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A memória de Marcel Proust (1871-1922) foi intensamente celebrada nos anos em torno a 2022, centenário de sua morte. Em 2021, comemorara-se o sesquicentenário de seu nascimento. A bibliografia sobre sua vida e sua obra, já extensa, atingiu naquele período um patamar incontrolável.
Há muita satisfação em ver um autor predileto estudado, comentado exaustivamente. Mesmo os proustianos mais perseverantes, porém, nos vemos hoje diante da impossibilidade de ler tudo o que repousa nesse altar. E para quem está se decidindo a mergulhar em “À procura do tempo perdido”, existe o risco de ceder à tentação de ler sobre o romance, em vez de ler o romance.
No oceano bibliográfico, dois livros publicados em 2022, ambos pela editora Gallimard, merecem menção especial, pela qualidade e o elo com o Brasil.
Comecemos pelo volume coletivo “Proust-Monde: Quand les écrivains étrangers lisent Proust”. Um de seus organizadores é o suíço-brasileiro Étienne Sauthier, especialista da difusão e da recepção de Proust no Brasil. Trata-se de uma coleção de textos em que escritores e tradutores de diversas nacionalidades relatam suas percepções diante da obra do autor francês.
Segundo a prefaciadora, Blanche Cerquiglini, responsável pela coleção Folio Classique, selo pelo qual o livro foi lançado, a antologia desvenda que “outros que nós, apartados pelo tempo e a distância, nos entendem tão bem quanto nós mesmos”.
Comentários de alguns autores brasileiros são incluídos, inclusive um artigo de 1983 de Antonio Candido, traduzido para o francês pelo professor Fillipe Mauro, que nos explica as idas e vindas do crítico em relação a Proust.
Entre os tradutores, há textos de Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Mário Quintana, três dos responsáveis pela primeira tradução brasileira, editada de 1948 a 1957. Há uma entrevista com Rosa Freire d'´Aguiar, que trabalha, juntamente com Mario Sergio Conti, em uma nova tradução, a terceira, da qual os dois primeiros tomos já foram publicados pela Companhia das Letras.
Em tributo aos novos tradutores, emprego, como eles, o título “À procura do tempo perdido”, em vez da versão anterior, “Em busca do tempo perdido”.
Em seus artigos, Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira, respectivamente em 1925 e 1930, admitem que sua primeira leitura de Proust não os entusiasmou. Étienne Sauthier menciona a ironia de que, duas décadas depois, ambos viessem a se tornar tradutores da obra.
A entrevista da consagrada autora e tradutora Rosa Freire d'Aguiar, realizada especificamente para os organizadores de “Proust-Monde”, revela não somente o que significa para ela lidar com Proust, mas como encara o ofício de traduzir.
No Instituto Rio Branco, somos ensinados a evitar adjetivos, para não perder a objetividade analítica. Mas a palavra que me ocorre, em relação ao texto de Rosa Freire d'Aguiar, é “brilhante”. Pinço algumas frases: “As obras não envelhecem, as traduções sim. Traduzimos com palavras de nossa época. E a língua evolui, termos se tornam obsoletos. Uma nova tradução é uma nova leitura”. Por isso, “retraduzir os clássicos é conceder-lhes permanência”. Comenta, deliciosamente, que, em um trecho, optou pela palavra “ensopado”, em vez de “gororoba”, porque esta última, de sabor muito brasileiro, deslocaria culturalmente a atmosfera da página proustiana.
Rosa Freire d'Aguiar sugere que o personagem mais difícil para o tradutor é Françoise — a cozinheira da família do Narrador. Corre-se o risco de transformar suas falas em um pastiche, de fazer dela uma caricatura. A última pessoa a trabalhar na casa de Proust, Céleste Albaret, foi a destinatária das palavras finais, três frases curtas, que ele escreveu, acamado, enfraquecido, horas antes de morrer.
Cinquenta anos depois, Céleste Albaret publicaria as suas memórias e incluiria no volume uma foto do derradeiro bilhete. Descubro, para minha surpresa, que esse pequeno papel, hoje, mora no Brasil. Integra a coleção de Pedro Corrêa do Lago, como ele menciona em seu livro “Marcel Proust: Une vie de lettres et d'Images”.
Perdi aqui o medo de adjetivar, então vá lá: “espetacular” é a melhor maneira de definir essa obra, premiada na França e prefaciada por Jean-Yves Tadié, atualmente o principal biógrafo de Proust. O livro de Pedro Corrêa do Lago é generosamente ilustrado. O dado crucial é que todos os cerca de 450 manuscritos, fotografias, desenhos e cartas mostrados pertencem a ele.
Na introdução, modestamente, ele declara que seu objetivo não era escrever uma biografia de Proust; no entanto, é esse o resultado do seu trabalho. Organiza o texto em capítulos curtos, acompanhando a obra do escritor, e sua vida e a de seu círculo, de maneira cronológica, orientado pelos documentos que integram a sua coleção.
Igualmente inesperado é um fragmento de papel, onde Proust parece explorar uma alternativa à célebre abertura de seu romance, “Longtemps, je me suis couché de bonne heure”, que Mário Quintana traduziu como: “Durante muito tempo, costumava deitar-me cedo”. No fragmento em questão, quando as provas com a frase “hoje icônica”, como bem diz Pedro Corrêa do Lago, já estavam com o editor, Proust examina esta alternativa: “Ao longo de muitos anos, à noite, quando eu acabava de me deitar (...)”.
Ao utilizar apenas o seu próprio material, Corrêa do Lago comunica uma experiência pessoal sobre o autor, pois afinal, como declara, “o contato físico com o papel que ele mesmo tocou é talvez o mais próximo que possamos estar de um ser admirado e que morreu antes do nosso nascimento”.
Apenas um outro trabalho recente fala no escritor francês de maneira tão particular. Laure Murat, em “Proust, roman familial”, publicado em 2023 pela editora Robert Laffont, parte do fato de que antepassados seus o conheceram para nos entregar uma visão intimista de como “À procura do tempo perdido” modificou sua vida. Essa obra, porém, nada tem a ver com o Brasil; o espaço para me estender sobre ela é meu próximo livro, que espero poder terminar em breve.
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O embaixador Ary Quintella escreve quinzenalmente para o Estado de Minas. Seu livro “Geografia do tempo” foi, em 2025, finalista do Prêmio Jabuti
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