DARVO: negar, atacar e inverter os papéis de vítima e agressor
Com o tempo, para evitar o desgaste de ter sua dor rebatida e transformada em culpa, a pessoa prefere engolir o desaforo
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SIGA NODARVO é o acrônimo em inglês para negar, atacar e inverter os papéis de vítima e agressor que operam no cotidiano dos afetos, e podem estar presentes dentro de casa ou mesmo em conversas de whatsapp. Identificado pela psicóloga Jennifer Freyd em 1997, o padrão costumava ser estudado a partir de grandes traumas institucionais ou abusos graves, mas ele está em pequenos detalhes dos relacionamentos amorosos, familiares e de amizade. É o parceiro que trai e culpa o outro por desconfiança, é o amigo tóxico que ofende e depois acusa você de ser sensível demais, ou mesmo o parente que manipula fatos até fazer você duvidar da própria sanidade.
Quando cobramos responsabilidade afetiva de alguém acostumado a controlar a narrativa, o DARVO entra em campo em três atos, começando pela negação (deny). Você confronta uma atitude egoísta, uma mentira boba ou um comportamento desrespeitoso, e a resposta imediata é um "eu nunca disse isso", "você está louco" ou "isso nunca aconteceu".
A negação é uma recusa agressiva em validar a sua percepção da realidade. Depois vem o ataque (attack). A negação, às vezes, deixa pontas soltas, então o agressor desvia o foco do próprio erro e fala contra sua integridade. "Você é obsessiva", "você implica com tudo", "sua família te deixou assim" ou "você está inventando coisa porque gosta de brigar". Isso faz com que você baixe a guarda para se defender das acusações sobre o seu gênio, esquecendo completamente o motivo original da discussão.
O desfecho é a inversão (reverse victim and offender). Em questão de minutos, a pessoa que cometeu a falha assume a postura de quem está sofrendo um calvário. Ela suspira fundo, cruza os braços, faz cara de mártir ferido e diz que não aguenta mais ser pisada, que você é uma pessoa difícil de conviver e que está destruindo a relação com esse tipo de cobrança. O agressor chora ou se faz de coitado, enquanto você, que começou a conversa buscando um pedido de desculpas, termina pedindo perdão por ter mencionado o assunto.
Viver sob a dinâmica do DARVO cotidianamente gera graves problemas de saúde mental. A vítima constante desse ciclo desenvolve um estado crônico de exaustão psíquica. Você passa a medir cada palavra, a calcular o tom de voz, a duvidar de memórias recentes e a fotografar mentalmente situações para ter "provas" de que não está enlouquecendo. É o famoso “gaslighting” em sua forma mais refinada.
O resultado dessa manipulação é o silenciamento. Com o tempo, para evitar o desgaste de ter sua dor rebatida e transformada em culpa, a pessoa prefere engolir o desaforo. O afeto passa a ser administrado pelo medo do conflito. A casa deixa de ser um porto seguro e vira um campo minado, no qual o vencedor é sempre quem grita mais alto ou chora de forma mais convincente para inverter os papéis.
O primeiro passo para neutralizar esse tipo de violência é nomear. Quando perceber que o outro está mudando o foco da conversa para atacar você, recuse-se a entrar no mérito das acusações secundárias. Não tente provar que você não é histérica, que não é chata ou que não está surtando; repita, com serenidade, o fato original: "Estamos nos desviando do assunto. O que me machucou foi o que você fez ontem às dez da noite".
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Se o agressor não quiser negociar a verdade, é necessário entender que não há diálogo possível com quem transforma a própria culpa em arma contra você. Sair de perto, encerrar a discussão e validar a própria intuição são fundamentais para a saúde emocional. A vida em comum não é um teatro, onde um atua o tempo todo para que o outro carregue a cruz da culpa sozinho. Talvez você não consiga sair disso sozinha: busque ajuda, faça terapia. Você não é obrigada a ficar onde você não cabe.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
