Por falta de assunto, andei ciscando no passado algumas lembranças. Histórias que enternecem meu coração e, por isso, boas de contar. A primeira memória que encontrei foi de um homem de meia idade, meia altura, magrinho e silencioso, barba rala sempre por fazer, cabelos secos e despenteados.

A calça de tergal cinza, velha e desbotada, era amarrada à cintura por um cordão sujo. Ele chegava sempre com seu cachorro, grande e dócil, em hora incerta do dia. Não trabalhava na fazenda, não se tinha notícia do que fazia fora, apenas chegava de repente. Dizia com sorriso tímido as formalidades de bom dia e boa tarde, e se retirava para seu aposento.

Dormiam, ele e o cachorro, num quartinho no paiol, que já era bem pequeno segundo minha avaliação de menino miúdo. A porta, trancada por uma corrente com cadeado, oferecia aos nossos olhos preciosa fresta. Por ela, podíamos ver a cama, o colchão de palha forrado por lençol e cobertor e uma mesinha, tudo envolto em penumbra e mistério.

Ele nada fez, nada disse, que merecesse registro. Sequer me lembro de seu nome. Mas a lembrança dele e de seu cachorro ainda fazem em mim um bem digno de nota. Experimento novamente o encantamento que sentia ao vê-los chegar. E isso é o suficiente contra o esquecimento.

Era assim: sentávamos nossos corpos miúdos em torno do fogão a lenha na cozinha da casa da fazenda, em Brumadinho, para ouvir de minha mãe e das tias casos acontecidos naquela mesma casa quando eram crianças.

Tomávamos café com leite e comíamos queijo derretido na chapa do fogão, uma alegria indomável em cada coraçãozinho, ávidos por saber dos detalhes das histórias – detalhes fundamentais para fazer decolar a imaginação!

Os dias eram modorrentos e longos para minha mãe Zezé e tia Lena, as únicas que tinham ficado na fazenda, ainda pequenas, enquanto as irmãs estudavam internas em Belo Horizonte. Certo dia de muito mormaço, os adultos entregues às suas tarefas, as crianças entediadas sem ter o que fazer, uma mulher gritou na entrada da casa.

Era Minervina e seus filhos Mario e Terezinha. Ele, seis anos, ela cinco. Viúva recente, corria a história de que matara o marido com vidro moído misturado na comida. Tinha um olhar carregado e as marcas que o álcool e a miséria deixam no corpo de quem por eles é seviciado diariamente.

Disse que queria dar os meninos porque não tinha recursos para cria-los. Meus avós se fecharam no quarto e saíram de lá com a decisão de que ficariam com os dois.

Mas - avisou meu avô à Minervina - se dentro de um ano ela não voltasse para pegá-los, jamais os teria de volta.

Foi uma alegria na casa. Terezinha, contava minha mãe, tinha o rosto comprido e era retraída. Mario era bem pretinho como a irmã, tinha olhos vivos e lindos, um sorriso cativante e adorava cantar. Era o preferido. Meu avô, que tinha especial compaixão pelos órfãos, ficava embevecido: “Afinadíssimo!”.

Os dois ganharam o que nunca tiveram: roupas, sapatos, objetos de higiene pessoal e brinquedos. A casa ficou cheia de crianças e da alegria delas. Uma metade porque ganhou companhia e vontade de brincar, a outra porque recebeu segurança e carinho.

Faltava apenas alguns dias para completar um ano quando se ouviu alguém chamando na entrada da casa. Foi um susto! O chamado vibrava o som da tragédia. E assim foi. Minervina disse que vinha pegar os filhos porque não conseguia viver sem eles. Meu avô procurou dissuadi-la, apresentou argumentos, tentou acordo, mas não a convenceu.

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As crianças choravam inconformadas. Pelas mãos de minha avó, Minervina recebeu Mario, Terezinha e a mala com os seus pertences. Eles se foram, as crianças chorando desconsoladas pela estrada. A casa mergulhada em luto e tristeza. Nunca mais tiveram notícia dos três.

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