Bertha Maakaroun
Bertha Maakaroun
Jornalista, pesquisadora e doutora em Ciência Política
EM MINAS

O Brasil diante de uma encruzilhada existencial

As redes são, de longe, as principais vedetes das eleições. Para o bem e para o mal

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Em oito dias, o Brasil estará diante de uma encruzilhada existencial, conforme perspectiva adotada pela imprensa europeia para descrever a corrida presidencial deste segundo turno. Flávio Bolsonaro (PL-RJ) saiu com 1,87 ponto percentual de vantagem nas urnas de primeiro turno, a menor já registrada desde a redemocratização do país. Como esperado em dinâmicas eleitorais, na primeira semana após a votação de 4 de outubro, Flávio abriu frente: segundo o agregador de pesquisas da CNN, em 8 de outubro, o senador tinha, em média, 5 pontos percentuais a mais do que Lula. Mas nesta semana que se encerra a distância se encolheu para 1 ponto percentual: os dois em situação de empate técnico, numa disputa dramática, segundo o mesmo agregador das pesquisas de intenção de voto.

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Embalado pela euforia de sua campanha, Flávio Bolsonaro recolhia logo após o primeiro turno o apoio do PP de Ciro Nogueira (PI), do União Brasil, de Antonio Rueda (RJ), do Republicanos de Marcos Pereira (SP) e de um MDB rachado. Todos de olho em hipotéticos postos no futuro governo. Também declararam apoio à campanha de Flávio os candidatos à Presidência derrotados: o escritor Augusto Cury (Avante), Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo). A partilha de ministérios, da presidência da Câmara dos Deputados e do Senado Federal e de vagas do Supremo Tribunal Federal (STF) começou a ser discutida abertamente. O clima do “já ganhou” contaminou o “mercado”: dólar caiu, bolsas subiram.

Sem espaço para arrebanhar novos aliados entre partidos políticos, a campanha de Lula saiu, a princípio, às ruas, tracionada por uma movimentação espontânea de jovens fandoms. O engajamento encorpou rapidamente a base petista, lulista e antibolsonarista, que eclodiu em manifestações massivas nas principais capitais e cidades brasileiras. O combustível da mobilização: o temor da excessiva concentração de poder de Flávio Bolsonaro, caso eleito, com a maioria no Congresso Nacional para fazer mudanças constitucionais e também do Supremo Tribunal Federal (STF), com as futuras indicações e possível impeachment de Alexandre de Moraes tramado pelos novos eleitos do PL. A preocupação com tal concentração de poder foi explicitada por Renan Santos (Missão), único candidato à Presidência que não se posicionou no segundo turno: “Eu acho que, em termos de acúmulo de poder, o perigo do acúmulo do poder, do acúmulo específico, é maior com o Flávio (...) Porque, com o Lula, se ganhar a eleição, o Lula não tem poder para passar PEC, para passar nada”.

A campanha de Lula decidiu brigar também por espaço nas redes sociais. Por iniciativa do deputado federal mineiro reeleito, André Janones (Rede), uma militância digital se formou sob o título “Exército de Lula”. A ele se juntaram novas lideranças do PT como Ana Elisa e Pedro Rousseff, eleitos deputados federais por Minas. São 5,2 milhões de seguidores no perfil de Janones no Instagram, impulsionado depois que o canal do WhatsApp foi suspenso pelo presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Nunes Marques, antes de ser liberado novamente após o registro junto à Justiça Eleitoral. A campanha de Lula passou a engatinhar nas redes, sob o comando de Janones, onde a militância da direita bolsonarista já opera com indiscutível hegemonia.

Ainda nesta segunda semana após o primeiro turno, Lula retomou o comando da pauta da agenda positiva no Congresso Nacional. Em apoio costurado com o presidente da Câmara, Hugo Motta (PB-Republicanos), e do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), ambos com muito a perder caso Flávio Bolsonaro vença, foram aprovadas matérias importantes para o Palácio do Planalto. Além da Emenda Constitucional que pôs fim à escala de trabalho 6 por 1, que beneficia 14,8 milhões de trabalhadores CLT que atuam nessa escala, Lula lançou medidas para os Microempreendedores Individuais (MEI), que representam público de 17,6 milhões de cadastrados, entre os quais, 7,8 milhões são mulheres.

Numa sociedade em que o ecossistema comunicacional é regido por algoritmos de Big Techs, que são plataformas de tecnologia que têm o seu próprio projeto político para o planeta, nada garante que tais medidas positivas aprovadas se converterão em votos ao candidato que tenta, como é o caso de Lula, acompanhar a União Europeia e articular algum precário nível de regulamentação das gigantes de tecnologia. Contudo, a agenda positiva, a depender de quem vença a narrativa comunicacional das redes, poderá ser preditora de algum impulso adicional a Lula.

Nada que possa sugerir alguma folga, na presente onda de vitórias eleitorais de políticos da direita na América Latina. São governantes que compartilham muitas características, entre as quais, usam as redes sociais com tanta eficiência, que alcançam impulsionamentos questionados por pesquisadores e estudiosos: seriam beneficiados pelos algoritmos? São aderentes ao projeto das Big Techs de desregulação extrema de sua operação nos territórios nacionais, além da máxima da soberania do mercado sobre o estado.

As redes são, de longe, as principais vedetes das eleições. Para o bem e para o mal. A manipulação de dados em processos eleitorais por grandes plataformas de tecnologia e empresas de análise comportamental é amplamente conhecida mundo afora. Para além do Brexit, são entre 30 e 60 pleitos impactados diretamente por modelos de negócios baseados em mineração de dados sem consentimento e vigilância comportamental, entre os quais estão escândalos institucionais de grande porte que redefiniram as legislações de proteção de dados, como o GDPR na Europa e a LGPD no Brasil e o direito eleitoral digital no mundo.

E é com denúncias envolvendo a Meta, que detém o monopólio da propaganda eleitoral nesta eleição de 2026, que se encerram os principais atos desta segunda semana após o primeiro turno da sucessão presidencial. Segundo reportagem da Folha de S. Paulo, funcionários da empresa admitem restrições que prejudicaram as contas de Lula no Instagram, além de recomendação algorítmica do perfil de Flávio Bolsonaro na plataforma e no canal do candidato no WhatsApp, prática vedada pelo TSE. Ao ser reportado a situação à Meta, a empresa informou um "problema técnico" no gerenciador de anúncios. Problemas técnicos não são incomuns, quando atingem por igual todas as candidaturas. Nem sempre é o caso.

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O pleito que se avizinha no próximo 25 de outubro apresenta ao eleitor brasileiro dois candidatos que já não empolgam, mas representam para o país duas direções distintas, um dilema existencial. Em momentos de fadiga institucional, cansaço com lideranças políticas, as sociedades tomadas pela urgência de mudar se arriscam a entregar conquistas sociais e democráticas para abraçar ilusões, que podem se converter em pesadelos piores do que a crise que pretendem combater. Esta será uma eleição que testará não apenas a eficiência e força das Big Techs, mas também a maturidade de uma nação em discernir o caminho do equilíbrio.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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