Caso Isabelle Caracristi: o ciclo da violência
O desejo que o poder público promova mais ações para interromper essa onde absurda de violência contra a mulher
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SIGA NOEra domingo à tarde, quando abri o Instagram e me deparei com uma mãe querendo saber o que tinha acontecido com sua filha. Isabelle Caracristi estava morta. A mãe não fazia ideia do que havia ocorrido, ela queria saber. Isabelle faleceu no último dia 13 de setembro, após cair do 23º andar do condomínio onde morava com João Munhoz Neto.
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O vídeo de Isorlanda Caracristi repercutiu. O caso saiu da obscuridade e o Brasil todo também quer saber o que houve com a jovem de 22 anos e porque o namorado, bem mais velho do que ela, não avisou a família, e pior, bloqueou os familiares da estudante de direito dos aplicativos de mensagens e das redes sociais, quando o esperado era que ele desse a notícia.
O comportamento de João Munhoz Neto após a morte de Isabelle passou a ser um dos principais pontos de questionamento por parte da família e do Brasil. Esperava-se que ele entrasse em contato com a família dela para comunicar o ocorrido, esperava-se que ele e a família dele fossem ao velório e ao enterro. Ninguém foi. Adotaram uma postura de total distanciamento. A total ausência de condolências, apoio ou presença nos momentos de luto da jovem com quem ele dividia um apartamento há poucos meses causou profunda estranheza e indignação entre amigos e parentes, com toda a razão.
João agora está preso, graças à instigação ou auxílio ao suicídio e ameaça. Segundo as apurações, o suspeito teria tentado impedir a entrada da família da vítima no prédio, ordenado que uma diarista limpasse o apartamento no dia seguinte, e pedido ajuda para procurar o celular de Isabelle no lixo. Ele também colocou o apartamento à venda.
As investigações da Polícia Civil do Ceará detalham que Isabelle foi submetida a um cárcere comportamental provocado por João Munhoz Neto. Entre os abusos identificados, destaca-se o isolamento social e geográfico, uma tática clássica de controle em que a vítima é gradativamente afastada de sua rede de apoio, família e amigos. Relatos apontam que a jovem era monitorada a ponto de não poder ir sozinha a uma farmácia ou descer do escritório onde trabalhava.
Somam-se a isso a exploração emocional e financeira, o cerceamento da liberdade por meio de ciúmes patológicos e a violência psicológica explícita. O ápice do desespero da estudante foi revelado em um áudio de 16 minutos enviado a um familiar poucas horas antes de morrer, no qual ela relatava ameaças e previa o próprio fim, responsabilizando o parceiro caso algo lhe acontecesse.
De acordo com uma pesquisa nacional dos institutos Patrícia Galvão e Locomotiva, 54% das mulheres brasileiras (cerca de 47,7 milhões) afirmam já ter sofrido algum tipo de violência doméstica. A violência psicológica é a mais frequente, atingindo 42% de todas as entrevistadas — superando a violência física (25%).
Os dados mais recentes do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) revelam que o Brasil atinge recordes sucessivos de feminicídios (com quase 1.500 casos registrados anualmente). Desses crimes, 80% são cometidos por parceiros ou ex-parceiros íntimos.
Estima-se que para cada cinco mulheres em relacionamentos abusivos, uma tenta o suicídio. Dados históricos do Ministério da Saúde no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) mostram que as mulheres representam cerca de 67% de todas as notificações de violência autoprovocada (tentativas e ideações) no país, e a violência de gênero é descrita pelo Centro de Valorização da Vida (CVV) como um dos principais fatores de risco isolados.
A dinâmica do "Ciclo da Violência" é a mesma de centenas de feminicídios registrados anualmente. Casos emblemáticos como os de Sandra Gomide, Eliza Samudio ou Tatiane Spitzner, mostram que há muitos sinais antes da tragédia. A história se repete porque o agressor costuma seguir o mesmo roteiro: a sedução inicial, o início do controle disfarçado de proteção, as crises de ciúmes, as ameaças verbais, o bloqueio de canais de comunicação. A violência psicológica consome a autonomia da vítima, minando sua capacidade de reação e aprisionando-a em uma armadilha emocional da qual muitas vezes só se sai por meio de intervenção externa.
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Desejo que esse caso seja esclarecido e que a justiça seja feita. Também desejo que o poder público promova mais ações para interromper essa onde absurda de violência contra a mulher. Na hora de votar, vamos buscar candidatas que defendem os direitos das mulheres. O combate à violência psicológica e aos relacionamentos abusivos exige que os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário atuem de forma coordenada para criar leis mais rígidas, garantir recursos e fiscalizar as políticas já existentes.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.