A zaga do Galo me proporcionou a alegria de rever o vídeo daquele torcedor breaco na geral do velho Mineirão, a analisar a atuação do nosso lamentável beque: “Ô Werley, se botar duas tartarugas pra você tomar conta, uma foge, Werley, cê é ruim demais, Werley”. O arguto comentarista também tinha uma crítica construtiva: Werley deveria subir para as disputas de bola aérea com os cotovelos para o alto, de modo a nocautear o adversário quando fizesse a aterrissagem. “Bica eles, Werley, bica eles!!!”
O velho Mineirão foi demolido pela força da grana, que ergue e destrói coisas belas. A geral virou cadeira numerada, aquela onde não nos sentávamos porque na arquibancada se sentia mais emoção. O torcedor pobre, preto e breaco foi eliminado da festa. A única coisa daquele vídeo a permanecer atual é o Werley. E o casal de tartarugas, sempre a divorciar-se por ocasião da fuga bem-sucedida.
Que zagueirada horrorosa essa de hoje, minha gente. É Werley a dar com pau! Na Festa do Céu, a tartaruga entrou escondida no violão do urubu. Aqui ela passa na cara dura mesmo, enquanto os bagres batem cabeça na vã tentativa de contê-la. São os Três Patetas, quando não os quatro Trapalhões. Na primeira hipótese, Alonso seria Moe Howard, dadas as cuias que deixaram tecer sobre as carcaças cranianas. Na segunda, Zacarias.
Conforme o testemunho do torcedor, Werley era capaz de barrar uma tartaruga, embora a outra infelizmente lograsse sucesso no empreendimento da fuga. Hoje escapam ambas, como se em uma década e meia a evolução da espécie as tivesse conferido passadas de guepardo.
Mas veja você, o mundo capota. E o negócio é fiar nesse acidente rodoviário. Veja o caso do Werley. Como tem bobo pra tudo e o Grêmio é prova disso reiteradas vezes, trocamos o ineficiente cuidador de tartarugas pelo Victor. Victor pegou o pênalti contra o Tijuana, depois contra NOB e Olímpia. Ganhamos a Libertadores. No ano seguinte, a Recopa e a Copa de Todas as Copas. Um período de glórias eternas cujo ponto final é o Brasileirão de 21.
Até o torcedor breaco da geral há de reconhecer o responsável por tudo isso: Werley, as duas tartarugas e o Efeito Borboleta. No frigir dos ovos, a síntese promovida pelo torcedor breaco e sua repercussão podem ter ajudado decisivamente no processo. O que tornaria tal torcedor a pedra fundamental daqueles anos de ouro. Se me permitem ainda um passo atrás, a culpa seria da danada da cachaça.
De modo que sempre há esperanças, por mais insuspeitas. Me agarro a elas nesse fim de semana de clássico. Penso, claro, no gol de Dinho, “todo entrega, todo generosa luta”, o perna de pau que mete um golaço no arquifreguês, um timaço que gostava de perder da gente.
O Galo de 2026 é uma zona. Dentro e fora de campo. Boa parte da imprensa, amansada, ajuda a confundir os fatos. A SAF é o Werley que possui parreiras de uva no Douro, o Werley que escolhe defender o clube vendendo parte dele a um banqueiro falido. Mas quando não foi assim? Nos últimos trinta anos ou mais, apenas durante as gestões de Alexandre Kalil (e Rodolfo Gropen). De resto, Lourdes é um andar no edifício da Brilhante.
Então, Brilha! Deixemos o Sampaoli trabalhar, na esperança de que seja ele mesmo quem está a remontar o time e que já esteja ciente do desembarque de reforços que já haviam desembarcado. Aceitemos que o Mineiro é pré-temporada, e que o hepta não é prioridade. Apesar dos foguetes molhados, tracks e Bracks, confiemos no careca baixinho de alma grande cuja biografia se chama “No Escucho y Sigo”, Não Escuto e Sigo, sem dúvida um bom partido para a lida com o andar de cima da Brilhante.
Sobretudo, confiemos na força transcendental daquele torcedor. Onde estará? Do que se alimenta? Apenas da cachaça? Paguemos o ingresso e o gole desse pessoal capaz de mudar a história. A gente sabe que eles tremem, e uma vitória sobre o arquifreguês é sempre um divisor de águas. Águas que passarinhos não bebem.
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