Muitas de nós, mulheres negras, já ouvimos a famigerada frase: “você está querendo dar um passo maior que as pernas”. Curiosamente, esse "aviso" nunca aparece quando estamos em trabalhos insalubres, cuidando de todo mundo, organizando as coisas ou carregando o mundo nas costas. O problema começa quando resolvemos querer., isso mesmo, querer o cargo, o salário, o título, a cadeira, o microfone e, sobretudo, o poder. É quando nossas pernas avançam para além do lugar socialmente reservado a nós que alguém se apressa em avisar que o nosso passo está grande demais. Talvez seja por isso que eu tenha olhado para o resultado das eleições deste domingo com certo gosto. Em Minas Gerais, as mulheres negras não encurtaram o passo. Reelegemos todas as deputadas negras que já ocupavam os legislativos estadual e federal e ainda colocamos mais três mulheres negras para dentro. Se o passo estava grande, desta vez as urnas disseram: pode aumentar.
Talvez a gente precise voltar oito anos para entender o tamanho do que aconteceu neste domingo. Em 2018, Minas Gerais elegeu as três primeiras mulheres negras de toda a sua história para a Assembleia Legislativa: Andréia de Jesus, Leninha e Ana Paula Siqueira. Três. Em uma Casa com 77 cadeiras, depois de décadas e décadas de eleições, finalmente três mulheres negras sentariam ali como deputadas estaduais. Naquele mesmo ano, Áurea Carolina foi eleita deputada federal. Era a única mulher negra de Minas Gerais na Câmara dos Deputados.
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Quatro anos depois, em 2022, aconteceu algo que também merece atenção: Andréia, Leninha e Ana Paula foram todas reeleitas. E a bancada, em vez de encolher, cresceu. Macaé Evaristo chegou à Assembleia e passamos de três para quatro mulheres negras. Áurea Carolina decidiu não disputar a reeleição para a Câmara Federal, mas Minas não voltou à estaca zero: Dandara Tonantzin foi eleita deputada federal. Pois chegamos a 2026. E eu faço questão de escrever devagar porque talvez a gente ainda não tenha entendido direito o que aconteceu: todas, absolutamente todas, foram reeleitas.
E não foi só isso. Nós não apenas mantivemos as mulheres negras que já estavam nos espaços legislativos. Aumentamos a bancada, na Câmara dos Deputados, saímos de uma para duas mulheres negras eleitas por Minas Gerais e na Assembleia Legislativa, saímos de quatro para seis.
Pode parecer pouco quando olhamos apenas para os números absolutos, duas em Brasília, seis em Belo Horizonte, mas experimente colocar esses números ao lado de 2018. Há apenas oito anos, Minas Gerais estava elegendo suas primeiras três mulheres negras para a Assembleia Legislativa de toda a história, oito anos.
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E aí chegamos a Ana Elisa. Com apenas 21 anos, ela foi eleita deputada federal por Minas Gerais com uma votação extraordinária, ficando entre os nomes mais votados do estado. Uma jovem mulher negra chegando a Brasília não pela porta dos fundos, não pelo elevador de serviço, não pela suplência, não pedindo licença: chegando carregada por centenas de milhares de votos. É mole ou quer mais? Porque tem mais.
Na Assembleia Legislativa, a bancada de mulheres negras também cresceu com a eleição de Iza Lourença e Adriana Souza. Depois de dois mandatos como vereadora de Belo Horizonte, Iza dá outro passo na política institucional e chega ao Legislativo estadual. Já Adriana ultrapassa a marca de vereadora mais bem votada do município de Contagem para deputada reconhecida nas nossas gerais.
É obvio que ainda somos poucas e queremos mais. Eu sei e você também sabe que seis mulheres negras em uma Assembleia de 77 cadeiras estão muito longe de representar o tamanho que as mulheres negras têm na população mineira. Duas deputadas federais também não resolvem uma sub-representação construída durante décadas. Mas há uma diferença enorme entre dizer “ainda somos poucas” e não perceber que estamos aumentando.
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Em 2018, eram três eleitas para a Assembleia, em 2022, quatro, em 2026, seis. E, talvez mais importante do que isso: até aqui, nenhuma ficou pelo caminho. Todas foram reeleitas. Isso diz muita coisa. Diz que mulheres negras podem chegar, podem construir mandato, podem e devem disputar novamente. Diz principalmente que eleitoras e eleitores podem olhar para uma mulher negra que ocupou o poder e decidir: quero que ela continue lá. Depois de tanto tempo ouvindo que mulher negra não tem voto, não tem estrutura, não é competitiva, não consegue se eleger e, quando consegue, dificilmente permanece, talvez esteja na hora de prestar atenção no que Minas Gerais está dizendo nas urnas. Não chegamos nem perto de onde precisamos chegar, mas, com certeza, também já não estamos onde estávamos. E isso não é pouca coisa.
