O prefeito que construiu 12 estradas para o mesmo lugar
No Brasil não falta estrada, falta mapa indicando qual caminho queremos seguir
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Na pequena cidade de Santa Aurora, um lugar pacato onde o tempo parecia andar mais devagar, o prefeito gostava de repetir que infraestrutura era o coração do desenvolvimento e, para provar isso, decidiu construir uma estrada nova. A população aplaudiu. Era uma estrada necessária.
Meses depois, ele inaugurou outra estrada, e mais outra, e outra, até que, ao final do mandato, Santa Aurora tinha doze estradas paralelas levando exatamente ao mesmo ponto. Todas funcionando, todas caras, todas feitas por equipes diferentes que não conversavam entre si. E o prefeito, satisfeito, dizia que estava investindo no futuro.
Você provavelmente está pensando:
- Meu Deus, que absurdo!! Que desperdício de recursos!!
Pois é, mas isso acontece todo dia no Brasil. Basta trocar o nome da cidade, que não existe, e as palavras estrada por sistema e infraestrutura por tecnologia, e você chega exatamente ao cenário descrito pelos pesquisadores Beatriz Vasconcelos, Diane Coyle e David Eaves em um Policy Report publicado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).
Segundo eles, governos precisam tratar a transformação digital como tratam a infraestrutura física. Sistemas de identificação, pagamentos, troca de dados e credenciais não são projetos isolados, mas plataformas que sustentam políticas públicas inteiras. Quando cada órgão constrói sua própria versão, o resultado é um labirinto de soluções que não conversam, desperdiçam dinheiro e reduzem a capacidade do Estado de agir de forma coordenada.
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O artigo destaca que essa fragmentação não é apenas um problema técnico. Ela nasce de incentivos institucionais que empurram ministérios a priorizar resultados rápidos, ainda que isso signifique criar mais uma estrada paralela. Como os benefícios da infraestrutura digital são difusos e se acumulam ao longo do tempo, eles raramente cabem em ciclos políticos curtos. Além disso, métodos tradicionais de avaliação de investimentos não capturam bem os efeitos de rede, a reutilização de componentes e o impacto sistêmico que plataformas digitais geram.
Os autores mostram ainda que países que avançaram nesse campo adotaram modelos de governança mais claros. Em alguns, um ministério atua como guardião da arquitetura digital, impedindo duplicações e exigindo padrões comuns. Em outros, assume o papel de coordenador, garantindo que diferentes órgãos usem componentes compartilhados. Há ainda casos em que o próprio ministério lidera a construção de plataformas centrais, como ocorreu no Camboja com a CamDX, que permitiu integrar serviços públicos antes dispersos.
O texto também lembra que a infraestrutura digital não é neutra. Ela molda a capacidade do Estado de responder a crises, de reduzir fraudes, de ampliar o acesso a serviços e até de estimular inovação no setor privado. Países que construíram sistemas integrados conseguiram, por exemplo, acelerar pagamentos emergenciais durante a pandemia, enquanto outros enfrentaram atrasos, inconsistências e custos elevados justamente por dependerem de sistemas fragmentados.
Com o avanço da inteligência artificial e a crescente demanda por serviços digitais, manter esse mosaico de soluções isoladas ficará cada vez mais caro e ineficiente. A mudança necessária exige tratar a infraestrutura digital como um ativo público: algo que precisa de governança clara, padrões comuns, financiamento estável e visão de longo prazo.
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A pergunta que fica é simples e incômoda: vamos continuar construindo estradas paralelas ou finalmente decidir qual é o caminho que o país precisa seguir?
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
