Chico Mendonça
Chico Mendonça
Chico Mendonça é jornalista (formado pela PUCMG em 1981), consultor de comunicação e escritor. São de sua autoria os livros "As Horas Esquecidas" (finalista do Prêmio Jabuti de 2018, com várias crônicas e contos publicadas no portal UAI) e o romance "A Vi
CHICO MENDONÇA

Histórias de Chengdu

O homem pintava palavras no chão com um pincel embebido em água

Publicidade

Mais lidas

A cidade de Chengdu, terra natal dos pandas gigantes, é uma referência de políticas ambientais urbanas na China, tratada como modelo para outras cidades do país. Possui 1.500 parques e uma pessoa caminhando até 500 metros chega a um deles. O resultado é que a cultura e a arte brotam neles tão naturalmente como as plantas.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O ESTADO DE MINAS NO Google Discover Icon Google Discover SIGA O EM NO Google Discover Icon Google Discover

A Praça do Povo é bem central e um dos mais antigos. Caminhamos por lá, eu e Adriana, flagrando as pessoas em pleno exercício do domingo numa cidade que parece o quintal de cada uma delas, mesmo com 20 milhões de habitantes. Na casa de chá lotada, em meio ao movimento intenso de turistas, muitos chineses se entregavam às varinhas de profissionais especialistas na arte de limpar ouvidos. Por um precinho extra, garçons e garçonetes serviam a beberagem nas xícaras com movimentos de acrobacia. Brisa e alegrias passeavam sobre nossas cabeças.

Às margens do gramado, penduradas em armações de metal, os passantes podiam ler propostas de casamento em folhas de papel ofício. Estavam ali formalmente listados pelos pais os predicados do proponente: virtudes, idade, profissão, emprego, posses, expectativas e situação dos próprios, os futuros sogros.

Sim, a condição financeira dos pais interessa muito porque é responsabilidade dos filhos o bem-estar deles. Se têm um bom seguro previdenciário é, sem dúvida, uma boa notícia. O velho costume de morarem sob o mesmo teto que o filho casado, quando previdência não existia, vai se diluindo no passado, embora vivam próximos, preferencialmente "na distância de um prato de sopa".

(Vale aqui, por incontornável curiosidade, um breve parêntese sobre a lealdade filial, proposta pela rigorosa moral de Confúcio, professor e filósofo chinês que viveu nos anos de passagem do século VI para o V A.C., dono de um legado ainda hoje profundamente marcado tanto na cultura chinesa quanto na japonesa. Tal lealdade era, na verdade, um dever moral inalcançável, ilustrado em contos "pedagógicos", para incutir nas crianças uma devoção sem limites aos pais. Lu Xun, considerado o precursor da literatura moderna chinesa e crítico afiado dos costumes tradicionais, contava do terror que sentiu quando menino ao ler o livro presenteado pelo pai sobre a história de Guo Ju, um homem pobre que enterrou vivo o próprio filho para não faltar alimento à mãe. Temia ser ele também vítima da mesma estratégia. Troçava, ainda, da história de Lao Laizi, um septuagenário que se vestia de bebê e choramingava como um recém-nascido para divertir os pais. Confucio foi um craque em transformar virtudes em martírio. Do amor fez brotar a culpa).

Na vizinhança da casa de chá, assistimos ao tradicional show de máscaras: espantados estivemos nós e toda a plateia, mesmo já acostumada ao número, com a instantaneidade com que uma pintura de rosto sucede a anterior. Não dá tempo de uma piscada. Os atores passam a mão sobre o rosto quase na mesma velocidade com que espantariam uma mosca, e está feita a troca: o desenho que era azul e amarelo, agora é outro verde e preto. Dá vontade de esperar a próxima apresentação para descobrir o truque. Desconfio que alguns chineses façam isso todos os domingos, sem êxito, tal é a expressão de espanto nos rostos, sem exceção – única máscara que não muda ao longo da apresentação.

No cruzamento de dois caminhos, um homem molhava o pincel num balde e desenhava no chão caracteres chineses. Estou novamente espantado: a tinta que ele usava era água, e, sob o sol, sua arte evaporava com rapidez. Ele percebeu minha surpresa e abriu um sorriso acolhedor. Voltou ao balde e escreveu uma frase. Observou-me com o mesmo convite no olhar. Dessa vez sorri de volta, ao entender sua arte – uma ode ao princípio budista da impermanência.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

O artista se dedicava a lembrar às pessoas que a vida é um sopro, tão breve que vale não se atrasar nem se apressar, apenas seguir o fluxo. Como sugeria uma placa pendurada em uma cerejeira num parque de Tóquio: "Não balance a árvore". O espetáculo da sakura fubuki, a nevasca branca ou rosada de centenas de flores caindo ao mesmo tempo, não pode ser antecipado: só acontece no momento certo de maturação da planta e pela arte de uma rajada de vento. Cabe a nós o hanami – a contemplação das flores. E só!

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

Tópicos relacionados:

china confucio filosofia plantas

Acesse o Clube do Assinante

Clique aqui para finalizar a ativação.

Acesse sua conta

Se você já possui cadastro no Estado de Minas, informe e-mail/matrícula e senha. Se ainda não tem,

Informe seus dados para criar uma conta:

Digite seu e-mail da conta para enviarmos os passos para a recuperação de senha:

Faça a sua assinatura

Estado de Minas

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Aproveite o melhor do Estado de Minas: conteúdos exclusivos, colunistas renomados e muitos benefícios para você

Assine agora
overflay