Outro dia, um amigo me contou que tinha comido dois chocolates com queijo. Fiquei muito curiosa. Um branco e ao leite com queijo azul e o outro 40% cacau com queijo Canastra e doce de leite. Decidi comprar na hora para experimentar, só que eles estavam esgotados no site da marca. Antes que tivesse que lidar com essa frustração, descobri um ponto de venda em Belo Horizonte. E o mais incrível: é uma loja de chocolates com cacau de origem!


No dia seguinte, lá estava eu a caminho da loja. Não conseguia parar de pensar: como nunca tinha ouvido falar desse lugar? O meu destino era a Nahua, que fica “escondida” nos fundos de uma galeria na Savassi. Fui recebida pela Viviane Lopes, paulistana que mora em BH há 21 anos. Ela deixou a área financeira para empreender e dar visibilidade a chocolates brasileiros artesanais, que, infelizmente, não chegam às prateleiras dos supermercados.


Viviane sempre teve uma paixão por chocolate. Quando estava na faculdade, chegou a fazer ovos de Páscoa para vender, mas gostava mesmo era de comer. Em 2020, ela incluiu no roteiro de uma viagem em família para a Bahia uma visita a uma fazenda de cacau, a Yrerê, em Ilhéus. O que viu foi encantador e ficou marcado na sua memória. Eles plantam o fruto, selecionam as amêndoas e produzem o chocolate.


Quatro anos depois, já decidida a mudar de vida, a paulistana se lembrou da experiência na Bahia e não teve dúvida: abriu uma loja de chocolates. Mas não é qualquer chocolate, não. Lá não entram industrializados, com aquela extensa lista de ingredientes (alguns indecifráveis), que usam cacau de origem desconhecida, trocam manteiga de cacau por gordura hidrogenada, têm excesso de açúcar para padronizar o sabor. Ou seja, importa mais quantidade do que qualidade.


A curadoria da Nahua atravessa dois conceitos que só crescem no mundo dos chocolates: “bean to bar” (do grão à barra) e “tree to bar” (da árvore à barra). O primeiro se refere ao trabalho de quem compra o cacau para transformá-lo em produto, a exemplo da Cacau do Céu, fabricante dos tais chocolates com queijo, que tem um pé na Bahia e outro em Minas – o cacau é de Ilhéus e a fábrica fica em Santa Rita do Sapucaí. Já o segundo engloba quem cultiva o próprio cacau, como é o caso da Yrerê, que nunca falta na loja, justamente por ter inspirado o negócio.


Dos brancos aos intensos, passando pelos ao leite, com ou sem adição de outros ingredientes naturais que dão sabor, as prateleiras mostram que a produção brasileira é diversa e muito interessante.


Provei um branco de doce de leite que me impressionou. Você sente aquele sabor de leite caramelizado, característico do doce, e até esquece que o que está comendo é chocolate. Esse é da marca Jucolatte, de Cajamar, no interior de São Paulo, que leva outros sabores para a base de manteiga de cacau e açúcar, como milho, amora e baunilha. Estamos falando de um outro jeito de se relacionar com o chocolate branco. Menos doce, menos enjoativo e menos gordura persistente na boca.


Achei ótimo saber que a loja sempre oferece degustação, o que ajuda a definir o que comprar – é difícil sair de lá com as mãos abanando. Do branco, passei para o ao leite 40% com nibs e melado de cana e pulei para um 80% até chegar ao 100% cacau.


A barra de “cacau cerimonial” é da Usure, marca de uma comunidade de mulheres em Itacaré, no Sul da Bahia. O nome se refere à forma como elas sugerem consumir o produto, em um ritual que envolve silêncio, entrega e conexão com os sentidos. Você dilui na água quente, como se fosse um chá. Na loja, comi um pequeno pedaço da barra. É realmente uma experiência transcendental. Deixei o cacau derreter na língua, o que me fez perceber uma textura um pouco granulada e um sabor bem intenso.

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Não encontrei os chocolates com queijo (também estão esgotados na loja), mas descobri um destino certo para quem gosta de chocolate de (e com) verdade.

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