As calçadas de Santa Tereza guardam um segredo que nem a própria história sabe explicar. Eu, que cresci na Rua Tenente Vitorino, sabendo que ela é a continuação direta da Rua Divinópolis, berço do Clube da Esquina, demorei pra entender que a geografia daquele pedaço de Belo Horizonte funciona como um portal sonoro.

Há algo na água daquele bairro que acabou influenciando a criação do Clube da Esquina, Sepultura e uma parte do Skank.

Ter crescido ali me permitiu conviver com pessoas que tinham a música correndo nas veias. Por isso, ver Márcio Borges, o eterno Poeta do Clube, tomar posse como o oitavo ocupante da cadeira 29 da Academia Mineira de Letras (AML) é um marco emocionante, que ultrapassa a formalidade literária.

A AML, que iniciou sua jornada no dia de Natal de 1909 em Juiz de Fora, antes de se fixar na capital, viveu manhã de festa.

Aos 80 anos, Márcio recebeu o reconhecimento acadêmico definitivo por uma vida inteira dedicada a erguer e espalhar a identidade cultural de Minas Gerais. Autor de mais de 250 canções que cruzaram o mundo, poliglota da palavra e do sentimento, move-se com fluência no português, inglês, francês e espanhol.

Mas a sua grande língua sempre foi a poesia do cotidiano. Das parcerias com Milton Nascimento, com seu irmão Lô Borges e tantos outros, nasceram hinos que viraram trilha sonora de nossas vidas.

Escritor talentoso, ele já havia eternizado a crônica de sua juventude em seu livro mais conhecido, “Os sonhos não envelhecem – Histórias do Clube da Esquina”. Faltava a chancela oficial.

O simbolismo do dia 11 de julho de 2026 é imenso. Ver o menino que começou escrevendo rascunhos tímidos dentro de casa alcançar o respeito máximo da Academia é o reconhecimento da cultura popular como formadora de valores e da história de um povo.

Escutar a história que sua mãe ficou segurando uma vela para que ele escrevesse a letra de “Clube da Esquina 1”, pois havia faltado luz na rua, é entender o respeito e o apoio que ele teve dentro de casa para seguir como letrista.

Fiquei muito feliz ao presenciar a Academia se curvando à genialidade do seu trabalho literário. Em um mundo tão conectado e diversificado, a competência de escrever letras de música demanda raras habilidades intelectuais.

Em seu discurso de posse, Márcio relembrou o susto ao ver o pai vasculhando sua mala de rascunhos. Ao questioná-lo, ouviu a frase que virou mantra: “Filho, de onde você está começando eu nunca vou chegar como jornalista”. Foi o impulso definitivo.

Na solenidade, seus olhos de anjo e extrema sensibilidade ficaram marejados várias vezes. O homem que já era imortal pela força de suas letras agora é imortal por reconhecimento.

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Obrigado, Márcio, por toda esta dedicação para transformar a nossa cultura em versos e por provar que é possível viver de arte ao simplesmente dizer que os sonhos não envelhecem!

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