Tem uma palavra que está muito presente nas mídias, na estética e até na medicina: antienvelhecimento. Cremes com promessa de combater o envelhecimento, suplementos para retardar, procedimentos para esconder.
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O envelhecimento se tornou um inimigo, virou uma falha que tem que ser corrigida. Mas tem um problema fundamental nessa lógica: envelhecer não é uma doença. É a consequência inevitável da vida.
Ao transformar o envelhecimento em algo que deve ser evitado a qualquer custo, a indústria da longevidade vende mais do que produtos. Vende uma visão de mundo onde rugas são fracassos; cabelos brancos, negligência, e qualquer sinal do tempo precisa ser apagado, antes que denuncie a idade. O resultado é uma cultura que trata a velhice como um erro estético e, pior, moral.
Claro que ninguém é contra viver mais – desde que se viva melhor. Avanços científicos para prevenir doenças, reduzir sofrimento e ampliar autonomia merecem ser celebrados. O problema surge quando a busca legítima por saúde se confunde com a obsessão por parecer eternamente jovem. A longevidade deixa de significar qualidade de vida e passa a significar juventude prolongada.
Nesse contexto, o envelhecimento deixa de ser um processo natural para se tornar um mercado bilionário. Cosméticos, hormônios, dietas, suplementos, exames preventivos vendidos sem necessidade e tecnologias de rejuvenescimento alimentam uma economia baseada no medo. O medo de parecer velho, menos desejável, menos relevante.
Esse medo não nasce do nada. Ele é sustentado por um preconceito silencioso, mas profundamente enraizado: o etarismo. A discriminação por idade atravessa relações familiares, ambientes de trabalho, políticas públicas e representações culturais.
Curiosamente, ninguém escapa desse preconceito. Diferentemente de outras formas de discriminação, o etarismo atinge um grupo ao qual, com sorte, todos pertenceremos. É uma forma de preconceito dirigida ao nosso próprio futuro.
A retórica do “envelhecer bem” também merece reflexão. Em princípio, ela parece positiva. O problema aparece quando esse ideal se transforma em obrigação individual. Se alguém envelhece com limitações, doenças ou dependência, a culpa parece ser exclusivamente sua: faltou disciplina, exercício, alimentação adequada ou investimento suficiente em prevenção. Ignoram-se desigualdades sociais, condições genéticas, acesso desigual à saúde e o fato de que o organismo envelhece de maneiras diferentes.
Vivemos mais do que qualquer geração anterior e convivemos com uma intolerância aos sinais naturais desse envelhecimento. Celebramos o aumento da expectativa de vida, enquanto rejeitamos o visual que inevitavelmente acompanha esse aumento.
Não se trata de condenar quem pinta os cabelos, faz procedimentos estéticos ou utiliza cosméticos. O problema está quando essas escolhas deixam de ser livres e passam a ser exigências para continuar sendo aceito. Quando parecer jovem deixa de ser uma preferência e se torna um requisito.
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A verdadeira vitória sobre o tempo nunca foi permanecer jovem, mas chegar à velhice com independência, dignidade, reconhecimento e lugar garantido no mundo.
