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SIGA NOEscrevo para o Estado de Minas há mais de dez anos e, ao longo deste tempo, vi Belo Horizonte se transformar. Mas poucas mudanças foram tão importantes culturalmente quanto a do nosso carnaval. De uma cidade que se esvaziava nos feriados, passamos a ser um dos destinos mais procurados no Brasil para a maior festa popular do nosso país. Os números impressionam, a multidão ocupa as avenidas e a alegria é inegável. No entanto, como músico e produtor que nasceu e mora na cidade, sempre ficava a dúvida: qual é, afinal, o som do carnaval de BH?
Foi essa inquietação que me motivou, há três anos, iniciar um trabalho de curadoria e incentivo junto aos blocos de rua da capital em busca desta identidade incentivando a gravação de músicas dos próprios blocos. Em 2024, começamos com nove blocos. Em 2025, o número subiu para doze. Agora, em 2026, ao lançar a nova playlist de músicas autorais do nosso carnaval, percebo algo diferente no ar. Não são apenas novas músicas; são músicas melhores. Há uma nítida evolução na qualidade das composições e, mais importante, no entendimento dos blocos que a folia precisa de uma assinatura cultural própria.
Durante muito tempo, o sucesso do nosso carnaval se apoiou na performance de repertórios alheios. Seja o axé da Bahia, o frevo de Pernambuco ou o samba do Rio. Isso funciona? Claro que funciona. Mas a reprodução, por melhor que seja, não constrói legado. Uma festa que se baseia apenas no “cover” é uma festa que vive do passado e da cultura do outro. Para que Belo Horizonte tenha um carnaval que não seja apenas grande em tamanho, mas gigante em relevância, precisa cantar a sua própria história.
Nesta seleção de 2026, é emocionante ver como cada bloco traduz sua essência em melodia e letra. Temos, por exemplo, a força histórica da Bartucada, que traz a tradição percussiva de Diamantina, ao lado deles, o Bloco da Esquina cumpre o papel de conectar a sofisticação harmônica do Clube da Esquina com a energia da rua e, neste ano, faz merecida homenagem a Lô Borges.
A diversidade rítmica segue com o Swing Safado, que traz uma linguagem urbana falando do pão de queijo de forma bem humorada, contrastando a ancestralidade do Afoxé Ogum Dé, que nos lembra que o carnaval é, antes de tudo, uma celebração de raízes africanas e resistência cultural.
O Volta Belchior transforma a lingua afiada do rapaz latino-americano numa grande festa enquanto o Românticos São Loucos nos brinda com as belas canções do Vander Lee. Junto com isto, podemos ver a irreverência, com pitadas de crítica social, do Bloco Fúnebre, que brinca com o luto para celebrar a vida, contrastando com sonoridade única do Bloco de Pífanos BH, que resgata instrumentos que conectam o interior ao urbano.
E não podemos falar de identidade sem citar a alegria do Banho de Xêro, que traz o tempero do Nordeste com sotaque mineiro; a musicalidade refinada do Bloco do Odilara; o carisma do Bloco da Cinara, e para fechar, o Baianas Ozadas, pioneiros que ajudaram a ‘baianizar’ BH neste novo carnaval.
Estou falando somente dos blocos que estão participando deste lançamento. Temos outros exemplos como o “Então, Brilha!” que fez um concurso para incentivar a produção autoral de músicas para a folia.
Ouvir o material destes blocos me deu a certeza de que algo mudou. Os compositores entenderam que ter músicas de sua autoria está associado à construção de uma “identidade”. É o que diferencia um cortejo genérico de uma manifestação artística. Estamos vendo nascer canções que falam das nossas ruas, das nossas gírias, dos nossos problemas e da nossa cultura.
Este movimento de valorização do autoral é o passo definitivo para a maturidade da nossa festa. Isto vai garantir que, daqui a vinte ou trinta anos, as futuras gerações não apenas se lembrem que “o carnaval de 2026 foi inesquecível”, mas que elas ainda cantem as músicas que foram lançadas neste ano.
A playlist que será lançada agora é um convite para que o público abrace essas novas canções com a mesma energia que canta os clássicos. Um convite para que as rádios, as plataformas e os próprios foliões valorizem o que é feito aqui.
Esta seleção de músicas estará disponível em todas as plataformas de streaming no dia 21 de janeiro para que durante o carnaval as pessoas já saibam cantar as novas canções. Basta procurar pelo nome “Carnaval de Beagá 2026”.
O carnaval de Belo Horizonte já provou que tem tamanho e competência para organizar a festa. Agora, com essa safra de composições autorais, provamos que temos voz, discurso e identidade. O som que é feito em BH não é mais um eco de outros lugares. Ele tem nome, sobrenome e melodia própria.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
