O governo Lula 3 amarga o mal das democracias, que ainda sobrevivem à era da tecnopolítica. Com a centralidade das comunicações transferida das mídias profissionais para as digitais, controladas por algoritmos, políticos alteram comportamento face à nova dinâmica do debate público. Vitórias eleitorais são apertadas, governos eleitos enfrentam barreiras para ampliar a popularidade. A combinação de baixo desemprego, inflação sob controle e crescimento real do rendimento das famílias já não são suficientes para expandir o respaldo popular de governos nacionais. Tampouco bastam benefícios como a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda, programas de renegociação de dívidas, de crédito, entre outros tantos programas sociais. Tudo lançado em balaio único, a avaliação do governo Lula abre 2026 com a aprovação de apenas metade da população.


Ao mesmo tempo, o recente escândalo que expôs áudios enviados pelo senador Flávio Bolsonaro (PL) ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, vilão do Master que responde pela maior fraude ao sistema bancário da história do Brasil, abalou o desempenho eleitoral do senador, mas não o suficiente para retirar-lhe o protagonismo de seu campo político. Além disso, não melhorou o desempenho de Lula. Principalmente os eleitores independentes – que não se veem nem como lulista nem como bolsonarista e decidem as eleições – têm se mostrado impacientes com qualquer variação pontual de preços, escândalos ou más notícias que circulam no debate público das redes. Punem os agentes com a mudança de posição política.


Em análise de dados que acompanhou 25 anos – entre 2001 e 2026 – da popularidade presidencial em perspectiva comparada com o histórico de inflação (IPCA) e do desemprego do período, o cientista político Fábio Vasconcellos conclui: “A era dos presidentes blindados chegou ao fim”. Fábio Vasconcellos é professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), PUC Rio e pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) no campo da representação e legitimidade democrática (Redem). Segundo ele, a partir de 2015, o “piso” histórico de aprovação dos governos brasileiros desabou e não se recuperou mais. “Independentemente de a economia ir bem ou mal, o apoio básico a quem ocupa o Palácio do Planalto encolheu, a partir de 2015, em média cerca de 21 pontos percentuais em relação a 2001-2014. Essa fratura estrutural inaugurou um período em que o eleitor se tornou hiper-reativo sobretudo ao custo de vida”, afirma ele, a partir dos dados econômicos que analisou.


Até 2014, a sociedade brasileira vivenciou um relacionamento estável com os governos federais em que as oscilações na inflação ou no mercado de trabalho não derrubavam a popularidade dos governos, avalia Fábio Vasconcellos. A aprovação média no período foi em torno de 60%. Lula 1 se iniciou com aprovação de 80%, no auge do Mensalão atingiu o nível mais baixo, de 46,7%. Encerrou Lula 2 com 87%. Da mesma forma, Dilma 1 se iniciou com aprovação superior a 70% e após as jornadas de junho de 2013 – que muito se assemelham com as revoluções coloridas organizadas mundo afora pelas mídias digitais – encerrou aquele ano com 58,8%.


Mas, ao mesmo tempo em que a dinâmica das mídias digitais se consolidavam na vida política brasileira, o ano de 2015, que antecedeu o impeachment, consolida a mudança no contrato social e a regra do jogo, afirma Fábio Vasconcellos. Dilma fechou 2015 com 19% de aprovação e Michel Temer (MDB) concluiu o mandato com 7% de apoio popular. Crise econômica e a crise política se abraçaram. “O brasileiro passou a vigiar a economia de forma punitiva. Neste novo cenário, os papéis se separaram: enquanto a geração de vagas de emprego continuou sem força para alavancar presidentes, o controle de preços assumiu o protagonismo isolado como gatilho de insatisfação”, diz ele, considerando que a “punição” do eleitor passou a ocorrer no curtíssimo prazo. “A partir de 2015, a cada 1% de inflação acumulada em um bimestre reduziu em cerca de 3,6 pontos percentuais a popularidade do presidente em exercício”, disse.


O governo Lula 3 vive um paradoxo e a nova matemática política pós-2015 ajuda a decifrá-lo, assinala Fábio Vasconcelos. Apesar de apresentar as menores taxas de desemprego da história recente e o maior rendimento médio, a sua aprovação não decola. “É como se a manutenção do emprego fosse vista atualmente quase como uma obrigação dos governos, não como motivo para aplausos, sobretudo se a renda gerada é corroída por preços altos”, avalia. Nesse sentido, a inflação carrega a âncora mais pesada da aprovação-reprovação de governos, com o eleitor punindo severa e imediatamente face às variações.


O mundo democrático vive a transição do poder de indicadores econômicos clássicos sobre a decisão de voto para a nova métrica algorítmica, que, no campo das percepções, impulsiona enquadramentos, leituras e ressignifica fatos. Nas palavras de Yanis Varoufakis, entramos na era dos “tecnolordes” (ou dos donos das plataformas que regem os algoritmos): " Os indicadores macroeconômicos tradicionais, como o PIB ou o emprego, tornaram-se métricas fantasmas: eles podem simular a saúde de uma nação, mas já não medem onde o poder real reside. O poder soberano mudou de mãos; ele não pertence mais aos parlamentos ou aos bancos centrais, mas aos proprietários das Big Techs”. É assim que os novos governos democráticos precisam gerenciar as variáveis da economia clássica como condição mínima para permanecer no jogo. Mas para alcançar popularidade e estabilidade política, dependem de uma infraestrutura privada que não controlam, não obstante o seu potencial de influenciar a opinião pública e dissolver a autoridade do estado esteja ao alcance de algumas linhas de um código de distribuição de conteúdo.

 


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