Gustavo Nolasco
Gustavo Nolasco
DA ARQUIBANCADA

Desespero e prejuízo de quem perde a chave domingo à noite

Para esse nosso problemão de prazo e elenco curtos, não existe outra solução senão contratar rapidamente peças de altíssimo nível

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Qual foi o último jogador formado na base do Cruzeiro que mereceu (e ganhou) uma sequência de oportunidades para disputar – em pé de igualdade – uma posição entre os 11 do escrete profissional, não por ausência de outra alternativa no elenco, mas, sim, por sua qualidade “fora da curva” e que, por isso, acabou por se firmar como titular absoluto?

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Kaiki Bruno. Resposta fácil, não é? Ele chega ao Cruzeiro com 10 anos de idade, em 2013. Com 18 anos, faz sua primeira partida no profissional, em 2021. É mantido no elenco principal por mais dois anos e, em 2024, briga – jogo a jogo – pela titularidade com o então medalhão da lateral esquerda, Marlon. Por sua qualidade técnica, Kaiki vence a disputa e se torna dono absoluto da posição em 2025. Um ano depois, em maio de 2026, está entre na pré-lista de convocados por Carlo Ancelotti para a Copa do Mundo.

Terá quem não concorde e aponte Otávio como resposta ao questionamento inicial. Porém, ao contrário de Kaiki, o nosso arqueiro não se tornou titular exclusivamente por seus méritos e qualidades (que comprovadamente possui) ou por uma sequência sistemática de chances dada pelos treinadores (o que nunca aconteceu). Sejamos realistas... Ele está guardando a nossa meta por conta da contusão seríssima de Cássio e pelo desempenho pífio de Matheus Cunha.

Desde a volta à Série A, em 2022, até a atual temporada, para além de Kaiki e Otávio, nenhum outro jogador vindo da base conquistou a titularidade. Alguns até figuraram – e figuram – constantemente entre os reservas relacionados, mas nenhum deles, de fato, em algum momento, disputou de forma real a titularidade.

Recentemente, o Cruzeiro negociou ou liberou (mantendo um percentual dos direitos econômicos) uma série de atletas da base ou recém-saídos dela: Baptistella, Jhosefer, Pedrão, William Fernando, Vitinho, Janderson, entre outros.

Do ponto de vista financeiro, essa é uma estratégia acertadíssima, pois há uma grande demanda do mercado internacional por jogadores cada vez mais novos (para serem moldados ao estilo europeu de jogo). E também porque, estatisticamente, em qualquer clube ou país, apenas uma parcela muito diminuta de atletas brilhantes nas categorias de base consegue manter a excelência de performance após a transição para o profissional.

Mas onde foi parar ao menos essa “parcela muito diminuta de atletas brilhantes da base cruzeirense capaz de manter a excelência de performance no profissional”? Os últimos, talvez, tenham sido o meia Maurício e o atacante Igor Thiago, vendidos para salvar o Cruzeiro da falência em 2020 e 2022, respectivamente.

Vamos ao ponto central dessa reflexão: a base do Cruzeiro está de fato formando ao menos essa parcela diminuta de jogadores diferenciados? Se sim, por que nunca recebem uma sequência concreta de chances para, ao menos, disputarem “pau a pau” esse posto com os medalhões?

Algo está muito errado e precisa ser questionado.

Obviamente, seria raso e cruel fazer esse questionamento com o viés de “mudança já”, agora que a fragilidade do elenco do Cruzeiro está exposta pela venda de dois titulares (Kaiki e Christian), pela contusão de outros dois (Gabriel Pec e Sinisterra) e pela suspensão de mais uma dupla (Gerson e Matheus Pereira).

Não existe aqui um pedido esdrúxulo para a entrada imediata de jovens oriundos das categorias de base já contra o Coritiba, pelo Brasileirão; frente à Chapecoense, pela Copa do Brasil ou no duríssimo embate da Libertadores, contra o Flamengo.

Para esse nosso problemão de prazo e elenco curtos, não existe outra solução senão contratar rapidamente peças de altíssimo nível. “Ah, mas serão mais caros.” Meu amigo, até quando você perde a chave de casa no domingo à noite, o preço do chaveiro é mais caro?

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Fica a pergunta: se nos últimos tempos, a base do Cruzeiro realmente estivesse formando jogadores diferenciados, com capacidade de excelência de performance no profissional, estaríamos nós, agora, desesperados atrás de um chaveiro para abrir as fechaduras das chaves perdidas?

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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