Estava eu inocentemente em uma chamada de vídeo com a minha mãe quando ela comenta de uma série da Netflix que está assistindo com meu pai. Disse que estava achando o protagonista parecido com o meu filho, porque ele tem olhinhos um pouco puxados, a boca desenhada. De curiosidade, fui procurar a tal série para ver a cara do tal protagonista. Nem sei se achei parecido com meu filho, mas não consegui parar de assistir ao dorama, ou Kdrama chinês, que se chama “Por você” em português.
Ambientada em uma China histórica de visual deslumbrante, a série nos apresenta a Fan Changyu (Tian Xi Wei), a filha de um açougueiro que se vê forçada a assumir as rédeas do destino da família após uma tragédia. Do outro lado, temos Xie Zheng (Zhang Linghe), um marquês que carrega o peso de um passado massacrado e uma sede por justiça.
O que começa como um clássico "casamento de conveniência", logo se transforma em um campo de batalha emocional. Na série, o amor é uma construção lenta, moldada pela necessidade de sobrevivência e pela confiança conquistada dia após dia. Sem urgência.
Com 40 episódios, "Por Você" exige fôlego, mas recompensa o espectador com uma fotografia impecável e uma química entre o elenco principal que justifica cada minuto de tela. A obra é baseada em um livro, e a adaptação consegue manter o coração da história batendo forte.
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Para quem sabe dar valor a uma boa história de família, honra e resiliência, a série é um prato cheio. É um convite para desacelerar o ritmo frenético do dia a dia e se perder em uma trama onde o tempo corre de um jeito diferente, onde um olhar ou um silêncio valem tanto quanto uma declaração de guerra. Acho que esse é o segredo do sucesso - o tempo transcorrendo em um ritmo que já não conhecemos, vivendo no ritmo frenético dos anos 2020.
O que me prendeu, além da fotografia, foi a protagonista, que sabe lutar e derrubar muitos marmanjos como ninguém. Ela é sagaz, engraçada, leal e autêntica. E, embora tenha muitas cenas de violência, luta, sangue, guerras, o filme também tem muita delicadeza. Homens chorando, falando sobre suas dores, cuidando e sendo gentis.
É raro ver homens que não têm vergonha de demonstrar afeto, sensibilidade, cuidado. Homens sendo carinhosos sem conotação sexual, e, ao mesmo tempo, sendo fortes, viris e impiedosos quando enfrentam seus inimigos. Fan Changyu e Xie Zheng têm uma química muito boa, mas que fica muito nas trocas de olhares. São poucas as cenas de beijos entre eles, mas é gostoso acompanhar a relação de cumplicidade, de apoio mútuo, e equidade. Isso é romance!
Mas nem tudo são flores. Na série, tem o núcleo dos vilões, e, como bons vilões, eles tratam as mulheres com desprezo, tomando-as como objetos, tal como a “machosfera” com a qual estamos acostumadas a lidar. Daquele tipo que não se importa em matar o próprio filho para conseguir alcançar seus objetivos.
O interessante disso é ver como as mulheres querem ser tratadas, e como alguns homens acham que devem tratá-las - a diferença entre amor e paixão, entre posse e parceria. Preciso dizer que tem atores lindos e atrizes que parecem bonecas de porcelana.
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Minha mãe me fez cair nessa armadilha e eu adorei. Prepare a pipoca (ou o pão de queijo) e reserve um espaço no seu coração para Xie Zheng e Fan Changyu. A Netflix acertou em cheio ao trazer essa joia lapidada para o nosso cotidiano. São 40 episódios longos, tempo suficiente para descansar a cabeça da rotina e sair da realidade indo parar na China histórica.
