Henrique Portugal
Henrique Portugal

Carnaval de BH 2026: entre o gigantismo e a identidade autoral

Grandes nomes nacionais serão sempre bem-vindos, mas precisamos ter a nossa identidade para poder exportar a nossa festa

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O carnaval acabou, mas ainda teremos alguma movimentação até o final do mês. Uma festa que era pra durar uma semana tomou conta de fevereiro. Isto é bom ou ruim? A clássica frase que “o ano só começa depois do carnaval” ainda terá que esperar mais um pouco.

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Na minha opinião, o grande destaque de 2026 foi a segurança e a descentralização. A ocupação de bairros fora do eixo Centro-Savassi gerou menos movimentação, diminuindo a confusão de áreas históricas e levando a economia do carnaval para os bairros. A limpeza urbana merece um carinho especial, com seu exército de garis e catadores, que garantiram que a cidade estivesse limpa logo após cada desfile e pronta para o dia seguinte.


O sucesso do nosso carnaval não traz somente bons momentos. O gigantismo é um deles. Na minha opinião, a longevidade do nosso carnaval está na manutenção da folia local. Onde a população se diverte. Onde as crianças têm espaço com horários exclusivos e os blocos de bairro desfilam tranquilamente.
Precisamos equilibrar a necessidade de profissionalização da festa com a manutenção da cultura local. Grandes nomes nacionais serão sempre bem-vindos, mas precisamos ter a nossa identidade para poder exportar a nossa festa, assim como faz o bahiano com seu axé e os cariocas com o samba. O gigantismo dos blocos só favorece a exposição midiática de curto prazo.


Alguns detalhes chamam a atenção para o carnaval deste ano. A diminuição de eventos fechados e o aumento de artistas que tocavam nestes eventos, migrando para o formato de bloco. Precisamos ajustar algumas regras de financiamento público para proteger os blocos menores, pois são eles o coração da nossa festa. Ao mesmo tempo, entender o que aconteceu com os eventos fechados.


O carnaval de Minas Gerais mudou a sua rota. Até os anos noventa, o sentido era sair da capital e ir para o interior. Nos últimos dez anos, isso se inverteu. Agora, novo movimento acontece. Já sinto as cidades do interior chamando os blocos da capital para fazer parte de suas festas. Esta é a comprovação que já temos um ecossistema mineiro de carnaval. Isto deveria ser uma politica pública de estado, assim como a Bahiatursa faz há muito tempo. Usando um jargão moderno; é exportar o nosso “softpower” cultural para fora da capital.


Em meio a esse cenário macroeconômico, um movimento silencioso, garantiu que BH não perdesse sua essência: o investimento na música autoral. Eu faço a minha parte, incentivando os blocos a lançar músicas próprias, não somente hinos, mas canções que ficarão na memória emocional junto com os momentos especiais da festa. Enquanto outras cidades correm o risco de se tornarem reféns de playlists comerciais, Belo Horizonte mostrou que tem composição, melodia e discurso próprios.


O resultado desse movimento é nítido. Quando um bloco desfila cantando uma música gravada e distribuída previamente, ele cria um ritual de pertencimento. O folião não é apenas um espectador de um trio elétrico; ele é parte de um coro que entoa o "RG musical" do seu bairro ou coletivo. Esse registro profissional dá dignidade aos compositores locais e transforma o efêmero em legado. Documentar o som de blocos como Baianas Ozadas, Swing Safado, Odilara e Volta Belchior é garantir que o carnaval de BH tenha uma assinatura inconfundível.


O próximo passo para a capital mineira é unir a excelência operacional com o fomento cultural. É preciso que a iniciativa privada enxergue nos blocos e em seus projetos autorais uma oportunidade de patrocínio que vá além do logotipo no trio.

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O carnaval de Belo Horizonte já provou que é um gigante econômico; agora, com o fortalecimento de sua produção musical, prova que tem voz própria.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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