A braçadeira de capitão mais cruzeirense do Chile
O amor pelo Cruzeiro veio do pai, Amos Miranda, mineiro de Ibirité que cruzou os Andes e chegou a Santiago em busca de melhores condições de trabalho
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O domingo era de sol em Santiago, no Chile. Quase tocando o céu, as geleiras da Cordilheira dos Andes sopravam um vento ameno e, assim, continham os nervos à flor da pele por conta do derby que logo iria se iniciar. Mais uma edição do “Clássico Universitário”, disputado há mais de 100 anos entre os arquirrivais Universidad Católica e Universidad de Chile ( a “La U”).
Escretes posicionados. Do lado de La U, a braçadeira de líder estava em um braço magro, moreno, de um jogador concentradíssimo, que escorria vontade de vencer pelos olhos. Esse era Thomy, o maior cruzeirense chileno da história!
No superclássico prestes a se iniciar, caberia a ele ocupar o posto de capitão que outrora pertenceu a Walter Damián Montillo, um dos maiores ídolos do dois clubes do coração de Thomy: a La U e o Cruzeiro.
A pelota rolou. Quem esperava um embate duro e hostil, se surpreendeu. Tudo caminhou para uma goleada histórica da Universidade de Chile sobre a Católica por 9 a 2. O cruzeirense Thomy, jogando pela ponta direita, não só foi um maestro, como também anotou um dos tentos na peleja válida pela Categoria Sub-7 do Campeonato de Escolas Formativas da CNEF.
O amor pelo Cruzeiro veio do pai, Amos Miranda, mineiro de Ibirité que, em 18 de agosto de 2013, cruzou os Andes e chegou a Santiago em busca de melhores condições de trabalho. Por lá ficou, se enamorou e se casou com sua amada, Javiera Pavez.
Thomás Abraham Miranda Pavez, o nosso Thomy, nasceu em 18 de agosto de 2019, exatamente seis anos depois do início da jornada de Amos por terras chilenas. No mesmo dia, Rogério Ceni estreava como técnico do Cruzeiro, que venceria o Santos por 2 a 0. Dando a falsa impressão de que conseguiria escapar do temido rebaixamento naquela temporada.
Não escapou. Amos sofreu todo o martírio cruzeirense de 2020 a 2022 se apegando ao crescimento do seu “chico” Thomy. Esse dava seus primeiros passos vestidos de azul e branco. A palavra “Cruzeiro” foi uma das primeiras aprendidas e repetidas, arrancando sorrisos orgulhosos do pai cabuloso.
Com o Cruzeiro de volta à Série A e às competições internacionais, em 2024, foi o momento de realizar mais sonhos. Nem os 600 quilômetros que separam Santiago de Concepción, no Sul do Chile, foram suficientes para fazer Amos desistir de realizá-lo. Para lá, seguiu para dar a Thomy a oportunidade de ver de perto, pela primeira vez, uma peleja do Cruzeiro, o empate sem gols contra o Unión La Calera, pela Copa Sul-americana.
Meses depois, foi a vez de cruzarem os Andes e aterrissarem em Belo Horizonte. A raposinha de pelúcia nas mãos e os olhos vidrados na imensidão do Mineirão. Na peleja contra o Internacional, novo empate sem gols. Thomy nem ligou.
O nosso pequeno cruzeirense chileno só iria gritar gol em 2026. Exatamente na última vez que esteve em um estádio para assistir de perto seu Cruzeiro. Desta vez, em Coquimbo, a 500 quilômetros ao norte de Santiago, onde o time estrelado perderia por 2 a 1 para o Palestino e explodiria em crise.
Na arquibancada, nos braços de sua nova amiga Geisa, uma cruzeirense que partiu de Mariana para acompanhar o Cabuloso em terras chilenas, Thomy, na inocência de sua infância, não se apegou ao resultado desportivo terrível, mas sim a poder comemorar pela primeira vez um gol do seu Cruzeiro em um estádio.
Na noite de hoje, o Cruzeiro volta ao Chile para uma partida de “vida ou morte” pela Copa Libertadores. Do outro lado, a Universidad Católica. Nem o empate nos serve.
Em alguma parte das arquibancadas do estádio San Carlos de Apoquindo, estarão dois capitães da La U, Thomy e Montillo. Dois corações cruzeirenses pulsando firme de amor e esperança por uma superação.
De cá, sonharei para que ambos terminem a noite sorrindo e, quem sabe, abraçados – e compartilhando a braçadeira de capitães - comemorem uma vitória cantando:
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“Dice que somos loucos de la cabeza / amamos o Cruzeiro e o que interessa / el mundo entero tema la bestia negra / Seremos campeones, no lo olvides! / Somos locos, somos Cruzeiro!”
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
