O nome já faz o indivíduo tremer nas bases. Assusta gregos e troianos. Digo a palavra no consultório e vejo a cadeira à minha frente ficar subitamente vazia, embora o paciente continue sentado nela. Entretanto, o câncer é hoje, em quase todas as suas formas, doença prevenível, tratável e curável — desde que diagnosticada a tempo e hora. O problema nunca foi a palavra. Foi o atraso.
Mas há um outro câncer, que não aparece em tomografia nenhuma, e que tenho visto corroer a sociedade de modo profundo e devastador. Também esse pode ser prevenido, tratado e curado, quando diagnosticado a tempo.
Vale lembrar o que é um tumor. Não é invasão, não é vírus nem bactéria chegando de fora com bandeira estrangeira. Passei a vida entre os invasores e os, “acho”, quase honestos: anunciam-se com febre, e a gente sabe de que lado está. O câncer é feito de nós. É a nossa própria célula que um dia deixa de obedecer à assembleia dos tecidos e resolve crescer por conta própria. Não há inimigo. Há deserção.
E há a angiogênese, a mais exata das metáforas políticas. Sozinho, o tumor morreria de fome; para crescer, precisa convencer o tecido vizinho — sadio, bem-comportado, de boa família — a construir para ele estradas e vasos. E o tecido constrói: fabrica artérias para alimentar aquilo que vai matá-lo. Nenhum tumor prospera sem colaboração.
Agora, o caso. Um banco oferecia papéis a 140% do CDI, garantidos pelo fundo que garante todos nós: rendimento de aventura, risco de caderneta, prejuízo de outro. E o prejuízo veio. As investigações descrevem carteiras de crédito inexistentes, empresas de fachada, bilhões em ativos fictícios vendidos a banco público. Liquidada a casa pelo Banco Central, o rombo passava de quarenta bilhões. Vorcaro foi preso em Guarulhos, a caminho de Dubai — cena tão novelesca que é a parte menos interessante da história.
A parte interessante são os vasos. Foi preciso que alguém, no Congresso, propusesse quadruplicar a garantia pública dos depósitos, na emenda que ficou com o nome do banco; que quem devia fiscalizar não fiscalizasse; que institutos de previdência de estados pobres comprassem papel podre com a aposentadoria do servidor do Amapá, do Rio. O tumor não conquistou a República: seduziu-a, vaso por vaso.
Maquiavel, homem sem ilusões e bom clínico, escreveu em “O príncipe” o que repito aos residentes: os males do Estado são como a tísica, "que no início é fácil de curar e difícil de diagnosticar, e, com o tempo, se torna fácil de diagnosticar e difícil de curar". Ele estava descrevendo o estadiamento de um problema clínico crítico e mais complexo ainda do ponto de vista político.
Seria cômodo encerrar com o vilão algemado. O banqueiro é a mutação; a doença é o tecido que o aceitou. Ninguém se corrompe de uma vez: não existe homem que acorde ímprobo numa terça-feira. Existe a anaplasia lenta, a célula que vai perdendo a forma e o ofício — um favor pequeno, uma carona de avião, a vaidade de ser chamado de "grande amigo de vida" por quem tem dinheiro demais. Cada passo é defensável. Só o conjunto é monstruoso.
Convém registrar, para efeito de anamnese, que boa parte dessa gente andava com a Bíblia debaixo do braço — e a levou na bagagem de mão, para conhecer as moças suíças, alegres, belas e festeiras, no que os autos um dia chamarão de "agenda institucional". Em Minas, se desconfia por ofício dessa gente: homem de muita reza e pouca conta é como goiaba bonita por fora — o bicho só aparece depois da primeira mordida.
Nietzsche avisou: "Quem luta com monstros deve cuidar para não se tornar um deles. E se olhares longamente para um abismo, o abismo também olhará para dentro de ti". O que não se diz o bastante é que o abismo é educado. Não grita nem cheira a enxofre: oferece assento, cafezinho e a sensação agradabilíssima de que você está apenas sendo prático.
Pior: a metástase alcançou a própria sucessão. Um dos candidatos mais bem colocados nas pesquisas aparece atolado na mesma lama, com o seu “Dark Horse” — um filme de dezenas de milhões que a Polícia Federal rastreia. Diz que é página virada. Ora, nódulo não é página: não se vira, se resseca. E tumor declarado curado sem laudo costuma voltar maior e pior.
Então, o que faz um médico? Rastreia — não porque espera o câncer, mas porque, no começo, ele não dói. A República tem seus exames: a imprensa livre, os tribunais de contas, a auditoria que ninguém convida para a festa. E quando um país passa a odiar os próprios exames — quando se persegue o jornalista que apurou, quando se muda a lei para que o achado não apareça no laudo —, não é um país inocente: é um paciente que recusa a biópsia. E o médico sabe o que isso costuma significar.
A profilaxia cabe na urna e tem data marcada. Vota-se como se faz uma biópsia: sem pressa, com a agulha no lugar certo, disposto a aceitar o resultado mesmo quando ele contraria a torcida. Ninguém escolhe patologista por carisma de palanque, e sim pela honestidade do laudo.
E fecho com o que a oncologia me ensinou e a política finge não saber: ninguém se cura sozinho. Existe a família que revezou as noites, a enfermeira que achou a veia difícil às três da manhã. A cura é obra coletiva — e é esse o tecido que a corrupção corrói primeiro, porque corromper-se é a decisão solitária de se salvar sozinho e votar sem perceber que está alimentando o tumor maligno.
Guimarães Rosa, mineiro que entendia de gente inacabada, escreveu que o mais bonito do mundo é que as pessoas ainda não foram terminadas. A frase sugere um bom prognóstico. O laudo já saiu; falta o tratamento, longo, e o seguimento — palavra clínica para não esquecer.
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Porque é assim que se perde um doente curável. Não na cirurgia. Na consulta a que não voltou e não votou.
