Chamamos de amor quase tudo o que nos emociona. Chamamos de amor o frio na barriga, a saudade que aperta, a ansiedade pela mensagem que não chega, o desejo de estar perto. Chamamos de amor até aquilo que nos faz perder o sono. Mas nem tudo o que parece amor é amor, nem merece ser chamado assim.
Há uma forma de atração que nasce em nós silenciosamente e ocupa todos os espaços da vida. Invade o pensamento ao acordar, acompanha o café da manhã, interrompe o trabalho, surge na fila do banco, no trânsito e antes de dormir. A outra pessoa deixa de ser apenas alguém importante e se transforma no centro de gravidade da nossa existência.
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Isso é paixão. Os psicólogos agora chamam de paixão obsessiva. Não concordo, mas quem sou eu... Para mim, trata-se apenas daquela forte paixão que desperta todos os nossos sentidos. Porém, para os profissionais, é uma fixação emocional capaz de durar meses, às vezes anos, alimentada mais pela fantasia do que pela realidade.
Segundo psicólogos, a sociedade quase sempre aplaudiu esse comportamento. Crescemos ouvindo canções que exaltam quem “não desiste nunca”. Assistimos a filmes cujos protagonistas insistem tanto que, no final, conquistam a pessoa amada. Aprendemos que sofrer é prova de amor, que ciúme demonstra interesse e insistir é sinônimo de coragem.
Talvez por isso seja tão complicado reconhecer quando a paixão atravessa a fronteira invisível. Sim, existe essa fronteira, e ela costuma ser rompida por pessoas possessivas e problemáticas.
O amor saudável aceita que o outro tenha vontade própria. A obsessão, não. Ela interpreta cada silêncio como desafio, cada rejeição como obstáculo temporário, cada ausência como convite para insistir ainda mais. O outro deixa de ser uma pessoa, passa a ocupar o papel de necessidade.
É uma armadilha sofisticada. Quanto menos se recebe, mais se deseja. Quanto mais distante está o objeto da paixão, mais a imaginação trabalha para preencher o vazio. A realidade perde espaço para o roteiro inventado, acredita-se que basta persistir para que tudo termine bem.
Relacionamentos acabam. Pessoas mudam de ideia. O sentimento pode existir apenas de um lado. Aceitar isso faz parte da maturidade emocional. O problema é que fomos educados para acreditar que desistir significa fraqueza, quando muitas vezes é justamente o contrário.
Existe uma grande diferença entre amar alguém e depender emocionalmente dessa pessoa. O amor amplia horizontes. A obsessão estreita. O amor permite respirar. A obsessão sufoca. O amor respeita limites. A obsessão derruba.
Vivemos numa época em que as redes sociais alimentam tal ciclo. Nunca foi tão fácil vigiar a vida alheia. Uma curtida pode ser interpretada como sinal do destino. Um “online” vira motivo para teorias intermináveis. Confundimos sofrimento com intensidade. Quanto maior a dor, maior o amor.
Porém, o amor não precisa consumir quem ama. Não exige que alguém abandone amigos, sonhos ou a própria identidade. Quando um sentimento passa a controlar a rotina e sequestrar a paz, já não é amor.
Ninguém deveria acreditar que perder a si mesmo é o preço inevitável para encontrar o outro. Amar continua sendo o encontro entre duas liberdades.
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* Isabela Teixeira da Costa/Interina
