Em termos de faturamento, a Meta, de longe, é a maior vencedora do pleito. Facebook Serviços Online do Brasil faturou R$ 304,9 milhões e a Dlocal Brasil Instituição de Pagamento SA, plataforma contratada pelas Big Techs para as transações comerciais globais, captou R$ 102,5 milhões. Ocupam respectivamente a primeira e a segunda posição no ranking decrescente dos fornecedores e, juntas, somam, segundo dados disponibilizados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) nesta quinta, 22 de outubro, R$ 407,4 milhões, o equivalente a 8,3% dos R$ 4,93 bilhões das contratações a fornecedores nas campanhas eleitorais de 2026.
Politicamente, a Meta sai arranhada deste pleito, em mais um caso com potencial para engordar a lista global de escândalos envolvendo tentativas de interferência em eleições. O Conselho de Supervisão da Meta – órgão independente composto por especialistas que analisam as decisões da plataforma – divulgou comunicado com duras críticas às falhas de moderação e à falta de transparência da empresa nas eleições brasileiras. A manifestação enfraqueceu a narrativa da Meta perante o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de "isenção técnica" da empresa diante das denúncias de que seus algoritmos atuaram de forma assimétrica no pleito brasileiro.
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As plataformas de tecnologia estão ao centro do palco geopolítico global, com interesses comerciais e projeto político próprio (que não é democrático). Ingenuidade seria supor que não tentariam interferir em eleições de países democráticos: têm candidatos e posições de sua preferência em todas as disputas. Não faltam exemplos. É emblemático o escândalo Facebook/Cambridge Analytica, em 2016, na campanha do Reino Unido, em que o Brexit foi o resultado vencedor. A consultoria Cambridge Analytica coletou dados de milhões de usuários do Facebook, sem consentimento, para criar perfis psicográficos. Durante a campanha, os estrategistas apoiadores do Brexit promoveram o direcionamento microfocalizado de conteúdo com desinformação. Ao cabo da campanha, o Reino Unido aprovou em referendo popular a decisão histórica de encerrar seu pertencimento de 47 anos à União Europeia. As danosas consequências dessa decisão, que tinha por propósito enfraquecer o bloco europeu, são conhecidas. O impacto das barreiras e burocracia sobre o comércio internacional provocou o aumento do custo de vida e o fim da livre circulação de europeus, levou à escassez de mão de obra. As promessas do Brexit, que anunciavam economia de bilhões de libras para aplicação em saúde seguem não cumpridas. O arrependimento dá origem ao fenômeno "Bregret" (Brexit + regret), abraçado por mais da metade da população do Reino Unido. Nem toda mudança vem para o bem.
A partir do Brexit pipocaram mundo afora diversos escândalos envolvendo interferência das gigantes de tecnologia em eleições: em 2023, na Eslováquia, houve acusação de distribuição de desinformação via deepfakes; em 2024, no Paquistão, a denúncia de manipulação de bots e clonagem de voz; para não mencionar os disparos em massa de mensagens pelo WhatsApp de conteúdo com desinformação orgânica nas eleições brasileiras de 2018. Cada nação que se queira soberana, que encare o desafio do debate – o que não é simples pela própria natureza da centralidade da comunicação estar nas big techs – para a regulamentação dessas plataformas e, indo além, o próprio projeto de soberania digital. Fora disso, não haverá nação alguma.
Para além dos gravíssimos problemas gerados pela nova colonização do país, desta vez, digital, promovida pelas plataformas de tecnologia estrangeiras, grande parte da sociedade brasileira vive, neste momento, outro tipo de ansiedade. A pergunta que interessa neste exato momento: quem vencerá a eleição presidencial? Uma das dúvidas recorrentes: 2026 poderá repetir a eleição presidencial de 2014, em que Dilma Rousseff (PT) só virou a disputa em segundo turno contra Aécio Neves (PSDB) na reta final? São contextos comunicacionais distintos. Em 2014, a centralidade da comunicação estava em processo de transferência das plataformas tradicionais de mídia para as big techs, que ainda não haviam alcançado a hegemonia. Na medida em que esse processo se consolida, as dinâmicas de formação de opinião mundo afora, e no Brasil, tornam-se muito semelhantes: segmentos significativos do eleitorado cristalizam posições, a partir de interpretações dos fatos e das políticas públicas mediadas e marteladas por influenciadores políticos, alguns aderentes ao projeto global das Big Techs, de aniquilar estados nacionais. Tais influenciadores políticos se comunicam diretamente com amplos públicos, sem mediação, e sem compromisso com fatos e diagnósticos científicos das ações de governo. A versão é o novo fato. As críticas e enquadramento negativo são salientadas, sempre. Nesse contexto, não há política pública que baste.
Por tudo isso, os governos nacionais acumulam desgastes e avaliações negativas, com grande dificuldade para se conectar com o conjunto da sociedade, que vai perdendo a capacidade de se reconhecer em elementos de identidade nacional comuns. A esse processo de comunicação circular, que ecoa dentro de bolhas segmentadas, soma-se o mal-estar democrático do século. As frustrações e demandas por prosperidade e uma vida melhor – num mundo de relações de trabalho cada vez mais precárias – chegam aos governos com uma velocidade muito superior à capacidade das instituições democráticas de processá-las e responderem. O discurso antissistêmico, da mudança, tende a ter mais apelo.
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O comportamento do eleitorado brasileiro de 2026 não é o mesmo de 2014. Nem os exércitos digitais de Bolsonaro e de Lula, que se enfrentam pelas novas plataformas, são os mesmos. Apesar da cristalização e de as viradas serem mais difíceis, não são impossíveis. O cabo de guerra entre Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT) segue, sem trégua. E pesquisa após pesquisa, o quadro acirrado segue incerto: Flávio Bolsonaro numericamente favorito, mas crescendo em rejeição, com Lula em viés de crescimento encostado. Boa parte da definição dessa longa agonia se dará no debate da Globo, desta sexta-feira, 23. Haverá checagem de fatos em tempo real, mas de forma digital e paralela, de modo a não interromper transmissão na TV aberta. Eis uma resposta à expressiva mobilização da sociedade civil e das campanhas políticas por maior controle sobre afirmações inverídicas. Nas palavras de Nelson Mandela: "Tudo parece impossível até que seja feito."
