Em 1913, a escultora Camille Claudel foi internada em uma clínica psiquiátrica, pela mãe dela e o irmão, e lá passou os últimos 30 anos de sua vida. Nos anos em que esteve com seu “mestre e amante” Rodin, há indícios de que algumas de suas obras tenham sido apropriadas por ele. Em 1932, Zelda Fitzgerald, mulher do escritor F. Scott Fitzgerald, internada em um hospital psiquiátrico, escreveu sua autobiografia “Esta Valsa é minha”- um lúcido resgate de sua essência.
Dez anos antes de sua autobiografia, Zelda Fitzgerald revelou que seu marido havia roubado seu diário e extraído trechos e inspirações para seus livros: “Parece-me que, em uma página, reconheci uma parte de um antigo diário meu que misteriosamente desapareceu pouco depois do meu casamento, e também fragmentos de cartas que, embora consideravelmente editados, soam vagamente familiares”. Como ela mesma disse, “o plágio começa em casa”.
Cópias de cartas e de trechos do seu diário pessoal não impediram Zelda de escrever um livro belíssimo, que muito me marcou aos 21 anos de idade. Ela era uma mulher livre, uma cabeça sem limites para a criatividade, os desejos e o viver. No entanto, na conturbada relação que viveu com seu marido, coube a F. Scott Fitzgerald os créditos da genialidade literária; a Zelda, a loucura(!) – de uma mulher ciente de que seu talento era usurpado e atribuído a seu marido.
Camille Claudel, ainda muito jovem, tornou-se musa inspiradora de seu grande mestre Auguste Rodin. De aluna e colaboradora a fonte de inspiração, foi por 15 anos amante dele – o que lhe custou forte rejeição social. Enquanto Rodin era aclamado pela sociedade, Camille Claudel sofria para vender sua arte. No entanto, mesmo diante dos preconceitos, imprimiu um estilo único, mais lírico e expressionista em comparação ao daquele que fora seu mestre.
Em comum, Camille Claudel e Zelda Fitzgerald viveram intensamente suas relações amorosas, carregadas de toxicidade, com homens que, ao invés de enaltecer-lhes os talentos inatos, deles se apropriaram em um jogo de poder afetivo que as levou às raias da loucura. As práticas dos manicômios de suas épocas, calcadas sobretudo em eletrochoque e lobotomia, seguramente agravaram seus adoecimentos psíquicos e da alma.
Em 1944, após alguns anos em exílio político, a Dra. Nise da Silveira reiniciou seu trabalho como médica psiquiátrica no Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II, na cidade do Rio de Janeiro. Após 2 anos de resistência e boicote ao trabalho dela, cria naquele local o Centro de Terapêutica Ocupacional. Nesse espaço, a Dra. Nise explorava a capacidade criativa dos pacientes esquizofrênicos, dando-lhes uma outra perspectiva de vida e de condição humana.
A Dra. Nise carregava a liberdade do ser em seu coração e na sua mente. Era capaz de ver a riqueza e o potencial dos pacientes esquizofrênicos e estimulá-los a extrair de dentro de si a arte que habitava suas mentes. Sua prática substituiu a lobotomia e o eletrochoque pela liberdade da expressão artística e pelo afeto.
Há poucos anos, tive o privilégio de assistir a uma exposição sobre a vida da Dra. Nise da Silveira com uma amiga que foi grande colaboradora da doutora. Ela me mostrou as fragilidades que a curadoria não foi capaz de revelar. Dentre os momentos marcantes durante a exposição, uma comparação da obra de um paciente, antes e depois de ter sido submetido à lobotomia, me tocou profundamente. A mente destruída foi capaz de destruir a obra do artista.
Analogamente, pareceu-me terem sido as tristes experiências da vida no manicômio, de Zelda Fitzgerald e de Camille Claudel, agravadas pelo precedente afetivo de abuso e expropriação. No entanto, hoje Camille ocupa espaços nos principais museus e exposições itinerantes do mundo e Zelda é reconhecida por seu talento e por sua contribuição como ghost-writer ao sucesso literário de Scott.
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A Dra. Nise da Silveira fundou (i) o Museu de Imagens do Inconsciente, que conta com obras produzidas pelos pacientes nos ateliês de pintura e modelagem sob sua supervisão; e (ii) a Casa das Palmeiras, uma clínica voltada para o tratamento de egressos de instituições psiquiátricas em regime de externato. Seu arquivo pessoal foi incorporado ao Registro Internacional do Programa Memória do Mundo da Unesco.
Pergunto-me por que razão a natural ousadia feminina deve ser rotulada como loucura, ou amordaçada ou punida como atentado. A alma feminina é plural, capaz de absorver o feminino e o masculino; a natureza feminina é composta de curvas, ondas e contornos. A mulher está presente na dança, tem prazer em explorar o gingado do seu corpo e a sensualidade de seus contornos. A mente feminina é aguçada pelos sentidos; ela se permite ser livre.
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Trinta e dois anos antes de Camille Claudel nascer, a japonesa Tatsu Takayama vestiu-se de homem e escalou o monte Fuji até seu cume. Takayama precisou se disfarçar de homem para realizar uma atividade proibida às mulheres. Como me disse uma amiga psicanalista que me contou essa história,“até quando as mulheres precisarão se travestir para alcançar o topo(?).” Até quando não teremos o direito de bailar a valsa que somos?
