trouxeram equipe extra de 20 seguranças, como fez o Brasil. Jogadores mimados, protegidos ao extremo, como se fossem de outro planeta. Foi assim na África do Sul, quando Dunga enclausurou o time num hotel, pondo inclusive lonas para que ninguém visse nenhuma movimentação, enquanto os holandeses andavam pelas ruas de Johanesburgo. Aí, quando fomos jogar contra eles, perdemos por 2 a 1 e voltamos para casa mais cedo. Em 2018, Tite deixou Neymar e sua família mandarem no hotel da Seleção, em Sochi. Resultado: Brasil eliminado pela Bélgica nas quartas de final. Treinos fechados para a imprensa, que só pôde assistir aos aquecimentos e “bobinhos”. Em 2022, no Catar, mais treinos fechados e outra eliminação para uma seleção de segunda linha, a Croácia. Enfim, parece que a CBF não aprende.

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Entendo que uma Copa do Mundo exige precauções, mas não acredito em nada exagerado. Os franceses, por exemplo, ficarão em Boston, num hotel normal, com outros hóspedes. Foi uma exigência dos jogadores, que não querem ficar isolados. O técnico Didier Dechamps concordou e nem por isso eles deixam de ser favoritos. Ao contrário, os jogadores estão alegres. Saem para treinar, carregam seus equipamentos sem que haja os brutamontes a cercá-los, impedindo o acesso da imprensa. Sou de uma época em que assistíamos aos treinos de forma integral, e na qual entrevistávamos os jogadores ao fim da prática. Nós escolhíamos quem gostaríamos de entrevistar. Por isso, chegamos em 3 finais consecutivas, ganhando duas, em 1994 e 2002. No Brasil tudo funciona para mais ou para menos. Os dirigentes acham que a clausura garante a taça.


Por quê não um meio termo? Os jornalistas – quando falo em jornalistas me refiro aos de verdade e não aos tais influencers, analfabetos e torcedores com microfone – poderiam assistir aos treinos, e na meia hora final, por exemplo, o técnico pedir para que nos retirássemos para treinar e ensaiar jogadas. Até aí tudo bem. Porém, não é o que acontece. As empresas jornalísticas gastam fortunas e não têm acesso a absolutamente nada, exceto a TV Globo, sempre com seus privilégios preservados. O presidente da CBF deveria saber que a mão que “afaga” é a mesma que bate com força, após uma eliminação. Ser amiguinho da Globo e dar a ela privilégios não o blindará em caso de derrota. Tratar a imprensa com igualdade é o mínimo que exigimos. Mas num país tão desigual como o Brasil, pedir isso é muito. Desde 2018, optei por cobrir a Copa do Mundo e não mais especificamente a Seleção Brasileira, e, como moro em Miami, a 40 minutos de Palm Beach, talvez eu vá aos treinos da Inglaterra, que, para mim, será finalista junto com a França. Não sou “pachecão” e sim realista. O Brasil pode até chegar, pois sempre foi favorito em todos os Mundiais, mas, com essa empáfia, essas restrições e desigualdades, acho difícil.

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Tenho elogiado a gestão de Samir Xaud, mas, pelo que estou vendo, é mais do mesmo. A “Folha de São Paulo” alega que quem manda na entidade é o ministro Gilmar Mendes e seu filho, Chico Mendes, e que o atual presidente apenas cumpre ordens. Prefiro não acreditar nisso, mas se for assim, é melhor o povo brasileiro exigir mudanças na CBF. Ela é privada, mas tem caráter público, e, sendo assim, pertence ao povo brasileiro e não a políticos e ministros. Precisamos mudar as regras do jogo e colocar os clubes com peso 3 na votação para presidente. Somente assim poderemos ver um ex-jogador no comando da entidade, como acontece com a maioria dos países sérios. Na Itália, por exemplo, Maldini, Del Piero e Baggio estão comandando a Federação Italiana de Futebol, todos ex-jogadores consagrados. Duvido que na próxima Copa, a Itália não consiga a classificação. Era comandada por quem nunca deu um chute na bola, e está fora pela terceira vez consecutiva de um Mundial. É por essas e outras que eu já desisti do Brasil há muito tempo, e o futebol é apenas reflexo de uma sociedade corrupta, com políticos e ministros na “gaveta do Vorcaro”, e parece que tudo está normal. A Copa tem que ser ganha por um país sério, que valorize sua gente, e por uma confederação que não seja manipulada e tenha realmente autonomia, com ex-jogadores no comando.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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