Henrique Portugal
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Brasil: o país perfeito para a escritora Agatha Christie

É tanta confusão que, no final, talvez não vamos conseguir identificar um vilão único

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Pertenço à Geração X, aquele grupo de pessoas nascidas entre 1965 e 1980 que, hoje, se encontra em um estranho vácuo de protagonismo. Não somos os idealistas do pós-guerra, nem os nativos digitais que vivem grudados nas redes sociais. Somos a geração que aprendeu, na prática, que o mundo não oferece redes de segurança. Se tropeçarmos, a responsabilidade de levantar é nossa.

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Minha trajetória atravessou as transformações da sociedade brasileira nas décadas de 1970, 1980 e 1990. Vi o Brasil mudar de pele várias vezes: da rigidez de um regime fechado à euforia da redemocratização; do trauma da hiperinflação à promessa de modernidade do novo milênio. Tornei-me pai no final dos anos 1990, um momento em que acreditei que estava construindo uma base sólida para o futuro. Mas, ao chegar à maturidade tenho muitas dúvidas.

O que temos testemunhado é uma desconstrução contínua dos valores éticos e morais. O que antes eram pilares, como o valor do trabalho e o respeito institucional, parecem ter se dissolvido onde a conveniência atropela qualquer valor. Agatha Christie, com seu olhar cirúrgico para as dúvidas do comportamento humano, adoraria escrever um livro sobre a confusão em que o Brasil se meteu. Ela encontraria aqui um enredo onde as pistas são apagadas e os álibis são comprados.

É tanta confusão que, no final, talvez não vamos conseguir identificar um vilão único. O sistema tornou-se tão confuso que as fronteiras entre carrasco e vítima se confundem. Não se assuste se, em algum momento, surgir a tese de que figuras polêmicas ou vilões do momento, na verdade, são subprodutos de um mecanismo maior que corrompe tudo o que toca. O cinismo que desenvolvemos como defesa nos faz questionar se o que vemos é justiça ou apenas uma troca de guarda no teatro do poder.

Hoje, meu questionamento não é sobre o que é certo ou errado; as estruturas éticas ainda existem, muitas delas construídas pela filosofia grega antes de Cristo, embora muitos prefiram não olhar para elas. A dúvida real é: quem sobrará para organizar a casa? Quem terá a sobriedade necessária para recolher os cacos de uma sociedade que desaprendeu a dialogar?

Olho para o futuro com o realismo de quem viu planos econômicos fracassarem e esperanças serem traídas, mas ainda guardo a resiliência típica da minha geração. Acredito que acharemos uma saída. No entanto, a experiência que vem com a maturidade é clara: desta vez, a saída será dolorosa. A conta da desconstrução chegou, e a reorganização da nossa “casa” exigirá um esforço que cortará na carne.

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A dúvida que fica é: será que aguentamos mais um final terminando em pizza?

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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