A burrice não é uma disfunção da razão
A burrice possui uma lógica independente, esse é o ponto central que nos escapa
Mais lidas
compartilhe
SIGA NO
A tradição filosófica ocidental nos acostumou a pensar uma coisa como se fosse simplesmente a ausência de outra. O mal, por exemplo, seria a ausência do bem; o feio, a falta do belo; a ignorância, a ausência do conhecimento; a imoralidade, como a falta de moral.
Fique por dentro das notícias que importam para você!
Parece um raciocínio sofisticado, mas esconde um perigo simplificador: a ideia de que o mundo pode ser explicado pela oposição entre duas coisas, uma boa e outra ruim, uma certa e outra errada, uma perfeita e outra imperfeita.
Essa maneira de pensar tem raízes na filosofia de Platão. Ao estabelecer uma distinção entre o mundo das ideias e o mundo sensível, ele atribuiu à razão a tarefa de alcançar as verdades universais, modelos perfeitos e imutáveis. O mundo concreto, marcado pelas mudanças, pelas contradições e pelas imperfeições, ocuparia uma posição inferior.
Leia Mais
Não se trata de dizer que Platão ignorava a complexidade da existência, mas de reconhecer que sua filosofia estabeleceu uma hierarquia entre o conhecimento verdadeiro e a opinião, entre um modelo ser seguido e o resto.
Essa herança influenciou a maneira como aprendemos a organizar o pensamento. Passamos a acreditar que, para compreender alguma coisa, precisamos encontrar sua essência, identificar seu oposto e estabelecer uma classificação. O resultado é uma visão de mundo que frequentemente transforma diferenças complexas em categorias simples.
Nasceu daí, entre outras coisas, a ideia de que a inteligência representa a presença do conhecimento, enquanto a burrice seria apenas sua ausência. Como se o indivíduo burro fosse alguém a quem faltasse uma determinada quantidade de razão, e não alguém que pudesse desenvolver uma maneira própria, uma outra compreensão sistemática e forte de organizar suas certezas.
A burrice não pode ser vista simplesmente como a ausência de inteligência. Ela possui uma lógica independente e esse é o ponto central que nos escapa. A ignorância tem uma relação obsessiva com a simplificação, por isso possui um certo poder: reduzir o tamanho do mundo para caber nas pequenas certezas.
É por isso que alguns sujeitos simplificam a política a partir da criação de um inimigo comum e a vida social supostamente deteriorada (como se existisse uma perfeita e essencial) encontrando um culpado.
Simplificam até mesmo a diversidade sexual, como se existisse apenas forma correta e essencial e modelar de sentir prazer. Ou seja, existe a sexualidade “do Bem”, o restante não passa de prazeres do mal. Talvez seja por isso que o diabo sempre se mostrou mais atraente...
A inteligência, ao contrário, trabalha na direção oposta. Procura relações, identifica contradições, considera circunstâncias e reconhece que uma mesma questão pode apresentar diferentes dimensões. Possui um pensamento analítico. Enquanto a burrice é sempre sintética. A diferença entre o inteligente e o burro é o fato de que a burrice está certa sempre. A inteligência, ao contrário, desconfia a todo momento. A diferença entre inteligência e burrice não é uma questão de essência, mas apenas um fator de constância, pois o burro acredita que está certo o tempo todo.
Determinadas expressões fazem muito sucesso e se transformaram em um espécie de síntese da complexidade: "pessoa de bem", "cidadão de bem" ou "família de bem". À primeira vista, parecem expressões inofensivas, até desejáveis. Afinal, quem seria contra o bem? Como se ele existisse de forma única, exclusiva e essencial.
A vida humana é mais complexa do que essas classificações. Uma pessoa pode ser generosa em casa e cruel no trabalho. Pode defender valores morais em público e agir de maneira desonesta quando ninguém está olhando. Uma família pode ser amorosa sem seguir o modelo tradicional. Um cidadão pode discordar profundamente de outro sem que isso faça de qualquer um deles uma pessoa moralmente inferior.
Essa necessidade de simplificação só revela algo ainda mais preocupante: a dificuldade de conviver com a ambiguidade, característica da vida contemporânea. Como diria o pessoal lá do Buteco do Chicão, durante as reuniões da Academia Etílica de Copos e Letras: o negócio é tão profundo que já estão cobrando IPTU do capeta!
A burrice possui uma essência própria: a preguiça eficiente diante da complexidade do mundo.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
É por isso que a sociedade não fica mais simples porque alguém encontrou uma explicação sintética para ela. Apenas fica menor dentro da cabeça daqueles que possuem a certeza de que encontraram a solução para todos o problemas.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.