Einstein disse certa vez que uma mente que se abre a novas ideias jamais volta ao seu tamanho original. Apesar dessa sugestão, feita por um dos mais brilhantes pesquisadores que o mundo já viu, insistimos em manter os horizontes limitados pela nossa zona de conforto.
Para que pensar sobre mudanças climáticas, se estou bem do jeito que estou vivendo?
Para que pensar sobre novas tecnologias, se as que tenho em casa já satisfazem minhas necessidades mais sensíveis?
O problema é que pensamentos como esses acabam perpetuando um status quo que, se por um lado atende parte das minhas necessidades, por outro despreza e ignora tantas outras.
No artigo de hoje, quero apresentar uma nova tecnologia, a AuREUS, mas, mais do que isso, gostaria de utilizá-la para refletir sobre a maneira como nossa sociedade está adoecendo, fixada em formas de fazer que buscam preservar a zona de conforto em vez de buscar inovação, desenvolvimento e melhoria contínua.
A história da AuREUS nasce da inquietação de Carvey Ehren Maigue, um jovem estudante de engenharia das Filipinas que se recusou a aceitar os limites impostos pela tecnologia solar tradicional. Em vez de seguir o caminho mais óbvio, tentando apenas melhorar o que já existe, ele decidiu olhar para a natureza. Observou as auroras boreais e austrais e percebeu que elas transformam partículas de alta energia, como raios UV, em luz visível. Essa simples observação gerou em Maigue uma pergunta fundamental: e se pudéssemos fazer o mesmo com materiais acessíveis, sustentáveis e abundantes?
Maigue desenvolveu um sistema capaz de capturar radiação ultravioleta e convertê-la em eletricidade usando partículas luminescentes extraídas de resíduos agrícolas, como frutas e vegetais descartados. Essas partículas são suspensas em uma resina transparente que pode ser moldada em janelas, paredes ou superfícies diversas. Quando a luz UV atinge o material, ele a absorve e a reemite como luz visível, que é então capturada por células fotovoltaicas posicionadas nas bordas do painel.
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O resultado é um sistema que funciona mesmo sem luz solar direta, já que os raios UV atravessam nuvens e se espalham pelo ambiente, permitindo geração de energia em dias nublados, em áreas sombreadas e até em superfícies verticais. Essa característica rompe com a lógica tradicional da energia solar, que depende de posicionamento, ângulo e incidência direta de luz. A AuREUS, ao contrário, transforma a cidade inteira em potencial geradora de energia: janelas, fachadas, paradas de ônibus, passarelas, veículos e até roupas podem se tornar superfícies ativas.
A AuREUS não é apenas uma inovação energética, é também uma solução social e ambiental. Todos os anos, mais de 1,2 bilhão de toneladas de alimentos são desperdiçadas no mundo. A tecnologia de Maigue transforma esse problema em oportunidade: agricultores podem vender produtos que antes seriam descartados, criando uma nova fonte de renda e reduzindo perdas econômicas e ambientais.
Era inevitável que algo assim recebesse reconhecimento, e recebeu. A tecnologia ganhou o James Dyson Award de Sustentabilidade, um dos mais respeitados prêmios globais dedicados a inventores que usam engenharia e design para resolver problemas reais. Criado pela James Dyson Foundation, o prêmio busca identificar soluções que unam criatividade, viabilidade técnica, impacto social e, sobretudo, que desafiem a forma tradicional de pensar.
E é justamente esse desafio à forma tradicional de pensar que precisamos desenvolver. A tecnologia ensina muito mais do que o resultado que entrega. Ela ensina a importância de romper paradigmas, de olhar para a natureza como fonte de infinitas soluções, de buscar inovação a partir de problemas reais, daquilo que desperdiçamos, daquilo que sobra a uns e falta a outros. Ela demonstra a importância do pensamento sistêmico e integrativo. Lembra-nos de que inovação não nasce da repetição, mas da coragem de olhar para o mundo com olhos novos.
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Tecnologias como a AuREUS podem mudar completamente o nosso ambiente urbano. Se janelas e paredes podem gerar energia, prédios deixam de ser meros consumidores e passam a ser produtores. Cidades inteiras podem se transformar em fazendas solares verticais, reduzindo a dependência de grandes áreas para instalação de painéis tradicionais e gerando abundância daquilo que hoje é visto como o grande calcanhar de Aquiles da sustentabilidade. Mas ela só se tornou real porque alguém escolheu ousar.
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A tecnologia AuREUS é brilhante, mas sua maior contribuição é simbólica. E aqui voltamos ao ponto inicial: nossa sociedade adoece quando se apega demais ao conforto, quando acreditamos que está bom assim, quando deixamos de buscar o que poderia ser extraordinário.
