Henrique Portugal
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O que mestre Miyagi ensinaria sobre a inteligência artificial

Ao pular uma etapa muito importante, através do atalho digital, corremos o risco de criar uma geração de profissionais hiperprodutivos, porém vazios

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A junção de duas vogais representa o maior desafio do mundo atual. Na língua portuguesa é IA, já no inglês é AI. Eu acho melhor falar IA. Mas essa novidade, que não é tão recente, traz uma característica curiosa. Normalmente, qualquer novidade tecnológica é primeiramente dominada pelos mais jovens. Para funcionar em alta performance, qualquer IA exige o domínio do “saber perguntar”, uma virtude ligada ao conhecimento acumulado de quem já viveu bastante. Até que enfim ter cabelos brancos se tornou algo importante.

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Na filosofia oriental, o conceito de Shoshin representa a “mente do principiante”, livre de preconceitos. Entretanto, para que o copo vazio do principiante seja útil, ele precisa dialogar com o Takumi, termo usado no Japão para os mestres com anos de dedicação. A IA opera como um espelho de quem a questiona. Um prompt com poucas informações trará uma resposta genérica; já uma pergunta baseada em anos de vivência extrai o melhor da máquina. O jovem, ainda em formação, corre o risco de se tornar um mestre sem espada, um profissional frágil que opera no topo da pirâmide da produtividade, mas sem alicerces no chão da realidade.

Essa fragilidade geracional me fez lembrar da clássica lição do filme “Karatê Kid” quando o mestre Miyagi obriga o pupilo Daniel LaRusso a repetir, várias vezes, o ato de tirar o casaco, jogá-lo no chão, pegá-lo e pendurá-lo. O jovem não entendeu a função daquele treinamento e a reação negativa foi rápida e frustrante. Ele queria lutar, buscava a adrenalina do combate e o resultado imediato. Daniel não compreendia que a repetição do cotidiano estava, na verdade, criando uma memória de movimentos e sua resiliência. No mundo real, as “horas de voo”, os erros cometidos são o equivalente às tentativas de pendurar o casaco. É o erro que gera a musculatura psicológica e intelectual necessária para discernir o que deve ser feito e, principalmente, o que não deve ser feito.

Ao pular uma etapa muito importante, através do atalho digital, corremos o risco de criar uma geração de profissionais hiperprodutivos, porém vazios. Como no conceito budista de Samadhi (concentração profunda), a maestria não nasce do resultado, mas do processo. A IA acelera o resultado, mas aniquila o processo. O jovem que delega seu aprendizado à máquina torna-se rápido, mas desconhece a raiz do problema.

Diante de uma crise inédita, onde a tecnologia não tem dados prévios para responder, qual será o caminho para uma solução? No livro “Antifrágil”, Nassim Nicholas Taleb diz que a incerteza é algo desejável e até mesmo necessária para sobreviver neste nosso mundo cheio de imprevistos. Sem a vivência, que a experiência traz, a pressa automatizada pavimenta o caminho para erros de proporções gigantescas.

O verdadeiro desafio de hoje não está em adotar a IA rapidamente, mas em ancorá-la na sabedoria do tempo. A experiência, muitas vezes vista como um freio à ousadia, revela-se agora como o filtro indispensável que separa o ruído da relevância.

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Para que a tecnologia seja uma aliada da evolução humana, e não uma muleta criadora de mentes frágeis, o ímpeto da nova geração precisa aceitar o ritual do “casaco” de Miyagi. Afinal, a inteligência artificial pode fornecer todas as respostas do mundo, mas o discernimento para saber se a resposta está certa continua sendo o território sagrado daqueles que aprenderam a andar errando no mundo real.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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