Ao lançar ao governo de Minas Flávio Roscoe (PL), presidente licenciado da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), o candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) marcou o ponto final no disse-não-disse de uma maratona de articulações malsucedidas dos últimos 15 dias. Flávio Roscoe sempre foi a opção primeira de Flávio Bolsonaro, na hipótese de o senador Cleitinho (Republicanos) não concorrer. A decisão por Roscoe estava tomada desde terça-feira, 4 de agosto. Foram gravados vídeos apresentando a candidatura dele para as bancadas federal e estadual da legenda e para as redes sociais.


A pedido do deputado federal Domingos Sávio (PL), candidato ao Senado, os liberais acompanharam, por mais um dia, o embate entre a direção nacional do Republicanos com o senador Cleitinho. Depois de o partido negar a legenda à chapa Cleitinho e Luís Eduardo Falcão, ambos ainda trabalham para tentar reverter o quadro, levantando a hipótese inclusive de judicialização. Mas o mundo político já não compra a aposta. Em ligação a Marcos Pereira, presidente nacional do Republicanos, o senador Rogério Marinho (PL-RN) ouviu dele que o partido já se decidiu em relação a Cleitinho.


O PL resolveu não esperar mais. Contudo, antes que os vídeos confirmando Flávio Roscoe fossem distribuídos, o ainda candidato ao governo Marcelo Aro (PP) tentou interferir. Alertava alguns parlamentares do PL que com a candidatura de Flávio Roscoe a legenda ficaria “isolada” em Minas, porque a Federação União Progressista e o Republicanos haviam selado o compromisso em torno de sua própria candidatura.


O PL ignorou os “alertas” e seguiu com o seu projeto: Roscoe é o candidato. Jogou, assim, água fria sobre a articulação de Aro, que tentou convergir PL, Republicanos e a Federação União PP em torno de seu nome ao governo de Minas. Para construir o seu projeto, Aro desembarcou do governo Mateus Simões (PSD) na quinta-feira, 30 de julho, depois de ocupar cargos centrais no governo Romeu Zema (Novo), entre eles a Secretaria de Estado de Governo, com execução orçamentária de R$ 2 bilhões em emendas aos municípios. Em ruidosa ruptura, que no primeiro momento arrastou para fora da coligação de Mateus o União, o PP e o Podemos, Mateus Simões chamou Aro de “traidor”.


Após a confirmação da candidatura de Flávio Roscoe, Republicanos e a Federação União PP repensam os seus rumos. A federação retornou à aliança com Mateus Simões e indicou Danilo de Castro (União) para vice. A candidatura de Aro ao Senado será avulsa. Ele retornou ao ponto de partida, antes de romper com o governo, por não suportar na mesma chapa a presença do senador Carlos Viana (PSD), candidato à reeleição, também em candidatura avulsa. A diferença é que retorna após o naufrágio de seu projeto pessoal.


Já o Republicanos, até o fechamento desta coluna, ensaiava um novo cavalo de pau: Euclydes Pettersen, presidente estadual da legenda, estudava registrar a candidatura de Cleitinho, em enfrentamento à Executiva Nacional.


Nem só de indefinições viveu a véspera da data limite para a formulação das atas das convenções partidárias. O MDB de Gabriel Azevedo apresentou a candidata a vice, a vereadora de Montes Claros Maria Helena de Quadros Lopes (MDB). O PDT de Alexandre Kalil firmou aliança com o PSDB e confirmou na vice o ex-deputado estadual Carlos Mosconi. A Federação PT, PV e PCdoB de Patrus Ananias havia acertado aliança com a Federação Psol-Rede, com a indicação de Áurea Carolina para a segunda vaga do Senado da chapa. A primeira é da ex-prefeita de Contagem Marília Campos. Já o PSB teve um dia de intensas articulações, com o PDT, o MDB e a Federação PT, PV e PCdoB. O ex-procurador-geral de Justiça Jarbas Soares (PSB) quer concorrer ao Senado Federal.


Em turbilhão de eventos que transformam essa pré-campanha mineira talvez na mais conturbada do período pós-redemocratização, nada a estranhar se até de 15 de agosto, data limite dos registros de candidaturas, novas reviravoltas sacudirem a arena, deixando um novo rastro de corpos pelo chão da disputa. Peculiaridades deste momento à parte, os atores sabem que tais definições são das mais relevantes da guerra em campo aberto, que se seguirá até 4 de outubro.


Ninguém melhor do que Antonio Gramsci definiu os jogos de alianças que antecedem o confronto direto. Preso em novembro de 1926, apesar de sua imunidade parlamentar como deputado e líder do Partido Comunista da Itália, dois anos depois, durante o seu julgamento pelo Tribunal Especial para a Defesa do Estado, o promotor fascista Michele Isgrò vaticinou: “Devemos impedir este cérebro de funcionar por 20 anos”.


Encarcerado, tal cérebro deixou o legado de “Cadernos do Cárcere”, uma das mais fascinantes obras da sociologia. Com a palavra, Antonio Gramsci: “A guerra de posição precede a guerra de movimento: na política moderna, o cerco recíproco e a conquista do terreno das alianças decidem o confronto antes do choque direto”. Bastante ruidosa, tal é a fase da amarração de apoios da sucessão mineira.

 

Prazos

No estrito rigor da legislação eleitoral, partidos políticos têm até as 19h de 5 de agosto para firmar as atas das convenções, que devem ser registradas na Justiça Eleitoral até esta quinta-feira, 6. Mas, tem sido estratagema usual, a delegação às presidências partidárias para que complementem as definições até o dia 15 de agosto, data final para o registro das candidaturas.


Fé e política

A deputada estadual Ana Paula Siqueira (PT), que integra a Doutrina Social da Igreja, vai realizar nesta quinta-feira (06/08), o espaço de diálogo Solta a Voz – Fé e Política, para debate da conjuntura política nacional e estadual. Serão nivelados os compromissos com a cidadania esperados de futuros governos.

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