O DNA tumoral circulante (ctDNA) representa uma ferramenta transformadora de biópsia líquida para a detecção de doença residual molecular (DRM) após terapia neoadjuvante. Os dados recentemente apresentados na 15ª Conferência Europeia de Câncer de Mama (EBCC15) estabeleceram que, embora o ctDNA seja frequentemente detectável no diagnóstico, sua presença na linha de base não apresenta significância estatística para a predição de recorrência. 

Mas o principal avanço reside na janela pós-tratamento: os níveis de ctDNA medidos após a terapia sistêmica neoadjuvante — e antes da cirurgia — servem como um preditor independente e superior de recidiva. Validados ao longo de um acompanhamento mediano de sete anos, esses achados definem as métricas preditivas precisas necessárias para avaliar o risco metastático a longo prazo.

Avaliação das métricas preditivas e do impacto clínico

A conclusão do tratamento neoadjuvante constitui um ponto de inflexão clínica crítico para a avaliação da eficácia do tratamento. A análise de coortes pós-neoadjuvantes revelou diversos indicadores prognósticos vitais:

• Pacientes com teste positivo para ctDNA após o tratamento apresentam um aumento de 3,5 vezes na probabilidade de recorrência, incluindo disseminação metastática e óbito.

• A detecção está significativamente correlacionada com doença agressiva com receptor hormonal negativo (RH-) e câncer de mama triplo-negativo (CMTN), que representaram 60% da coorte do estudo.

• O ctDNA permanece um potente marcador prognóstico mesmo em pacientes que atingem resposta patológica completa (pCR), identificando com sucesso o risco residual que a patologia tradicional pode não detectar.

Essas métricas facilitam a transição para intervenções pós-cirúrgicas guiadas por precisão e vigilância intensificada.

Atribuição formal e reconhecimento institucional

Essa pesquisa colaborativa ressalta a necessidade de estudos prospectivos multicêntricos para o aprimoramento de protocolos de tratamento individualizados. Ao identificar populações de alto risco por meio da detecção de doença residual mínima (DRM), esse trabalho fornece uma base sólida para futuros ensaios clínicos que visem determinar se os ajustes terapêuticos guiados por ctDNA podem, em última análise, melhorar a sobrevida dos pacientes.

Entendendo a biópsia líquida 

A biópsia líquida é uma tecnologia minimamente invasiva para a detecção de biomarcadores moleculares  sem a necessidade de procedimentos mais  invasivos como biópsias e cirurgias e que permite aos médicos descobrir uma série de informações sobre uma doença ou um tumor através de uma extração de uma simples amostra de sangue. 

Células tumorais circulantes ou traços do RNA ou do DNA do câncer no sangue podem fornecer informações valiosas sobre quais tratamentos são mais prováveis e efetivos para o paciente. 

Novos métodos permitem enriquecer e purificar a partir da biópsia líquida:

• DNA livre circulante (cfDNA ou ctDNA)

• Células tumorais circulantes (CTCs)

• Micro-RNA (miRNA) circulante

• Micro-vesículas extracelulares (incluindo exossomos) contendo miRNA e DNA

O recente interesse em ácidos nucléicos no plasma e soro abriu inúmeras novas áreas de investigação e novas possibilidades para o diagnóstico molecular. Em oncologia, alterações genéticas derivadas de tumor, alterações epigenéticas e ácidos nucléicos virais são encontradas no plasma/soro de pacientes com câncer. Esses achados têm importantes implicações para a detecção, monitoramento e prognóstico de muitos tipos de cânceres. 

Novos métodos dedicados  permitem enriquecer e purificar a partir dessa amostra de sangue o DNA livre de células circulantes (cfDNA), constantemente liberado para o sangue devido ao processo de morte destas células (chamada de apoptose). 

O aprofundamento dos estudos dos ácidos nucléicos no plasma e soro abriu inúmeras novas áreas de  investigação e novas possibilidades para o diagnóstico molecular do câncer, uma vez que, coletado esse DNA ( ou o RNA) tumoral, podemos então sequenciá-lo através de tecnologias moleculares avançadas como o PCR (reação em cadeia da polimerase) e,  mais  recentemente, o NGS (sequenciamento de próxima geração). Com estas tecnologias, conseguimos então detectar as alterações nas sequências nucleotídicas que compõem o DNA tumoral, como mutações e variações dos genes presentes no genoma tumoral. 

Essa detecção pode orientar os tratamentos, uma vez que hoje contamos com as chamadas terapias alvo-direcionadas ou alvo-moleculares, desenvolvidas de forma personalizada de acordo com as alterações genéticas encontradas nos tumores. 

A grande vantagem da biópsia líquida, além de ser um teste não invasivo (portanto, pode ser realizado várias vezes, o que é fundamental na monitorização do tratamento), é a de oferecer uma análise genética em tempo real de um determinado tumor, ou seja, seu “retrato”  genômico do momento do exame.  

Tumores, via de regra, apresentam heterogeneidade, ou seja, apresentam assinaturas genômicas distintas dentro do mesmo tumor e também nas metástases, sincronicamente, e durante a evolução da doença metastática.

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