Uma noite para se fazer as pazes
Se vencermos, não se furte ao gesto carinhoso de beijar as cinco estrelas espalhadas no manto sagrado a cobrir seu coração
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O futebol é a prática do amor bandido. A materialização paradoxal do rancor. A resposta muda e sem revide à pergunta filosófica: quem nasce primeiro, o perdão ou o esquecimento?
“Acreditar, eu não / recomeçar, jamais.” Ser um torcedor apaixonado por um clube é contradizer, cantando e sem embaraço algum, o refrão do samba clássico de Dona Ivone Lara e Délcio Carvalho. É não perceber o soprar do vento secando lágrimas, curando feridas e nos levando aos recomeços – sem resistir a eles.
Na noite de hoje, o Cruzeiro/Palestra nos convida para mais um recomeço de tantos nesses 105 anos de casamento. A peleja contra o Vitória, da Bahia, no estádio construído para ser a nossa toca do amor (bandido ou não), o Mineirão, marca a estreia do novo comandante celeste, Artur Jorge, que vem com a missão de soprar para longe os dissabores do péssimo início de temporada.
Conquistar uma vitória será como um pedido de aceite para reatar os laços entre arquibancada e gramado. Um primeiro passo para o perdão. O primário sinal do esquecimento, talvez perigoso, mas, nesse instante, extremamente necessário.
Que a Nação Azul é a maior e a única torcida de Minas Gerais a cantar e vibrar o tempo inteiro nos jogos, isso já é novela romântica repetida até para os portugueses. Um vale a pena ver de novo.
Mas outra característica nossa, da qual não devemos nos esquecer – ou deixar ser distorcida por terceiros para algo pejorativo – é o fato de também sermos uma torcida exigente para com nossos elencos, comissões técnicas e dirigentes.
Amar incondicionalmente o Cruzeiro/Palestra, o Time do Povo Mineiro, jamais foi – ou será – sinônimo de amor cego.
Enquanto agremiações fundadas e mantidas no ódio, como o Atlético de Lourdes, coloca camisa de estuprador no salão de troféus porque ele marcou um gol contra o Cruzeiro, como forma de cativar a sua Turma do Sapatênis, a nós, do Cruzeirão Campeão, jamais caberá transformar um jogador em ídolo por simplesmente ter batido em antiatletas, como o fraquíssimo Lyanco.
O amor pode – e deve – ser exigente. Assim é o cruzeirense. Não se atentar a isso ou relevar pode ser um erro fatal para quem chega em momentos delicados de recomeços, como é o caso de Artur Jorge.
A ele, fica a obrigação de entender o tamanho da responsabilidade; já que tem a missão de ser o mensageiro desse recado da torcida para o elenco de jogadores. Nós, torcedores, estamos prontos para reatarmos nesta noite e fazer dela uma segunda chance para finalmente seguirmos na trilha das conquistas nacionais e internacionais, planejadas e sonhadas – como lua de mel – para esse 2026.
A você, companheiro de arquibancada, deixo um pedido para essa noite em que as águas da Pampulha refletirão amorosamente o brilho da lua cheia. Mesmo se ainda estiver magoado com o escrete cruzeirense, ao soar o apito do árbitro, dando início à peleja, deixe seu coração celeste bater apaixonado, como é da sua natureza.
Entregue-se. Se o gol vier, não segure o sorriso. Se vencermos, não se furte ao gesto carinhoso de beijar as cinco estrelas espalhadas no manto sagrado a cobrir seu coração.
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Entregue-se a esse recomeço, pois não há nada mais delicioso do que viver intensamente esse amor bandido.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
