Ele me ensinava sem dizer a lição
Uma beleza que diz respeito a nós mesmos, ao que está sob a superfície do meio-dia
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Meu pai morreu aos 88 anos de idade e até mesmo na última tempestade que presenciou sentiu-se enjaulado por uma angústia sem remédio. Ele conhecia a origem daquele profundo mal-estar, mas nada conseguia fazer para afastar o calor das chamas do inferno. Era noite fechada e meu pai uma criança assustada, chovia torrencialmente quando a empregada doméstica lhe disse que o trovão era a voz poderosa de Deus, irada por conta das suas travessuras e malcriações. O menino, ainda tão pequeno, reuniu as mãozinhas aflitas diante da face da ingenuidade e suplicou perdão a Deus. A tempestade, porém, continuou estalando eletricidade, riscando o céu, estremecendo as vidraças das janelas. Não houve perdão.
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Assim, de uma forma muito particular, como são particulares as dores, a lógica aristotélica da dualidade se instalou na vida de meu pai de uma forma aterradora. Sem saber, carregava sobre os ombros o peso do mundo. Como o certo está apartado do errado, o bem do mal, os fiéis dos ímpios e os homens tão insignificantes aqui na Terra da divindade inacessível lá em cima no céu, aquela criança amedrontada sentiu-se aprisionada entre aqueles que deveriam ser castigados até o último dos seus dias. O tempo passou, e toda vez que trovejava seu coração de adulto se contraía dentro da jaula de suas costelas. Ele, encolhido em um canto, Deus no seu exílio celeste, incomunicáveis.
Às segundas-feiras, a professora arguia à classe quem tinha ido à missa no domingo. Os poucos que não levantavam a mão sofriam uma descompostura, embora nenhum de nós tivesse alcançado ainda um metro de altura nem autoridade para ordenar aos adultos que cumprissem a obrigação religiosa dominical. Aos que tinham ido, ela dava parabéns, mas alertava: não bastava ir e não prestar atenção, tinha que ouvir e enxergar o padre. Ou não estaríamos sendo bons cristãos. Não me lembro do que sentia diante da advertência, mas me lembro dela até hoje.
Antes das turmas irem para suas respectivas salas de aula, éramos reunidos em filas indianas paralelas para ouvir o hino nacional. Com frequência, a diretora subia em uma mureta e esbravejava contra os indisciplinados, o rosto vermelho, as carótidas saltadas no pescoço para dar conta do fluxo intenso de sangue e ira. Pobre mulher, não sei o que a fazia sofrer tanto. De minha parte, tremia de medo e culpa diante da mesma lógica aristotélica: eu era da turma que mandava ver, fonte dos dissabores da diretora. Não figurava, portanto, entre os disciplinados, merecedores de seu afeto e admiração. Pior: traía um compromisso familiar porque, sendo sobrinho de uma das professoras do colégio, tinha dever dobrado de comportar-me bem e tirar boas notas. Porém, entre a obrigação moral e a travessura eu não resistia à segunda opção.
Assim, fomos crescendo exatamente como crescem as outras pessoas, apartados uns dos outros, demarcados os terrenos, cada qual dentro de suas cercas, o olhar aguçado para identificar rapidamente quem é da tribo e quem é estrangeiro, reafirmando, de geração em geração, nossas crenças e convicções pessoais. Afinal, “ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”. Tratamos de manter a arrumação do mundo, pela qual a humanidade é um conjunto impossível.
Nesse chão duro e seco, seguimos preocupados com o que ainda não temos, cobrados pelas culpas do passado, respirando sob a longa manta dos algoritmos, mobilizados na defesa de nossas visões de mundo. E, se não bastasse, essa compaixão cada vez mais extravagante e démodé, insistindo em mostrar outro ponto de vista. Quanto a Aristóteles, ele apenas organizou em teoria o que já estava nas ruas e nas almas. Me pergunto se poderia supor que seria tão atual 24 séculos depois.
Daqui da minha janela, observando as pessoas passarem sob a batuta incansável do cotidiano, relembro de uma cena que parece pertencer a outra dimensão da vida, mas diz respeito a nós mesmos, ao que está sob a superfície do meio-dia. De tão linda, ficou tatuada na pele da minha memória e o digo assim, com localização tão imprecisa, é porque trata-se de beleza sem ostentação, divisada num relance antes de se meter novamente sob a lenha da subjetividade. Estávamos eu e meu velho amigo Marco Antônio Penido, ambos jovens universitários em viagem-aventura, hospedados num colégio cristão para meninos pobres, em sistema de internato, na cidade de Santa Cruz de la Sierra, Bolívia. Era o ano de 1980. Assistíamos a uma missa.
Durante a eucaristia, o padre sentou-se à frente do altar, entrelaçou os braços, uma das mãos sobre o ombro, a outra logo abaixo da axila, a cabeça ereta, os olhos cerrados e um silêncio absoluto. Nada nele se movia, escultura de si mesmo. Eu o contemplava, impressionado. Tão intensa era a sua entrega que me atravessou e veio ressoar entre as grades das minhas costelas. De forma inesperada, partilhei com ele o pão, tomamos do cálice o mesmo vinho. Ele me ensinava sem dizer a lição. Ditava um poema sem palavras.
Subitamente, Deus estava entre nós, liberto do exílio celestial, misturado conosco, num mundo sem terrenos demarcados. Criador e criatura à sombra de uma frondosa árvore, à beira de um lago de águas azuis. Passeava entre nós uma brisa perfumada, misturada em nós, parte de nós pela respiração, entrava e saía pelas narinas.
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