Imagine a seguinte situação: você tem a alegria de chegar aos seus 61 anos de idade com pai e mãe vivos. Além disso, tem uma filha linda de 30 anos, tem graduação em medicina, especialização e atua em um hospital público atendendo pacientes em tratamento oncológico há décadas. Adora viajar e curtir com a família, celebrar a vida com amigos. Em um dia como qualquer outro, você resolve entrar em seu carrão e ir visitar seus pais e, ao sair da casa deles, é confundida com criminosos e brutalmente assassinada por agentes da Polícia Militar.

Então, foi isso que aconteceu com a médica Andréia Marins Dias.

Uma das pouquíssimas mulheres negras formadas em medicina em um país onde o acesso à educação superior ainda é tratado como privilégio e onde a medicina permanece como um símbolo de status da branquitude. Eu vi muita gente tentando classificar esse caso como uma fatalidade. Eu gostaria muito que fosse. Porque, se realmente fosse, eu não viveria com o medo constante de ter minha vida ceifada simplesmente por ser uma pessoa negra vivendo na mesma cidade onde Andréia foi “confundida” com bandido e assassinada.

Mas, diante desse caso e da afirmativa de muitos de que foi só uma fatalidade, a pergunta que me persegue é: por que as médicas brancas não são confundidas com bandidos?

Essa pergunta pode até parecer sem sentido ou até absurda, mas a sua resposta escancara a lógica de quem é suspeito e de quem o Estado autoriza assassinar. Todo corpo negro, seja ele masculino, feminino, alto, baixo, adulto, criança, idoso ou jovem, é confundido com suspeitos de crimes e automaticamente alvejado pela Polícia Militar do Rio de Janeiro. Mas, por incrível que pareça, eu nunca li, ouvi ou vi nenhum caso de um carro com cinco jovens brancos sendo alvejados com 111 tiros pela polícia por serem confundidos com bandidos. Mas cinco jovens negros, sim. Eu nunca vi um músico branco ter seu carro na mira de 257 tiros e ser alvejado pelo Exército com mais de 80 tiros, mas um músico negro que estava com sua família, sim. Eu também nunca vi uma menina branca ser atingida por um tiro de fuzil da polícia, mas a Ágatha, que era uma criança negra, sim. Eu nunca ouvi falar que a polícia confundiu uma médica branca com bandido, mas, adivinha? Nos últimos dias, a polícia confundiu e matou uma médica negra que estava dirigindo o seu carro.

Esses casos são alguns poucos de tantos outros que ocorrem todos os dias, mas com uma peculiaridade: mesmo em uma sociedade em que a maioria dos médicos e médicas, principalmente os que têm mais de 60 anos, é branca, “coincidentemente” a médica assassinada pela polícia é uma das pouquíssimas negras. Sinceramente, nem tente me convencer de que isso não é efeito direto do racismo e de que viver dentro de um corpo negro não é um risco constante e contínuo. Por gentileza, me conte: quantas vezes você foi ao médico? E, das tantas vezes que você entrou em um consultório, em quantas delas o médico estava sentado do outro lado da mesa, vestido com um jaleco branco, sendo um negão ou uma negona? Agora compare quantas vezes estava lá te aguardando um médico branco ou uma médica branca. As respostas, quase sempre, revelam mais do que qualquer estatística.

É preciso um requinte muito grande de crueldade para negar a motivação racista desse episódio, nesse cenário que estamos vivendo. Porque o que está em jogo aqui é a forma como a sociedade atribui valor à vida. É óbvio que a branquitude funciona como proteção social, enquanto a negritude funciona como marcador automático de suspeição. Independentemente de classe, profissão ou idade (criança, médico, músico), o corpo negro é lido como ameaça e é alvo preferencial da violência estatal. Isso é o que chamamos de perfilamento racial.

E há mais.

O que sustenta essa engrenagem é o que o filósofo Achille Mbembe conceituou como necropolítica: o poder de decidir quem pode viver e quem pode ser legitimamente assassinado. O perfilamento racial define quem é suspeito. A necropolítica define quem pode ser eliminado. O resultado é brutal e direto: o corpo negro é, ao mesmo tempo, suspeito automático e alvo legítimo de morte.

E então voltamos à pergunta: por que as médicas brancas não são confundidas com bandidos?

Porque não é sobre profissão, não é sobre carro, não é sobre idade. É sobre o que há tempos dizia Abdias do Nascimento: isso é o genocídio do povo negro em constante operação. É preto ou preta? Mete bala. Ninguém tem dó de preto, não é mesmo? Experimente ser preta ou preto e levantar um pouquinho a voz com uma médica branca que te trata com desdém, sem profissionalismo, em alguma UBS para ver o que acontece. Certamente será retirada de forma truculenta do consultório por um guarda municipal. Mas experimente ser uma médica preta dirigindo um carro para você saber como a polícia te vê e o que ela é capaz de fazer com você.

Deixo aqui registrada a minha raiva contra esse sistema de segurança pública racista. Porque eu só posso sentir raiva de um sistema construído para nos matar. Registro a minha solidariedade aos pacientes que tiveram a satisfação de ter sido acompanhados e curados por uma médica negra, eu nunca tive a oportunidade de ser atendida por uma. Deixo também meu abraço carinhoso à mãe, ao pai e à filha de Andréia Marins Dias.

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