Antônio Candido, sociólogo e crítico literário, chamou de monstruosidade a ideia de que “tempo é dinheiro”. Tentar quantificá-lo dessa forma é reduzir o tecido mais complexo da experiência humana. É transformá-lo em unidade de troca, empobrecendo a existência.
A pretensão da sociedade de mercado é colonizar o cotidiano até que ele seja um pobre intervalo entre duas obrigações. Tipo workshop de mindfulness que a empresa contrata para que seus funcionários produzam mais.
Nos humanizamos no tempo e pelo tempo. Poucas coisas são tão perversas quanto colonizar o cotidiano, esse território revolucionário da vida à toa. Comprar o tempo de alguém, ou ocupá-lo de maneira opressiva, deveria ser considerado uma das grandes barbáries da história.
Por isso que um homem sem tempo é menos humano. Fácil de ser alienado. Pois compartilha a função mecânica dos motores, que estão no tempo, mas não conseguem habitá-lo. Existem, mas são incapazes de experimentar. Movem-se sem viver.
Sem tempo somos apenas homens de “neg-ócios”, rezando para São Lucro de Cada Segundo.
A única certeza da vida é que ela será consumida, mas é a forma como passamos o tempo que decidirá seu significado. A beleza da finitude reside justamente na impossibilidade de parametrizar a experiência temporal.
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O relógio pode marcar a mesma hora para todos, mas nunca o mesmo tempo. Se a morte iguala a todos, somente a experiência do tempo diferenciará o poeta do rentista.
A lógica corporativa, sacerdote das horas faturáveis, tenta sequestrar esse significado, convertendo-o em capital, extraindo o rendimento de cada minuto. Celebra-se, com isso, o calendário dos dias úteis, livro sagrado que transformando o ócio em desvio moral.
A tragédia dessa lógica está na mutilação simbólica de significar o tempo com dinheiro, reduzindo tudo aquilo que não gera lucro a algo sem valor.
Por isso que educar os filhos virou investimento.
O encontro de boteco se torna um chato networking.
Ler vagabundamente se transformou em desenvolvimento de habilidades.
Cuidar dos pais é gestão familiar.
E apostar no desejo é branding pessoal.
A história da civilização pode ser contada como uma disputa permanente pelo controle do tempo. Reis controlavam seus servos, senhores controlavam seus escravos e patrões seus empregados. Hoje, a sociedade de mercado capitaliza o tempo livre, uma forma de controlar o trabalhador fora do trabalho. Não basta se apropriar do corpo, a lógica de mercado almeja o tempo como propriedade privada e exclusiva. Por isso que ser improdutivo é um perigo.
Afirmar que o tempo não é mercadoria não é apenas uma frase romântica. É uma declaração político-poética.
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É lutar pelo direito de desperdiçar uma tarde com quem amamos, devolvendo ao tempo sua dimensão de mistério. Pois não desejamos possuí-lo, mas experimentá-lo com a liberdade daqueles que estão sempre dispostos a acreditar que ele não é dinheiro, é direito.
