Chico Mendonça
Chico Mendonça
Chico Mendonça é jornalista (formado pela PUCMG em 1981), consultor de comunicação e escritor. São de sua autoria os livros "As Horas Esquecidas" (finalista do Prêmio Jabuti de 2018, com várias crônicas e contos publicadas no portal UAI) e o romance "A Vi
CHICO MENDONÇA

Francisca não mora mais aqui

Suja e descabelada, Chica saía do primeiro bar quando foi convidada para jantar

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Chica acordou com o sol do meio-dia sobre o rosto. Enxugou o suor com o braço e se levantou com dificuldade. O papelão, ela encostou na parede, e iniciou a peregrinação diária, com seu vestido velho e sujo, os cabelos embaraçados, as mãos trêmulas e os passos claudicantes. Andou pela calçada como se fosse a última. Entrou no primeiro bar e foi saudada como de costume:

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- Olha aí a Chica Cachaceira, isso são horas?

- Deve ter namorado um príncipe esta noite!

- Essa é boa, quem poderia suportar o cheiro?

O copo quase cheio e um pão com margarina foram depositados sobre o balcão. Ela nem disse muito obrigado, desprezou as risadas e amaldiçoou todas as piadas com igual vulgaridade – palavras de um mesmo idioma. Virou a bebida de um trago só, mas antes deu ao santo, fechou os olhos e experimentou o prazer do corpo em festa. Comeu o pão, fez um sinal com a cabeça para o balconista e se foi em direção ao próximo dos 14 bares de seu calvário cotidiano.

Mal tinha colocado os pés sobre a calçada e uma mão a puxou pelo braço. Era uma mulher de meia-idade.

- Boa tarde! Estou indo para o trabalho e, na volta, gostaria de convidá-la para jantar em minha casa esta noite.

Chica franziu a testa, apertou os olhos para melhor ver a outra, achou que não tinha entendido direito. Que conversa é essa?

- Passo aqui às 6h15 para te pegar. Pode ser? Moro aqui pertinho, dá para irmos caminhando.

A convidada assentiu com a cabeça, mas nada disse. A desconfiança é uma velha muda e rude. Foi uma surpresa quando, no horário marcado, a mulher chegou com um sorriso sinalizado nos cantos da boca. Foram as duas lado a lado, em silêncio. Chica, dissimulada, examinava a companhia sem virar a cabeça. Subiram as escadas do prédio e entraram no apartamento. A mulher a conduziu até um banheiro.

- Aqui está a toalha, o sabonete e o xampu, se quiser tomar um banho. Esta escova de dentes e a pasta comprei para você. Pode usar o perfume e o creme à vontade. O vestido, a calcinha, o sutiã e os sapatos são um presente. Acho que vão servir.

A mulher deixou o banheiro e fechou a porta atrás de si. Chica nada disse. Observou o local, todos os objetos, e se despiu enquanto meneava a cabeça. Tomou um banho demorado, deixou a água escorrer sobre o rosto em quantidade suficiente para acordar. Esfregou-se com vontade várias vezes, derramou sobre a cabeleira quase meio frasco do xampu. Enxugou-se com vagar, apertou o vestido sobre o rosto para melhor sentir o cheiro de novo e depois dedicou-se a vesti-lo, atenta ao toque suave do tecido sobre a pele.

Quando abriu a porta, observou com surpresa no rosto da anfitriã a mesma alegria que sentia em si. Sorriram. A mulher levou-a para a mesa e a fez sentar. Foi à cozinha e trouxe de lá salada e travessas fumegantes de arroz, feijão, peixe e batata. Havia uma jarra de suco de caju e uma garrafa de refrigerante sobre a toalha bordada.

Chica, mesmo radiante, não se deixava transbordar. Ouvia cada palavra, mas falava pouco. Nada lhe foi perguntado, apenas assuntos de fazer bem-estar. Juntava sobre a mesa os pedaços da conversa que a ajudavam a dar sentido aos acontecimentos. Ao fim, com a mesma delicadeza, a mulher levou-a a um quarto:

- Esta cama é para você passar a noite.

- Dormir, não! Dormir eu não vou não.

Quando deixou o apartamento, era uma mulher de fisionomia serena quem vencia a distância até o primeiro bar. Quando entrou, fez-se silêncio e, em seguida, jorraram os comentários:

- Olha só a Chica Cachaceira, toda perfumosa!

- O que te aconteceu, Chica? De quem você tomou essa roupa?

- Chica Cachaceira não, meu nome é Francisca!

Recusou a cachaça, mas aceitou um copo d’água. No bar seguinte, a mesma surpresa, o deboche igual. E, novamente, a correção:

- Chica Cachaceira não, meu nome é Francisca!

Os passos seguiram firmes até o último bar, todas as 14 estações.

- Meu nome é Francisca!

Ao final, já tarde da noite, ela deitou-se sobre o papelão e dormiu um sono bom, como há muito não acontecia.

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O dia já ia alto quando um frequentador do bar vizinho a chamou várias vezes, sem resposta. Francisca estava morta.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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