Assistir à série sobre os Raimundos é mergulhar em uma narrativa que ultrapassa a música. É, na verdade, uma sessão de terapia coletiva, honesta e visceral sobre uma das maiores bandas do Brasil.
Você entende a ascensão, as crises do grupo e como conteúdo extra expõe as entranhas de um “casamento sem sexo”, como bem define a mística das bandas de rock. Onde a convivência forçada e o sucesso meteórico testam os limites da sanidade e da amizade.
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A origem da banda revela um padrão comum do rock: jovens lidando com baixa autoestima e conflitos domésticos. Rodolfo, com seus dilemas familiares, encontrou no punk rock um abraço acolhedor. Ele e Digão enfrentaram juntos pais distantes e céticos quanto às suas escolhas profissionais.
No início, eram apenas jovens, vizinhos, com afinidade musical, mas o tempo provou que uma banda é, acima de tudo, a reunião dos resistentes. A entrada na fase adulta é o que separa quem desiste pelo caminho de quem decide encarar a estrada.
O diferencial dos Raimundos veio da mistura improvável. Ter Zenilton como referência e fundir a simplicidade do forró com a crueza do punk rock criou uma identidade única: os “Ramones do Distrito Federal com sotaque nordestino”. Essa fusão era natural para eles, nos anos 90, diferentemente da década anterior, as referências brasileiras eram celebradas e clássicos como “Puteiro em João Pessoa” tornaram-se hinos imediatos por retratarem a adolescência de forma direta e sem filtros.
A série é pontuada por depoimentos lúcidos, especialmente de Rodolfo, que revisita o passado sem máscaras. O sucesso, no mundo musical, que frequentemente chega quando se é jovem demais, permite liberdades que atropelam as regras sociais. O uso constante de drogas, citado abertamente, mais parece uma fuga do ciclo vicioso de viagens intermináveis e relacionamentos frágeis.
Como Fred pontua brilhantemente, “as bandas se unem pela música, mas o sucesso obriga você a conviver 24 horas por dia com pessoas que, no fundo, você conhece pouco”. As diferenças, ignoradas na garagem, tornam-se abismos na estrada.
A obra também toca em feridas abertas, como a tragédia no show em Santos, em 1997 [oito pessoas morreram quando desabou o corrimão da única saída disponível no Clube de Regata de Santos]. O que aconteceu em Santos poderia ter acontecido com outras bandas. Durante os anos 90, era normal tocar em ginásios pelo Brasil. Mas este tipo de problema não era só brasileiro, vide o trágico show do Pearl Jam no festival de Roskilde no ano 2000.
O que torna este registro visual especial é a sensação de que, ao gravá-lo, os integrantes “limparam” suas diferenças. Estão ali os “doces ogros” abrindo o peito. Da importância crucial do Selo Banguela, que lançou a banda, ao impacto de “Mulher de fases”, que transformou o perfil do público, tudo é passado a limpo.
Vale ressaltar a quantidade de imagens gravadas pela própria banda , fato raro naquela época.
Escrever sobre esta série me fez lembrar dois fatos pessoais. Um deles que fui parar no mesmo hospital que o Canisso em Los Angeles. O meu caso foi uma dor de garganta que me impedia de dormir. Consequência de viagens intermináveis. O outro é que o Digão sempre me fala que pareço com o irmão dele, preciso descobrir qual.
Hoje, o humor das letras dos Raimundos dificilmente encontraria espaço; o controle social atual podaria a irreverência tipicamente brasileira que eles exalavam. Por isso, a série é um registro necessário. É uma obra sobre música, mas, acima de tudo, sobre a natureza humana.
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Se você gosta de rock ou simplesmente se interessa pela complexidade das relações humanas, este documentário é a terapia de grupo que você não sabia que precisava assistir. Parabéns à produção, Digão, Fred, Rodolfo e ao saudoso Canisso pela coragem da sinceridade.
