Anna Marina*
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É errado excluir uma amiga da reunião das amigas?

Amizades entre mulheres são territórios afetivos profundos. Ser deixada de fora soa como um veredito: "Você não é mais uma de nós"

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Existe um mito persistente nas amizades adultas: o de que maturidade elimina conflitos. Como se, depois de certa idade, todo mundo soubesse lidar com frustrações, silêncios e diferenças com elegância. Não sabe. Apenas disfarça melhor. E nada revela isso tão claramente quanto a exclusão silenciosa de alguém de um encontro entre amigas.

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A cena é comum. Um grupo se organiza, escolhe data, local, cria um grupo paralelo – às vezes nem tão paralelo assim – e decide, sem anúncio oficial, que alguém não será chamada. Não por um grande escândalo, mas por acúmulos: comentários atravessados, atitudes repetidas, desconfortos que ninguém quis nomear. Simples assim. Nem sempre, porque não é invisível.


Quando a amiga excluída descobre, a reação costuma ser intensa. Raiva, mágoa, sensação de humilhação. Não é apenas sobre ter perdido um café ou um jantar. É sobre pertencimento. E, às vezes, um pertencimento do qual ela nem participasse tanto, nem desse tanto valor quando fazia parte. Amizades entre mulheres são territórios afetivos profundos. Ser deixada de fora soa como um veredito: “Você não é mais uma de nós”.


O peso foi ter sido tirada. Mas foi errado excluir?


Não. Amizade não é contrato vitalício. Pessoas mudam, dinâmicas se transformam, e nem toda relação precisa ser mantida a qualquer custo. Ninguém é obrigado a conviver com quem constantemente fere, invalida ou desrespeita. Estabelecer limites é saudável. O problema é quando o limite vira silêncio.


Excluir sem conversa prévia é uma forma de comunicação passivo-agressiva. Evita o confronto direto, mas cria um conflito maior depois. É confortável para quem fica, devastador para quem sai. E, quase sempre, injusto, porque a pessoa excluída não teve chance de entender o que estava acontecendo. Mas é uma conversa difícil de se ter e, de certa forma, desnecessária, porque quem é “tirada” sabe muito bem o porquê.


É preciso cuidado para não romantizar a obrigação de incluir sempre. Se a relação já está desgastada, se há conflitos não resolvidos, se a presença de alguém gera tensão constante, é legítimo escolher o afastamento. Amizades adultas pedem responsabilidade emocional, e responsabilidade inclui dizer, ainda que de forma imperfeita, o que não está funcionando.


A fúria da amiga excluída nasce da exclusão e da sensação de ter sido descartada sem aviso. Talvez o maior erro não seja excluir, mas fingir que nada aconteceu. Agir como se o silêncio fosse neutro, quando ele é, na verdade, uma mensagem clara.


Amizades sobrevivem menos da harmonia constante e mais da capacidade de conversar quando algo quebra. Nem toda conversa termina bem. Algumas resultam em afastamento definitivo. Mas, quase sempre, são mais honestas do que o convite que nunca chega.


O fato é: esta conversa profunda e difícil só funciona quando a amizade é sincera e quando a amiga sabe ouvir o outro. Se o relacionamento não está neste nível, nenhuma conversa resolve. Se está, a conversa surte tanto efeito que a necessidade da exclusão acaba, e as coisas se resolvem.


A pergunta não é apenas se foi errado excluir uma amiga da reunião. A pergunta mais incômoda é: essa amizade já tinha acabado antes e ninguém teve coragem de admitir? Porque exclusões, raramente, surgem do nada. Elas são o último capítulo de diálogos adiados demais.

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* Isabela Teixeira da Costa/Interina

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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